Waldner Bernardo

"O momento não é fácil. Todos os segmentos estão sentindo isso. Economicamente estamos enfrentando uma fase complicada. A ausência de patrocínios impacta desde campeonatos estaduais até a viabilidade de nossos pilotos na F1"

Victor Martins, de São Paulo
A eleição feita em janeiro consagrou Waldner Bernardo como novo presidente da Confederação Brasileira de Automobilismo. Aos 41 anos, Bernardo era o candidato da situação, vencendo o oposicionista Milton Sperafico e, assim, sendo escolhido como substituto de Cleyton Pinteiro.
 

Os votos que elegeram Bernardo vieram de um colégio eleitoral diminuto, formado por federações estaduais e mais a Associação Brasileira de Pilotos. A entidade que representa os competidores votou em Sperafico. 

A vitória de Bernardo, contudo, foi por dez votos a sete. O agora presidente eleito da CBA já presidiu a Federação Pernambucana de Automobilismo e a Comissão Nacional de Velocidade da CBA. Fora do automobilismo, é dono da Allticket, empresa de controle público de eventos.

Em entrevista para o GRANDE PREMIUM, entre outros assuntos, o dirigente falou de metas para o mandato, concordou que o automobilismo brasileiro vive um momento complicado e detalhou as situações vividas pela F-Truck e pela F3 Brasil, duas das principais categorias nacionais e que passam por graves problemas.
Cleyton Pinteiro foi o comandante da CBA até o final de 2016
Diário Motorsport
GRANDE PREMIUM — Quais são suas prioridades e o primeiros passos a dar como presidente da CBA?
 
Waldner Bernardo — Os primeiros passos já estão sendo dados, que é a montagem de toda equipe — não só desportiva, mas estrutural, comunicação e marketing, que serão geridos por profissionais da área, assim como nas comissões termos profissionais de cada segmento. Quanto às prioridades, estas serão discutidas junto a cada setor. Teremos a elaboração do plano de trabalho junto com cada setor.
 
GP* — Qual é a atual situação do automobilismo brasileiro? Você a considera adequada?
 
WB — O momento não é fácil. Todos os segmentos estão sentindo isso. Economicamente estamos enfrentando uma fase complicada. A ausência de patrocínios impacta desde campeonatos estaduais até a viabilidade de nossos pilotos na F1. O ano será difícil. Teremos que procurar soluções que viabilizem nosso esporte como um todo, com uma realidade financeira diferente da que estávamos acostumados. 
 
GP* — Nos últimos anos, você sempre esteve acompanhando o ex-presidente Cleyton Pinteiro nas mais diversas situações, de modo que conhece bem o modus operandi da entidade. Qual será o seu modus operandi, onde será sua base, como será seu dia a dia? 
 
WB — As nomeações das comissões desportivas responderão a esta pergunta. Estamos acertando os últimos nomes para anunciar todos. 
 
GP* — Tem alguma previsão para este anúncio?
 
WB — Estou indo a São Paulo nos dias 2 e 3 para acertar os últimos nomes e detalhes da contratação da comunicação e do marketing. 
 
GP* — Você consegue me dizer se todas as federações locais estão com suas situações regularizadas? 
 
WB — Regularizadas em que sentido? Desportivo, contábil, administrativo?
 
GP* — Estes três itens que você mencionou.
 
WB — Posso te afirmar que, desportivamente, sim, pois caso contrário não teriam votado na assembleia. O problema é que se considera, de forma errada, automobilismo como sendo apenas velocidade no asfalto, porém temos uma variedade de modalidades, e a todas tem que se dar a mesma atenção. O fato de uma FAU não possuir autódromo não quer dizer que não tenha faça automobilismo — ou Rali e velocidade na terra não são automobilismo?
 
Do ponto de vista contábil e administrativo, como atual presidente da FPA [Federação de Pernambuco], posso apenas responder pela minha FAU: sim, estamos OK.
Waldner Bernardo é o novo presidente da CBA
CBA
GP* — Você foi eleito como candidato da situação. No entanto, o automobilismo brasileiro teve uma decadência na gestão de Cleyton Pinteiro, com o fim de autódromos e categorias, além de não saber administrar questões como antidoping. Em que você pretende mudar a gestão em relação ao seu antecessor – ou sua gestão será similar à de seu padrinho?
 
WB — Os autódromos inaugurados não entram nessa conta? Mando inclusive o processo do autódromo do Rio. Infelizmente nossa justiça não foi respeitada e não se cumpriram os acordos que existiam. Quanto às categorias, é importante entender porque deixaram de existir, a CBA não as proibiu de serem realizadas. Será que essa inviabilidade não tem também ausência de pilotos e patrocinadores? As mudanças serão vistas com o trabalho realizado. Não adianta fazer promessa.
 
GP* — Sobre autódromos inaugurados, me corrija se estiver errado: um na Paraíba e outro Curvelo (iniciativas privadas). Sobre as categorias, creio que a questão não seja a proibição ou não de categorias, mas de como a CBA atua para que elas não desapareçam...
 
WB — Como na pergunta você fez alusão a gestão do Cleyton, foram quatro — um em SP, dois em Minas e um na Paraíba —, todos privados. Com relação às categorias, ainda penso que a falta de patrocínio é o principal fator.  
O novo circuito de Curvelo
Duda Bairros
GP* — Você ganhou a eleição após uma campanha muito polarizada e um resultado muito apertado. A Associação dos Pilotos declarou voto no candidato da chapa da oposição, e isso mostra insatisfação sobre a gestão Pinteiro. Como mudar esse cenário?
 
WB — Não cabe a mim analisar gestões passadas. Estaremos em contato com a ABPA e com todas as FAUs, pensando e executado o que pode ser feitos em projetos futuros.
 
GP* — Mas você fez parte da gestão. Há algum problema em analisar algo do qual você fez parte?
 
WB — Fiz parte da comissão de velocidade pelos três últimos anos, não tenho como fazer uma análise geral destes oito anos.  
 
GP* — Durante a campanha, você falou que era necessário criar uma agenda com os gestores dos autódromos brasileiros para mostrar a importância do esporte. Quais são essas agendas? Elas já foram desenvolvidas?
 
WB — Serão feitas justamente com nossas comissões. Um dos desafios desta gestão é mostrar que aos governantes que automobilismo não é só esporte, mas também é negócio e que gera uma receita significativa.
 
GP* — A F-Truck divulgou, com atraso, o calendário desta temporada, mas sabemos que sua situação financeira está longe de ser a ideal e que houve uma série de conflitos com a CBA, sobretudo pela não quitação de taxas. Você vai homologar a categoria para que o campeonato siga em curso ou ainda há pendências a serem resolvidas?
 
WB — A empresa promotora da F- Truck, hoje não tem nenhum débito com a CBA. Não considero conflitos com o STJD como conflitos com a CBA. O contrato de promoção para esta categoria com esta empresa encerrou-se em 31/12/2016. Até o presente momento não recebemos desta empresa nenhuma solicitação de renovação de contrato e posterior homologação de calendário e regulamentos.
 
GP* — O que quer dizer, então, que a CBA não confirma, por ora, o cronograma 2017.
 
WB — Exato, até que seja efetivamente feito o contrato de promoção deste evento, não se pode homologar calendário ou regulamento.
A temporada da F-Truck continua sendo dúvida
Rodrigo Ruiz
GP* — Posteriormente à nossa conversa, a CBA expediu um comunicado em que informa a busca por um novo promotor do campeonato. Houve algum diálogo com a anterior organização de Neusa Navarro Félix antes desta decisão? Causa algum estranhamento esse ‘desligamento’ da então gestora, que, segundo consta, deve buscar uma liga para tocar um campeonato paralelo?   
 
WB — Como presidente da CNV (Comissão Nacional de Velocidade), venho desde dezembro tentando ter um retorno do promotor desta categoria, pois sabíamos que seu contrato vencia em 31 de dezembro. Foram várias tentativas sem resultado; em todas, sempre tinha uma desculpa e não conseguíamos nos reunir. A única pessoa que me atendia e sempre atende é o Jefer (Favoretto), porém não havia nenhuma definição concreta por parte dele. Fomos surpreendidos com a divulgação de um calendário sem a devida renovação de contrato promocional.
 
Por último, a CNV enviou e-mail pedindo que houvesse esta manifestação e não obteve retorno. Diante desta negativa, tivemos que tomar as medidas devidas para que possamos realizar esta importante categoria em 2017. 
 
GP* — Como você pretende trabalhar para garantir o funcionamento de praças como Brasília e categorias como a F3 Brasil?
 
WB — O assunto Brasília está sendo tratado em conjunto com a FAU deste estado e vem evoluindo, porém todos sabemos que, em se tratando de obras, a evolução é lenta. O assunto F3 também está sendo tratado com as equipes e com possíveis promotores. Para a F3, primeiro, é necessário garantir que o campeonato aconteça para depois tratar de questões de melhorias técnicas e demais equalizações.
A F3 Brasil é outra que passa por momentos delicadíssimos
Duda Bairros
GP* — Existe, de fato, algum projeto concreto de construção de um novo autódromo no Rio ou você pode admitir que o projeto de Deodoro é inviável?
 
WB — Assim que assumir, iremos nos inteirar deste assunto junto a FAERJ.
 
GP* — A sobrevivência dos autódromos não é importante apenas para a CBA, mas também para a CBM. No entanto, não existe um trabalho conjunto das duas entidades para atuar nesse sentido. É possível mudar isso? 
 
WB — Sim. 
 
GP* — Já tem alguma ideia em mente? 
 
WB — Sim, vamos nos aproximar de todos, não só da CBM e estabelecer parcerias bilaterais saudáveis.
 
GP* — O Brasil acabou de ter um campeão no Rali Dakar, um fato inédito até aqui. Existe um projeto para apoiar/desenvolver a modalidade? Há alguma intenção de receber o Dakar no período em que estiver como presidente?
 
WB — Sim, posso te garantir que o presidente desta comissão já está tratando, não só desta como de outras competições internacionais. 
Felipe Massa quase que nem volta para a F1 em 2017
Beto Issa
 
GP* — Na mesma linha, o Brasil só não ficou sem um piloto na F1 por uma enorme obra do destino. Como a CBA analisa essa falta de renovação e como pretende trabalhar para mudar esse quadro?
 
WB — Como falamos em pergunta anterior, as questões financeiras estão sendo determinantes na F1, basta ver que o companheiro do Massa [Lance Stroll] pagou uma fortuna pela vaga. Nossos pilotos têm talento, e muito, porém isso por si só não está sendo suficiente pra guiar um F1. Quanto à renovação, faremos sim nossa parte, fomentado ao máximo, através de projetos como o das escolas de kart, a inclusão e acesso de novos pilotos no automobilismo.
 
GP* — No fim da gestão passada, foi publicado que a CBA, “apesar da crise”, conseguiu reverter uma situação de prejuízo da gestão anterior de Paulo Scaglione (o que levantamos e não se confirma) e fechou 2016 com lucro de R$ 3,5 milhões. Num primeiro momento, soa interessante, mas considerando que a CBA não é uma entidade de fins lucrativos, não lhe parece que a CBA está fazendo pouco e por isso acumulou esse dinheiro? O que você pretende fazer com este dinheiro em caixa em curto prazo?
 
WB — Essa pergunta do acúmulo de receita deve ser feito a gestão atual, particularmente acho melhor ter caixa do que estar devendo. Quanto à aplicação dos recursos, iremos discutir em nosso plano de trabalho.
 
GP* — Por fim, que mensagem você tem a passar para a comunidade do automobilismo, para pilotos, dirigentes, chefes de equipe e fãs?
 
WB — Sejam participativos, sugestões e críticas construtivas devem ser feitas e serão bem-vindas. Se todos os segmentos do nosso automobilismo, como federações, clubes, associações, pilotos, equipes e imprensa, forem participativos e não só se preocuparem em criticar, com certeza evoluiremos.