Daniel Serra

“Le Mans é algo fora do normal, muito grande. Então, chegar lá e vencer é algo que não tinha imaginado. A ficha está caindo aos pouquinhos”

Fernando Silva, de Sumaré

Iluminado. Talvez seja o melhor adjetivo para descrever o momento de Daniel Serra na carreira em 2017, um ano marcado por grandes mudanças e a consolidação daquele que é um dos principais nomes do automobilismo brasileiro na atualidade. Em grande fase na Stock Car, Serrinha alcançou a glória máxima da sua trajetória: no último domingo (18), ao lado de Jonathan Adam e Darren Turner, o brasileiro de 33 anos venceu as 24 Horas de Le Mans, a mais icônica prova do endurance mundial, na classe LMGTE-Pro a bordo de um Aston Martin Vantage, uma verdadeira lenda das pistas.

O mais incrível foi que Serra alcançou o feito logo na sua estreia em Le Mans. Antes, o filho de Chico Serra sequer havia estado no circuito de Sarthe, de modo que só pode conhecer a grandiosidade do evento neste mês de junho. Levou pouco tempo para o brasileiro entender porque as 24 Horas de Le Mans fazem parte da ‘santíssima trindade’ do esporte a motor mundial ao lado das 500 Milhas de Indianápolis e do GP de Mônaco de F1.

O triunfo de Serra veio com muita emoção e uma luta franca com pelo menos outros cinco carros: o Ford GT #67 da Ganassi, guiado por Pipo Derani, Harry Tincknell e Andy Priaulx; o outro Aston Martin, o #95 guiado por Nicki Thim, Marco Sorensen e Richie Stanaway; o Porsche 919 RSR 2017 de Richard Lietz, Frédéric Makowiecki e Patrick Pilet; a Ferrari 488 #71 da AF Corse de Sam Bird, Davide Rigon e Miguel Molina e, por fim, o grande concorrente da tripulação de Serrinha: o Corvette #63 dos experientes Jordan Taylor, Antonio García e Jan Magnussen.

A batalha contra o Corvette durou até a última volta da prova. Com Adam ao volante do Aston Martin e Taylor na condução do #63, a LMGTE-Pro teve um desfecho épico, na qual levou a melhor a montadora britânica, que festejou uma vitória suada que veio na esteira da pole-position. E, durante a prova, Serrinha alcançou o feito de marcar a volta mais rápida da prova — 3min50s950 — e foi peça fundamental no triunfo da Aston Martin em Le Mans. Uma conquista gigante para um novato em Sarthe.

Foi a terceira vez que um piloto brasileiro subiu no topo do pódio em uma categoria em Le Mans. Antes de Serrinha, apenas dois nomes alcançaram tamanha façanha: Thomas Erdos, carioca de 51 anos que hoje é radicado na Inglaterra, foi bicampeão na LMP2 em 2005 e 2006. Jaime Melo Jr. também fez história para o automobilismo brasileiro em Le Mans ao vencer na classe GT2, hoje equivalente à LMGTE-Pro da qual Serra foi triunfou no domingo. O paranaense conquistou a vitória em Sarthe em 2008 e 2009 a bordo de uma Ferrari F430 da equipe italiana Risi Competizione.

Dois dias depois da glória em Le Mans, Serra já está de volta ao Brasil, onde comemora o grande feito da carreira. Feliz da vida e impressionado com tudo o que viu e viveu nos últimos dias, Daniel falou ao GRANDE PREMIUM e deu detalhes da grande conquista na França: o desafio por si só, o pouco tempo para descanso, a grandiosidade de Le Mans, o drama de acompanhar a luta pela vitória do lado de fora e a dimensão do que alcançou. Algo que nem mesmo o próprio Daniel Serra sabe ainda descrever.

A maior glória da carreira de Daniel Serra: a vitória nas 24 Horas de Le Mans
José Mário Dias


GRANDE PREMIUM: Você já tem a dimensão do que acabou de conquistar?

DANIEL SERRA: A ficha ainda não caiu. Está caindo aos pouquinhos. Acho que você só entende o tamanho da corrida quando você está lá e participa. Eu sequer havia assistido antes lá as 24 Horas de Le Mans, e quando você chega lá e vê o tamanho do evento, é algo fora do normal, muito grande. Então, chegar lá e vencer é algo que não tinha imaginado. A ficha está caindo aos pouquinhos.


GP*: Chegar a Le Mans, uma prova grandiosa, gigantesca em todos os sentidos e vencer logo de cara. Como é ‘chegar chegando’ e fazer história?

DS: Eu nunca imaginaria chegar assim, desse jeito. Lógico que a gente tem aquela vontade de chegar lá e fazer um bom trabalho. Mas, sabendo o quanto é difícil e dura a corrida, você nunca acha que vai chegar lá, ter melhor volta, ter pole. É algo que você não imagina. Então estou muito feliz por isso, pela equipe, pelos meus companheiros de equipe, que fizeram um trabalho sensacional. Não tenho palavras para explicar como é a sensação ali no momento da bandeirada.
 

GP*: Como é estar em Le Mans e sentir toda essa magia de um evento tão singular? Desde o começo dos trabalhos, a expectativa para a prova e tudo o que a cerca, como foi para você vivenciar tudo isso pela primeira vez?

DS: Foi uma experiência muito legal, um evento muito grande, que começa muito antes da corrida. Durante a semana nós temos muitos eventos, o ‘Drivers Parade’, que é muito grande, muita gente assistindo na rua, ali prestigiando os pilotos. É um evento muito grande, foi muito legal essa experiência. Não só pela vitória, mas por estar lá, por conhecer o evento, ver o tamanho e a dimensão dele. Foi muito bacana.


GP*: O que mais te impressionou nessa jornada em Le Mans? O que mais te chamou a atenção?

DS: O que chama a atenção mesmo é o público que está lá durante essa semana de evento. Nunca tinha visto isso em nenhuma corrida. Acho que foi o que mais me chamou a atenção. (nota da redação: a edição de 2017 registrou o recorde de público: 268,5 mil espectadores).
 

Serra conheceu de perto a grandiosidade das 24 Horas de Le Mans
José Mário Dias

GP*: A LMGTE-Pro se mostrou desde o início como a categoria mais parelha dessa última edição de Le Mans. Ainda assim, com tantos carros próximos (o Aston Martin #95, a Ferrari, a Porsche, a Corvette), você classifica esse resultado como uma surpresa? Você ficou surpreso?

DS: Foi a categoria mais disputada, do começo ao fim, com todas as montadoras tendo chance de brigar pela vitória. Não dá para falar que foi uma surpresa por toda a preparação que a equipe fez. Foi algo que nunca tinha visto antes. O quanto eles estavam preparados para o que poderia acontecer: o lado positivo, o negativo, a estratégia. É uma preparação fora do normal, e que acabou dando resultado.
 

GP*: Você já tinha feito outras provas de 24 horas antes, como em Daytona. Mas o que difere em relação a Le Mans, por exemplo?

DS: Eu já tinha feito Daytona, que é muito legal de fazer. Mas Le Mans, sem dúvidas, é muito maior que Daytona. A prova também é um pouco mais cansativa do que em Daytona. Lá eu fiz com mais três pilotos, enquanto em Le Mans são só três pilotos por carro, o que torna tudo mais cansativo, você tem menos tempo para descansar entre um stint e outro. Mas Le Mans é algo muito grande e um dos maiores eventos do automobilismo.
 

GP*: Como funciona em Le Mans em relação ao descanso, por exemplo? E como é a hidratação em todo esse período, dentro e fora do carro?

DS: O descanso é importantíssimo; a hidratação, principalmente. Você perde muito líquido, então você tem de ficar o tempo todo se hidratando, dentro e fora do carro, já que a gente volta para o carro várias vezes. Eu, por exemplo, entrei no carro quatro vezes. E em todas foi para um stint duplo, de duas horas dentro do carro, e com isso, quando saí, tinha quatro horas até voltar de novo.

Então não tinha muito tempo para descansar porque, até sair do carro, sair do briefing que você faz ali logo que você sai do carro com seu engenheiro, você já gasta ali 30, 40 minutos, e você tem 30, 40 minutos antes para ficar pronto antes de começar outro stint. Acabei dormindo só duas horinhas, e acho que isso acabou deixando o fim de semana mais cansativo, mas é bem importante tentar descansar o máximo, se hidratar e se alimentar bem.

Serra deixou ótima impressão na Aston Martin. E negocia para continuar
José Mário Dias

 

GP*: Qual foi, para você dentro do carro, o momento mais tenso durante a prova? É muito difícil guiar em Le Mans, no limite o tempo todo, no período da noite?

DS: O período mais crítico é a noite, onde acontecem os maiores acidentes. Porque, além de estar guiando no limite, você tem de ficar preocupado com o trânsito, com os carros mais lentos, os mais rápidos que vêm atrás de você. E às vezes na LMP2 não é sempre um piloto profissional que está guiando, às vezes é um amador. Então você tem de estar sempre tomando cuidado por você e pelos outros. Então, sem dúvidas, a parte mais dura da prova é a noturna.


GP*: O que foi mais tenso? A missão de fazer os seus stints ou acompanhar as últimas voltas da prova naquele duelo alucinante com o Corvette?

DS: Ficar fora é algo que não estou acostumado [risos]. Então, olhar de fora, ver a disputa do seu carro sem estar nele é o momento mais tenso.


GP*: Você continua com a Aston Martin para a sequência do WEC nesta temporada? Já começaram a conversar a respeito?

DS: Vamos ver o que vai acontecer. O que eu tinha certo eram essas três primeiras corridas. Estamos conversando. Vamos ver o que vai acontecer daqui pra frente.
 

A missão de guiar em Le Mans à noite: o grande desafio de Daniel Serra
José Mário Dias

GP*: Você tá numa grande fase também na Stock Car, ali, sempre entre os
melhores e fazendo um grande trabalho. Isso realmente dá uma motivação muito a mais e o faz chegar a Curitiba com muita moral para a Corrida do Milhão. Chegou a hora de fazer história por aqui?

DS: É difícil saber o que vai acontecer. A Stock Car é uma categoria muito competitiva, é apertadíssima, com um nível muito alto. A gente está num bom momento, a equipe está muito bem, o carro tem sido rápido em todas as etapas. Vamos continuar trabalhando, fazendo um bom trabalho para chegar lá no fim disputando também esse campeonato.


GP*: Por tudo o que você tem feito na Stock Car e, sobretudo, ainda mais agora com seu resultado em Le Mans, você se vê no auge da forma e da carreira?

DS: Acho que estou num bom momento da carreira, com bons resultados na Stock Car e, agora nas 24 Horas de Le Mans. Estou muito feliz com esse momento que estou vivendo. Feliz com a equipe nova na Stock Car, também na Aston Martin. É seguir trabalhando sempre e, se Deus quiser, continuar tendo bons resultados.