A escolha entre a bola ou a batata quente

A manutenção do formato de classificação radical já para a estreia na Austrália é a demonstração de que os pilotos não têm voz no grid da F1. Ou tomam atitude ou baixam a cabeça

Victor Martins, de São Paulo

A F1 parece mesmo disposta a comprar brigas em 2016 com as mudanças que vai – ou que pretende – aplicar. Mesmo após uma reunião depois dos treinos coletivos na última terça-feira, em que boa parte dos pilotos expressou a Charlie Whiting sua insatisfação com o novo formato de classificação apresentado, o Conselho Mundial do esporte confirmou nesta sexta-feira (4) que vai promover a mudança no sistema. Daqui 15 dias na Austrália, os pilotos vão passar pelas três fases ‘Q’ sendo eliminados um a um até que se chegue ao pole.

A ‘dança da cadeira’ não é interessante porque, segundo os pilotos, cria uma confusão para todo mundo. De fato, a comunicação via rádio deve ser frenética: a todo tempo, os engenheiros vão precisar informar quem é que está à beira de ser rifado ou propriamente ‘na bolha’ do corte. O nível de concentração vai ter de ser extremo. Para os fãs que estão vendo pela TV, a tendência não é essa porque a FOM e o sistema de cronometragem, supõe-se, vão ter tempo suficiente para mostrar com gráficos e números o que está acontecendo.

O que está por trás de tudo isso não é a decisão em si ratificada pela instância máxima do automobilismo, mas a provável – e compreensível – decepção e indignação dos pilotos por terem sido ignorados em seu pedido de dias atrás. Some-se a isso o cenário em que o descontentamento com os carros é perceptível, sobretudo por considerá-los lentos e com pouco ruído, e a aparição do Halo, a peça que é tida como a solução para proteger a cabeça dos pilotos – que, sim, é necessária –, mas que desagrada quase que unanimemente por seu formato peculiar e horroroso.

Não adianta focar em si mesmo em um momento em que os pilotos estão tão desvalorizados na F1
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Se o cenário é a queixa que vai do triste e veterano Fernando Alonso – “ninguém gosta desta F1”, “se alguém escutar as reuniões dos pilotos ou o que dizem nas voltas em que andamos na pista [no caminhão, aos domingos], vê que ninguém gosta”, “a F1 um pouco diferente e um pouco mais chata na hora de guiar” – ao descontente e jovial Daniil Kvyat – “eu aceito o perigo” –, a mudança abrupta do método para definir o grid de largada a contragosto deixa um sinal vermelho duradouro e, de quebra, transformar de vez os pilotos em meras marionetes de um espetáculo que já não é assim por definição há um bom tempo. 

Não vão bastar as entrevistas e as redes sociais de cada um a eles todos porque se denota que suas vozes não são ouvidas. Descontentes e desvalorizados, só resta que o primeiro tome atitude e se levante, chegue ali para encontrar o outro, eventualmente até mesmo aquele grupo que esteve com o diretor da FIA dias atrás, e assim vai até que consigam pelo menos uma maioria disposta a sentar e alinhar as ideias. Alonso e Hamilton, por exemplo, acham a alteração na classificação desnecessária; Vettel foi na linha de Massa e falou em caos. É preciso vontade e esforço para convencer primeiro seus egos e, então, ir bater de frente com quem se deve. Se não der tempo nos boxes, certamente um deve ter o telefone do outro, Whatsapp, ICQ, essas coisas modernas que permitem molecagens e nudes, mas que podem cair bem neste caso. 

Não faz sentido para quem vê se divertir com uma eventual mudança radical – e a ideia proposta do mata-mata não é das piores – se quem está lá dentro não tira proveito do que faz. Palhaço triste não faz ninguém rir e comida não sai bem se a pessoa não coloca aquela pitada de amor.

A bola está com os pilotos. Eles agora que vão decidir se vão para o campo juntos ou se a transformam em batata quente.