Parando no auge

Nico Rosberg alcançou seu objetivo na F1. Continuar, pra quê? E pra muita gente, criticar seria até hipocrisia

Renan do Couto, de São Paulo

Nico Rosberg chocou o mundo do esporte a motor no final da manhã desta sexta-feira ao anunciar sua aposentadoria do Mundial de F1. Ele encerra sua carreira no auge, cinco dias depois de colocar seu nome na galeria dos campeões.

A decisão de encerrar a carreira não foi tomada nos últimos cinco dias, porém. Nico começou a pensar nisso após vencer o GP do Japão, em Suzuka. Dali em diante, poderia ser campeão chegando três vezes em segundo e uma em terceiro. A pressão que veio junto daquilo, o mês e meio que se sucedeu e, enfim, a conquista, corroboraram para a decisão. 

“No domingo de manhã, eu sabia que aquela poderia ser a minha última corrida, e aquela sensação ajudou a limpar a minha mente antes da largada. Queria aproveitar cada parte dela, sabendo que poderia ser a última vez. E então as luzes se apagaram e eu tive as mais intensas 55 voltas da minha vida.”
Nico Rosberg

Nico foi campeão. Comemorou. E 24 horas depois, teve certeza de que tinha feito o bastante. Falou com Vivian, sua esposa. Falou com George, seu manager. E comunicou Toto, seu chefe.

Do ponto de vista esportivo, a decisão de Rosberg até pode denotar uma falta de ambição. O alemão certamente vai ser execrado por ter decidido parar assim, no auge. Aliás, ele já era criticado por essa “falta de gana”, por ter completado a temporada 2016 com o “regulamento embaixo do braço”.

Não deixa de ser verdade.

Por outro lado, há o aspecto pessoal. Quantos de vocês que estão lendo este texto não dizem aos quatro ventos que, se ganharem na sena, se ficarem ricos, vão largar tudo? Parar de trabalhar? Apenas viajar o mundo e cuidar da família?

Rosberg na F1

206 largadas | 23 vitórias (13º) | 30 poles (8º) | 20 voltas mais rápidas (14º) | 57 pódios (12º) | 1594,5 pontos (4º) | 11159 voltas percorridas / 56096 kms | 1532 voltas na liderança (12º) / 7581 kms

Rosberg tem o seu pé-de-meia. Correndo pela Mercedes desde 2010, ganhou bons milhões de dólares. Deixando esse dinheiro aplicado, pode viver de rendimentos pelo resto da vida. E poderá curtir a filha, Alaia, que nasceu em outubro de 2015. Vai falar que você nunca cogitou/vislumbrou/sonhou isso?

Uma temporada de F1 é extremamente desgastante, ainda mais agora, com 20 ou 21 corridas por ano. As temporadas são longas. Para os pilotos, estressantes. Precisam lidar não só com a competição — e uma ferrenha disputa interna no caso da Mercedes com Rosberg e com Lewis Hamilton. Há as obrigações com patrocinadores, as perguntas muitas vezes incômodas da imprensa. Nico não tem mais o pique para encarar mais um ano desses. Ele queria se tornar um campeão mundial de F1. Isso está feito.

Sinceramente, não julgo. Rosberg vai ser lembrado como um dos grandes de todos os tempos? Não. Eu não me importo, ele não se importa. O título está garantido e será lembrado por toda a história. 

“Com o trabalho duro, a dor, e os sacrifícios, este era o meu objetivo. Agora eu consegui. Eu escalei minha montanha, estou no pico, então parece certo. O sentimento mais forte neste momento é uma gratidão profunda por todos que me apoiaram para fazer este sonho acontecer”
Nico Rosberg

Rosberg não é o primeiro campeão a deixar a F1. Ele é o primeiro a fazê-lo desde Alain Prost, que se aposentou após o tetra com a Williams em 1993. Um ano antes, Nigel Mansell fizera o mesmo para guiar na Indy, voltando à F1 em 1994 após a morte de Ayrton Senna. Nos anos 70, Jackie Stewart se despediu das pistas com o tricampeonato. Nos anos 50, Juan Manuel Fangio efetivamente se aposentou ao final de 1957, disputando apenas duas provas na temporada seguinte. E Mike Hawthorn, o campeão de 1958, anunciou que deixaria a F1 por causa dos riscos para acabar morrendo em um acidente de carro na Inglaterra meses depois.

Há ainda o triste caso de Jochen Rindt, que morreu a caminho do seu primeiro e único título mundial, conquistado de forma póstuma no fim de 1970.

“Oi, sumido”


E agora, Mercedes? Quanto mais Toto Wolff e seus colegas demorarem para se mexer, maiores são os indícios de que o time está interessado em alguém que tem contrato para 2017.

Se Toto foi mesmo avisado por Rosberg na segunda-feira, já teve tempo para discutir com Paddy Lowe, Niki Lauda e demais envolvidos no processo de tomada de decisão a possibilidade de promover Pascal Wehrlein. Aí, de duas, uma: ou não querem, ou apenas querem reservar as próximas horas para que Rosberg seja o centro das atenções.

Wehrlein é bom piloto. Em 2015, tornou-se o mais jovem campeão da história do DTM, e foi bem na Manor, anotando no GP da Áustria o único ponto da sua equipe. Neste ano, porém, a Force India ficou entre ele e Esteban Ocon para a próxima temporada, e optou pelo francês. Ambos já tinham feito testes com o time baseado em Silverstone. O que eles sabem que nós não sabemos? Pascal também guiou nesta semana, de última hora, a Mercedes nos testes de pneus em Abu Dhabi.

Wehrlein com certeza é a opção mais fácil. Mas a Mercedes pode querer alguém mais experiente para o lugar do campeão mundial
Mercedes

Fora Wehrlein, tudo depende de como estão amarrados os contratos de cada piloto. Quem tem uma cláusula de rescisão que pode ser acionada? Uma cláusula baseada em desempenho poderia liberar Fernando Alonso da McLaren, Valtteri Bottas da Williams ou até Sebastian Vettel da Ferrari, por que não? Bottas, diga-se, tem Wolff como empresário.

A julgar que o contrato de Ricciardo é semelhante ao de Vettel quando o tetracampeão deixou a Red Bull, o australiano estaria preso ao time. Mas e quanto a Max Verstappen?

E a Mercedes ainda poderia olhar para os outros dois aposentados deste ano: Jenson Button ou Felipe Massa. Sim, Massa seria uma escolha bem improvável, mas na impossibilidade de contar com os outros, a vaga da Mercedes seria a opção competitiva que ele gostaria de ter para seguir na categoria. Só que, no momento, com os pés no chão, ele nem conta com isso. E Button certamente trocaria o ano sabático por uma Mercedes.

A Mercedes gostaria de contar com Alonso ou Bottas. Ao mesmo tempo, um pouco de tranquilidade após turbulentos anos de Hamilton e Rosberg também seria bom. Fora tudo isso, ser alemão interessaria. Dentro dessa lógica, Wehrlein é a opção mais fácil. Mas, sinceramente, não arrisco um palpite. 

Rosberg começou dezembro abrindo a possibilidade para as mais loucas especulações no inverno da F1.

Ah, e se você pensou NELE, o Instagram já foi até atualizado:

 

 

Avisa la avisa la avisa la oooo. Avisa la q eu vou😂😂😂😂😂💨💨💨💨//// just pls tell them that I am on my way hehehehe

Uma foto publicada por Rubens Barrichello 1️⃣1️⃣1️⃣ (@rubarrichello) em

O derradeiro momento de Rosberg na F1 não poderia ter sido melhor
Mercedes

Na seção 'Por Fora dos Boxes', Renan do Couto publica às terças e sextas-feiras opiniões, análises, reportagens e outros conteúdos especiais a respeito do Mundial de F1 e das demais categorias do automobilismo mundial. Renan também é narrador dos canais ESPN e ganhou, em 2015, o Prêmio ACEESP de melhor reportagem de automobilismo com o Grande Prêmio.

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