Ferrari e Mônaco: uma combinação nem tão perfeita

A última vitória da Ferrari no GP de Mônaco aconteceu há exatos 15 anos — e é surpreendente pensar que esta não é nem a segunda maior seca da equipe italiana no Principado

Renan do Couto, de São Paulo

Luxo, glamour, sofisticação, riqueza… Se você parar para pensar em um carro e um lugar que representem isso no mundo da F1, lembrará imediatamente da Ferrari e de Mônaco. Ironicamente, essa combinação não é das melhores.

É verdade que a escuderia italiana é a segunda equipe que mais venceu o GP de Mônaco, mas em uma cidade em que há Ferraris por todos os lados, é até estranho imaginar que já se passaram 15 anos desde a última vitória por lá. E olha que essa nem é a maior seca.

Com dois vencedores da prova no plantel, a expectativa deveria ser das melhores, porém os resultados dos treinos livres não foram grande coisa. De qualquer forma, vamos aproveitar para lembrar um pouco da história do time de Enzo Ferrari no Principado...

A Ferrari tem oito vitórias em Mônaco. A primeira delas foi conquistada de forma um tanto inesperada, com Maurice Trintignant. O francês aproveitou os abandonos dos favoritos para ganhar em 1955.

Enzo bem que gostaria de ver seus carros vencendo no Principado todo ano, contudo, seguiu-se uma seca de 20 anos. Foi só em 1975 que o time voltou a vencer, com Niki Lauda. O austríaco faturou a prova também em 1976, e então vieram Jody Scheckter em 1979 e Gilles Villeneuve em 1981. Nessa época, a Lotus era a maior vencedora do GP, e a McLaren logo passaria voando por ambas com nove vitórias em dez anos.

E, então, houve mais um longo jejum. Foram 16 anos até Michael Schumacher triunfar em Mônaco em 1997, 1999 e 2001.

Uma primeira leitura que pode ser feita é que, por muitos anos, a Ferrari investiu muito mais em motor do que em chassi. Nas apertadas ruas do Principado, um chassi equilibrado é fundamental.

Um segundo aspecto que podemos lembrar é que as duas primeiras secas coincidiram com períodos de vacas magras em Maranello, mesmo. Nos 20 anos entre as vitórias de Trintignant e Lauda, foram quatro títulos, em 1956, 1958, 1961 e 1964 — com mais de dez anos sem uma taça. E nos 16 que separaram as conquistas de Gilles e Schumi, apenas duas taças do Mundial de Construtores. 

Não dá para dizer o mesmo dos últimos 15 anos. De 2002 para cá, a Ferrari ganhou quatro títulos de Pilotos e cinco de Construtores.

Os últimos 15 anos

 

Foi em 27 de maio de 2001 que Michael Schumacher venceu pela quinta vez no GP de Mônaco, igualando Graham Hill, história contada no 'Na Garagem' de hoje, no GRANDE PRÊMIO. Mas ele nem era o favorito para aquela prova, ainda mais diante do resultado do treino classificatório: David Coulthard largaria na pole-position. O fato de o escocês ter ficado parado no grid na saída para a volta de apresentação deixou o caminho livre para o alemão.

Desde então, foram nove pódios e apenas uma pole para a Ferrari no Principado.

Schumacher não conseguiu passar Coulthard em 2002 e passou quase 50 voltas atrás de Juan Pablo Montoya e Kimi Räikkönen em 2003. Em 2004, assumiu a liderança durante um safety-car, mas se enroscou com Montoya no túnel ainda na bandeira amarela e abandonou. Em 2006, parou na Rascasse para tentar atrapalhar Fernando Alonso. Foi punido, largou em último e chegou em quinto. Neste meio tempo, Rubens Barrichello foi terceiro em 2004 — o quarto de seus cinco pódios no circuito.

E o curioso é que todos os pilotos que foram contratados pela Ferrari após a saída de Schumacher já tinham no currículo vitórias em Mônaco: Räikkönen, Fernando Alonso e Sebastian Vettel.

Kimi ganhou em 2005, de McLaren, liderando todas as 78 voltas da prova. Nas cinco vezes que correu em Mônaco de Ferrari, teve um terceiro lugar em 2009 como melhor resultado.

Alonso o sucedeu no topo do pódio. Triunfou de Renault em 2006 e de McLaren em 2007. Com a Ferrari, entre 2010 e 2014, foi segundo em 2011 e terceiro em 2012.

Por fim, Vettel se prepara para seu segundo GP de Mônaco de vermelho. Ele faturou a prova em 2011. No ano passado, foi segundo, conseguindo a façanha de bater uma das Mercedes.

Para não deixar passar batido, ainda houve Felipe Massa, é claro, que correu pelo time entre 2006 e 2013.

Massa fez a única pole da Ferrari em Mônaco neste século, em 2008 — uma pole improvável. Mas a corrida foi prejudicada por um erro dele, por um grande erro de estratégia da Ferrari e, claro, pela sorte que deu Lewis Hamilton — um erro do britânico nas voltas iniciais acabou por colocá-lo na liderança e no caminho da vitória. Provavelmente, o grande momento desta década e meia. De todos estes anos, as melhores chances de vitória foram mesmo em 2002 e em 2011. A festa, contudo, aconteceu na garagem ao lado.

O grande momento da Ferrari em Mônaco nos últimos 15 anos foi a pole de Felipe Massa em 2008
Ferrari

Vettel foi perguntado sobre o assunto nesta semana e saiu pela tangente. “Acho que dá para aplicar números assim em vários outros lugares. Eu acho que todos nós sabemos que queremos levar a Ferrari de volta ao topo. É um desafio muito difícil, mas é a meta”, afirmou.

Bem, nem tanto, Seb. A seca do GP de Mônaco é a maior que a Ferrari vive no momento, levando em conta as corridas que estão no calendário da F1 em 2016.

As últimas vitórias no Canadá e no Japão foram em 2004, com Schumacher. Nos Estados Unidos, em 2006, também com o heptacampeão, mas a corrida esteve fora da rota de quatro campeonatos. Na Áustria, Schumi ganhou em 2003, quando a F1 deixou o circuito para só voltar em 2014.

Resumindo, de 20 provas com história na F1, a Ferrari ganhou em sete nos últimos cinco anos, mas só está em jejum há mais de dez edições em três. As duas provas que o time nunca venceu são as da Rússia, que debutou em 2014, e de Abu Dhabi, desde 2009.

Curiosamente, Abu Dhabi é outra cidade em que há Ferraris em tudo que é canto. Também é lá que a marca construiu seu famoso parque temático.

Sebastian Vettel está disposto a acabar com a seca da Ferrari em Mônaco
Getty Images

A escrita será quebrada em 2016?

 

Mônaco é, ao mesmo tempo, um circuito em que o melhor carro costuma vencer, mas que também nos propicia grandes surpresas.

Nos últimos 11 anos, não fugiu muito disso. Se o carro vencedor não foi o que levou o Mundial de Construtores no fim do ano, foi na pior das hipóteses o vice-campeão (claro, considerando a McLaren de 2007).  

Superar a Mercedes é uma tarefa bem complicada. A equipe terminou o sábado com o melhor tempo nos últimos quatro anos, e venceu nos últimos três.

Nos treinos da quinta-feira, Daniel Ricciardo surpreendeu e liderou com 0s606 de vantagem para Lewis Hamilton. Sebastian Vettel, no combinado das duas sessões, veio só em sexto lugar, atrás das duas Mercedes, da outra Red Bull e da Toro Rosso de Daniil Kvyat.

Quem pode ser a melhor amiga da Ferrari no domingo é a chuva. Vettel provavelmente não vai fazer a pole no sábado, mas com a pista molhada, o risco de acidentes crescerá demais.

E sabem como a chance de confusão será maior? Se a pole for da Red Bull. Com a Mercedes fora de posição, a história das corridas tem sido muito diferente. 

As equipes com vitórias em Mônaco

 

1. McLaren — 15
2. Ferrari — 8
3. Lotus — 7
4. BRM — 5
5. Cooper, Tyrrell, Williams, Red Bull e Mercedes — 3
6. Maserati, Brabham, Benetton e Renault — 2
7. Alfa Romeo, Wolf, Ligier e Brawn GP — 1

Na seção 'Por Fora dos Boxes', Renan do Couto publica às terças e sextas-feiras opiniões, análises, reportagens e outros conteúdos especiais a respeito do Mundial de F1 e das demais categorias do automobilismo mundial. Renan também é narrador dos canais ESPN e ganhou, em 2015, o Prêmio ACEESP de melhor reportagem de automobilismo com o Grande Prêmio.

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