Cada um por si e a Red Bull contra todos

A Red Bull fritar jovens pilotos não é bem uma novidade, mas até para os padrões de Helmut Marko a decisão de trocar Daniil Kvyat por Max Verstappen foi surpreendente. Agora, há algo a mais por trás dessa mudança?

Renan do Couto, de São Paulo

Já vimos e já comentamos várias vezes a respeito da alta cobrança que há dentro da Red Bull. Todavia, nenhum exemplo havia sido tão brutal quanto o desta quinta-feira. Daniil Kvyat não é mais piloto da Red Bull Racing, tendo sido rebaixado para a Toro Rosso. Max Verstappen sobe para o time principal a partir do GP da Espanha.

Christian Horner não falou muito a respeito de Kvyat, mas o recado ficou claro não só para ele: também para os que estão aí e os que virão depois.

E é para ninguém duvidar da Red Bull. Uma coisa seria falar em trocar de piloto no fim do ano, ou, de repente, daqui a uma ou duas corridas, dependendo do andar da carruagem. Outra é fazê-lo cinco dias depois do GP da Rússia.

 
“Estamos na posição única de ter quatro pilotos na Red Bull e na Toro Rosso sob contratos de longo prazo com a Red Bull, então temos a flexibilidade de movê-los entre as duas equipes. Dany poderá continuar seu desenvolvimento na Toro Rosso, uma equipe com a qual ele já está familiarizado, dando-lhe a chance de recuperar sua forma e mostrar seu potencial.”
Christian Horner

Bom, vamos lá, à sequência de acontecimentos que culminou com o chocante anúncio às 5h da matina no horário de Brasília, fazendo pular da cama tanto o repórter que estava acordando quanto o que estava indo dormir.

Kvyat teve um início de ano complicado. Nem passou do Q1 na Austrália e se classificou só em 15º no Bahrein. Enrolou-se com o sistema de classificação? Não, faltou ritmo mesmo. Mas o cara se recuperou bem no GP da China, com uma manobra ousada na primeira volta para passar à frente das duas Ferrari e, ao final da corrida, terminar no pódio.

É bem verdade que ele perdeu o segundo lugar para Sebastian Vettel e que terminou apenas 7s à frente de Ricciardo, que teve um pneu furado no começo da prova e caiu para o fim da fila. Mesmo assim, terminou no pódio e saiu com moral. Ele tinha razão em uma polêmica envolvendo um tetracampeão. A coragem de executar uma arriscada manobra na largada o levou ao pódio.

Duas semanas depois, e o mundo desabou em sua corrida de casa. Primeiro, errou na freada da curva 2. Travou as rodas, acertou bisonhamente a Ferrari do mesmo Vettel, que por sua vez jogou Ricciardo para fora. Instantes depois, acertou a traseira, claro, de Vettel, e tirou o alemão da corrida. Há quem diga que o primeiro lance foi o pior; há quem critique o segundo: o debate só reforça a atuação grotesca em Sóchi.

O que complica ainda mais a questão é: a corrida da Red Bull foi por água abaixo por causa daquilo. Os dois pilotos despencaram para o fim da fila e tiveram de fazer uma parada a mais nos boxes por causa de Kvyat; o russo ainda precisou cumprir um stop-and-go, enquanto Ricciardo perdeu mais tempo ainda porque, no pit-stop do fim da primeira volta, chegou depois. Nenhum dos dois pontuou, e a vantagem da Ferrari para a RBR subiu para 19 pontos, ao passo que a Williams encostou e está só quatro atrás.

Quanto maior a altura, maior a queda: Verstappen certamente está nas nuvens com a meteórica ascensão à Red Bull, mas é bom ficar esperto. O Dr. Marko não perdoa
Red Bull/Getty Images

Agora, aos métodos. 

Ao longo dos anos, Helmut Marko não teve pudor em expor os garotos do Red Bull Junior Team a um nível altíssimo de cobrança. Críticas públicas, pilotos dispensados depois de um ano, ou até menos. De qualquer maneira, apesar de às vezes parecer se tratar de "cada um por si e a Red Bull contra todos", é um programa que tem dado resultados.

O próprio Kvyat é um bom fruto criado lá dentro, embora seus passos tenham sido um pouco maiores que a perna. Ele foi campeão da GP3 em 2013 e furou a fila para ser colocado direto na Toro Rosso em 2014, aos 19 anos. Fez um bom ano de estreia e, lá dentro, convenceu mais do que Jean-Éric Vergne. Assim, quando Vettel avisou que sairia para a Ferrari, foi imediatamente nomeado como substituto. Por fim, em 2015, teve uma transição complicada em um ano em que a Red Bull e principalmente a Renault erraram na parte técnica. Recuperou-se no segundo semestre e foi ao pódio no GP da Hungria, em segundo lugar com o australiano em terceiro. Pois é, nos últimos dois anos, o primeiro pódio da Red Bull no campeonato foi dele. Ah, e claro, ele somou mais pontos que Ricciardo no ano passado!!

Parece até que estamos falando de técnicos no futebol brasileiro.

Na F1, o corte tinha sido cruel em situações diferentes. Sébastien Bourdais foi demitido após um ano e meio de muita briga e pouco resultado. Jaime Alguersuari chegou a tomar um esporro público, mas só saiu mesmo depois de três anos, assim como Sébastien Buemi. Vergne, idem.

A verdade é que Kvyat foi fritado. Essa conversa de voltar para a Toro Rosso para recuperar a confiança… Será preciso muito sangue de barata — e um fracasso enorme de Verstappen — para entregar resultados de cara e recuperar o lugar em Milton Keynes.

Agora, para Verstappen, é bom que ele se cuide. Há três anos, ele era piloto de kart. Passou um ano na F3 Europeia antes de chegar à F1 e impressionar pela Toro Rosso. Mas da mesma forma que ele foi alçado meteoricamente a um cockpit em uma equipe tetracampeã do mundo, pode ser limado de uma hora para a outra de lá se não andar bem.

E até mesmo o timing da mudança nos deixa com mais dúvidas na cabeça. Não faria sentido dar a Kvyat, responsável, há 20 dias, pelo melhor resultado do time em 2016, a chance de se redimir no GP da Espanha? Se fracassar, a F1 fará dois dias de testes por lá após a corrida, tempo para Verstappen se adaptar ao RB12 e estrear em Mônaco. Mas não, tinha que ser já.

Verstappen é talentoso e tido por muitos como um futuro campeão mundial. Pode vir a ser. Também tem um ego enorme e está se mostrando impaciente, doido para pular para uma equipe de ponta sem medo de deixar os rubro-taurinos para trás. Colocá-lo na RBR é uma forma de segurá-lo na empresa. "Max provou ser um talento fora de série. Sua performance na Toro Rosso foi impressionante até aqui e estamos satisfeitos por lhe dar esta oportunidade na Red Bull Racing", disse Horner. Lá dentro, é possível ter uma visão bem diferente. A quantidade de informações com que trabalham as equipes de F1 é impressionante. Sinceramente, eu não ficaria surpreso se ele de cara já se saísse melhor que o russo. Só que, no fundo, Max é apenas um piloto de 18 anos com nem 40 finais de semana de corrida de carro na vida. Não faz muito tempo que Franz Tost disse que considera que três temporadas na Toro Rosso é o período ideal de “graduação”. Kvyat teve uma, hoje está sendo rebaixado; a experiência de Verstappen não é muito diferente.

Na seção 'Por Fora dos Boxes', Renan do Couto publica às terças e sextas-feiras (ou em edições extraordinárias) opiniões, análises, reportagens e outros conteúdos especiais a respeito do Mundial de F1 e das demais categorias do automobilismo mundial. Renan também é narrador dos canais ESPN e ganhou, em 2015, o Prêmio ACEESP de melhor reportagem de automobilismo com o Grande Prêmio. Siga no Twitter.

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