Ferrari F2004 x Mercedes W07

A Ferrari F2004 e a Mercedes W07 tem um ponto em comum: são os carros mais perfeitos de suas eras, aproveitando cada detalhes de seus respectivos regulamentos. Ao comparar uma volta rápida de cada carro, características de cada época ficam mais claras

Vitor Fazio, de Porto Alegre

As frequentes mudanças de regulamento levaram a F1 a desenvolver carros completamente distintos ao longo dos anos. Em 2004, a potência dos V10 era marca registrada. Em 2008, a aerodinâmica refinada chamava atenção. Em 2016, a combinação de motor turbo com aerodinâmica restringida foi um desafio. É evidente que essas características resultam em tempos de volta muito distintos.

Foquemos nas temporadas 2004 e 2016. Numa as equipes tinham total liberdade para fazer o que bem quisessem com a aerodinâmica e o motor de seus carros. É a temporada com aqueles que podem ser considerados os melhores tempos de volta da história da categoria – e com o F2004, um dos carros mais dominantes de todos os tempos. Na outra temos uma categoria muito mais restringida tecnicamente, mas que não escapa de ter o excelente W07, também muito dominante.

Outro ponto em comum entre os dois anos é o que veio em seguida. 2005 foi um ano de mudanças no regulamento, assim como 2017 será. Em outras palavras, 2004 e 2016 representam o auge de suas respectivas eras, com grandes equipes conseguindo dominar cada detalhe do regulamento técnico.

Para recordar estas duas temporadas, o GRANDE PRÊMIO toma como referência duas voltas rápidas, uma de cada ano. De um lado, Michael Schumacher marca a pole do GP do Bahrein de 2004. Do outro, Lewis Hamilton faz o mesmo no GP do Bahrein de 2016.

Mesmo tendo um carro mais rápido, Schumacher anotou 1min30s139. Hamilton, por sua vez, quebrou o recorde de Sakhir com 1min29s493. A diferença dos tempos de volta tem um motivo: em 2004, os carros disputavam o treino classificatório com tanque cheio, já de acordo com a estratégia do GP. Lewis leva vantagem por andar com o mínimo de combustível.

Conheça os carros:

Michael Schumacher comandou o F2004 em um ano de glórias
Ferrari

Ferrari F2004

 

O F2004 é tido como um dos melhores carros da história da F1, mas não traz nenhuma grande novidade. Na verdade, o carro foi simplesmente uma evolução dos já bem sucedidos modelos de 2002 e 2003. Salvo motor e caixa de câmbio – que, seguindo uma mudança no regulamento, precisavam ser mais resistentes –, o carro inteiro foi construído na base da evolução. Nada de revolução.

Os resultados não poderiam ter sido melhores. Mesmo em uma época em que abandonos eram muito comuns, o F2004 só não alcançou a linha de chegada em duas ocasiões – nunca por problema mecânico: Schumacher bateu em Mônaco, Barrichello bateu em Suzuka. Em 18 corridas, 15 vitórias, 12 poles e 14 voltas mais rápidas.

Lewis Hamilton, vice com o ótimo W07
Mercedes

Mercedes W07 Hybrid

 

O W07 talvez seja o ponto alto do atual período de extremo domínio da Mercedes. Sofrendo muito pouco com abandonos – as exceções sendo o acidente entre Hamilton e Rosberg na Espanha e o abandono de Hamilton na Malásia –, o bólido quebrou recordes importantes da F1. É o carro com mais pontos, mais vitórias e mais pódios da história da categoria.

E, tal qual a Ferrari, conquistou esses números através da evolução.

Depois de acertar a mão com o motor híbrido já em 2014, a Mercedes ganhou tempo para desenvolver a aerodinâmica do carro. Enquanto outras equipes sentiam urgência em resolver problemas para avançar, os prateados foram refinando cada detalhe.

Por conta do regulamento, o W07 tem muito menos velocidade nas curvas do que o F2004. Nas retas, a história é outra – o advento do DRS, combinado com motor turbo, certamente ajuda.

Hamilton tirou proveito nas duas primeiras temporadas de domínio, mas Nico Rosberg reagiu na terceira. Assim, com os dois tendo seus momentos de glória, uma era pode estar chegando ao fim. Será que a Mercedes de 2017 terá o mesmo destino da Ferrari em 2005?