Temporada da MotoGP marca início de nova era em meio a cenário com sequelas de guerra

A MotoGP abre 2016 dando o chute inicial em uma nova fase. A Bridgestone sai de cena dando lugar à Michelin, com a Magneti Marelli aparecendo para fornecer eletrônica padronizada para todo mundo

Juliana Tesser, de São Paulo

Assim como acontece desde 2007, o circuito de Losail, no Catar, vai receber neste fim de semana a abertura da temporada da MotoGP. Desta vez, entretanto, o traçado localizado nas cercanias de Doha vai ser o ponto de partida para uma nova era no Mundial.

Do lado técnico, são duas importantes novidades: a chegada da Michelin e a introdução de uma eletrônica padrão fornecida pela Magneti Marelli. Mas não é só isso. 2016 também verá novidades no regulamento esportivo e até mesmo no calendário.

Por si só, os novos pneus e a eletrônica padrão já seriam dois importantes atrativos, mas 2016 começa ainda na sombra de toda a polêmica do ano passado. Expoente máximo da MotoGP, Valentino Rossi declarou guerra a Marc Márquez e, de quebra, Jorge Lorenzo acabou se envolvendo no imbróglio. 

Além de ofuscar o título de Lorenzo, a briga entre Rossi e Márquez deixou sequelas e o piloto da Yamaha não mostra a menor disposição em reparar velhas mágoas. Como diria o poeta do mundo moderno Eminem, as feridas saram, mas as cicatrizes permanecem as mesmas.

A Michelin substitui a Bridgestone e deve dar uma chacoalhada nas ações do campeonato
Getty Images, com arte Grande Premium

Ainda curando feridas, a MotoGP retorna ao grid para um ano de recomeço. Fornecedora única da classe rainha desde 2009, a Bridgestone decidiu deixar o Mundial e foi substituída pela Michelin, que havia saído no fim da guerra de pneus.

A troca de calçado é uma mudança importante, especialmente porque os compostos franceses têm características diferentes daquelas dos japoneses. Os Michelin, por exemplo, apresentam uma performance melhor com o desgaste, o que pode resultar em uma mudança nas estratégias de corrida vistas nas últimas temporadas, já que os Bridgestone trabalhavam melhor nas primeiras voltas.

Além disso, em uma nova tentativa de baixar custos e aumentar a competitividade, a MotoGP decidiu já há alguns anos entrar num caminho similar ao da F1, adotando uma ECU única, produzida pela Magneti Marelli, a partir de 2016.

No ano passado, logo após o GP da Alemanha, alguns dos times de fábrica — Yamaha, Honda e Ducati — pararam de desenvolver seus próprios programas e começaram a contribuir com o desenvolvimento no software italiano.

Durante muitos anos, as fábricas resistiram à ideia da ECU padronizada, um recurso tipicamente adotado para banir ajudar eletrônicas aos pilotos. Desta forma, a unidade normalmente é desenvolvida por um terceiro e, então, entregue às equipes.

Mas a MotoGP optou por um caminho diferente, colaborativo. O Mundial permitiu que as fábricas trabalhassem juntas para definir e desenvolver este sistema operacional comum e também não fez nenhuma tentativa explicita de barrar as ajudas eletrônicas.

A meta hoje é disponibilizar para todos o mesmo nível de performance eletrônica e reduzir os custos do Mundial. Este novo software é muito menos avançado do que a versão proprietária usada pelos times de fábrica até então.

Historicamente a maior opositora da ECU padrão, a Honda só aceitou a mudança pela possibilidade de participar desse desenvolvimento, já que o regulamento permite que as fábricas sigam desenvolvendo tecnologia, uma vez que representantes de todas as marcas podem trabalhar com a Magneti Marelli para escrever o programa.

O Mundial pós-apocalipse

 

Inegavelmente, a MotoGP sofreu um impacto com toda a polêmica de 2015. Do lado negativo, ficou a escalada de agressividade entre os fãs. A crise foi tamanha que, durante a final de Valência, o governo espanhol chegou a classificar a corrida como um evento de alto risco. Mas nada de anormal aconteceu.

Por envolver o principal ícone do esporte na atualidade, a crise de 2015 acabou dividindo os torcedores na decisão do título entre pró-Rossi e contra Rossi. Ou, em uma linguagem mais moderninha, #IoStoConVale ou #ForzaLorenzo.

Do lado mais positivo, a MotoGP viu a audiência subir, ganhou espaço nas páginas dos mais variados jornais do mundo, foi assunto nas redes sociais e atraiu atenção de atletas de diversas áreas, como NBA, F1 e futebol, por exemplo.

A popularidade, porém, não agradou Carmelo Ezpeleta, diretor-executivo da Dorna, a promotora do Mundial, que defende que a MotoGP não precisa desse tipo de publicidade.

Em um caminho mais intermediário, a hecatombe resultou em uma série de mudanças no código esportivo. A principal diz respeito à criação de um Painel de Comissários que vai se dedicar às questões disciplinares.

A partir de 2016, todas as questões disciplinares serão julgadas por um painel independente, com Mike Webb, o diretor de provas do Mundial, se juntando a dois comissários indicados pela FIM (Federação Internacional de Motociclismo).

A direção de prova, por sua vez, ficará responsável apenas por sancionar àquelas ofensas que podem ser consideradas indiscutíveis, como exceder a velocidade máxima no pit-lane ou ultrapassar em bandeira amarela.

Tentando manter uma justiça “igual e neutra” para todo mundo, a MotoGP entrou aos pilotos um catálogo de ações pedindo que eles indicassem qual punição aplicariam a cada caso. O questionário foi feito de forma secreta e o resultado será usado como parâmetro para os comissários. A ideia é não seguir a letra do Aerosmith, que diz que a punição, às vezes, não é compatível com o crime. 

Além disso, as sanções de cada corrida terão de ser cumpridas na própria corrida e não arrastadas para a etapa seguinte como aconteceu com Rossi após o lance polêmico com Márquez.

O sistema de pontos de punição também foi alterado. A partir de agora, a única pena prevista é a desclassificação, mas isso só vai acontecer se um piloto somar dez pontos na carteira. Anteriormente, aquele que somava quatro tinha largar do fundo do grid, com o piloto que juntasse sete pontos tendo de iniciar a prova no pit-lane.

Assim como em 2015, os pontos de punição valem por 365 dias, mas, uma vez aplicada a pena, são removidos da carteira.

Por último, a FIM adicionou um adendo ao Acordo de Participação das Equipes no que diz respeito aos pronunciamentos públicos. Assim, os times não devem fazer declarações ou comunicados à imprensa que sejam considerados irresponsáveis e, portanto, prejudiciais ao campeonato

O novo grid


Na contramão do que acontece com o regulamento, o grid da MotoGP tem poucas alterações em relação ao ano passado.

Campeão da Moto2 em 2014, Tito Rabat é o único estreante. O catalão chega para substituir Scott Redding na Marc VDS, uma vez que o britânico partiu para a Pramac depois de não se adaptar à RC213V da Honda.

A chegada de Tito, porém, não é a única novidade no time de Marc van der Straten. A equipe belga aceitou aumentar seu esforço para duas motos para receber Jack Miller após a LCR desistir de contar com dois pilotos.

Depois de perder a vaga na Pramac para o #45, Yonny Hernández seguiu para a Aspar para ocupar o posto deixado vago por Nicky Hayden, que partiu para o Mundial de Superbike para se juntar a Michael van der Mark na Honda.

Com a saída da Forward da divisão principal, Loris Baz encontrou abrigo na Avintia para formar dupla com Héctor Barberá. Mike di Meglio, por sua vez, acabou a pé na MotoGP, mas segue envolvido com o Mundial como piloto de testes da Aprilia.

Além da Forward, que agora está só na Moto2, outros dois times partiram dessa para uma não tão melhor: AB e Ioda acompanharam o campeão de 2006 à série das motos de produção.

Assim, a divisão principal do certame fica com um total de 21 pilotos. Em termos de equipamento, a Ducati agora é soberana. A marca de Borgo Panigale vai colocar oito motos na grelha de 2016, contra cinco da Honda, quatro da Yamaha, duas da Suzuki e outras duas da Aprilia. 

Mas se essas mudanças não foram assim tão significativas, a temporada promete ter uma silly season das mais agitadas. Os contratos dos principais pilotos vencem em 2016, e a fase de rumores não tardou a começar.

Dona da melhor moto do grid, a Yamaha tem uma posição privilegiada na mesa de negociações. Lorenzo já avisou que quer renovar e tem a Ducati como único possível destino alternativo — e muito por razões financeiras, já que a escuderia não se recusaria a abrir o cofre se tivesse a chance de contar com um piloto de ponta. É verdade é que essa experiência não deu muito certo antes, mas a Desmosedici não é mais a mesma moto de alguns anos atrás.

Rossi, por outro lado, ainda precisa decidir o que quer do futuro. O italiano já sinalizou que pode renovar seu contrato por uma última vez e a ligação com a casa de Iwata é cada vez mais estreita. A VR46 do italiano é agora responsável por produzir todo o merchandising do time dos três diapasões e a fábrica nipônica fechou uma parceria com o piloto para apoiar a Academia de Pilotos VR46 não só com o fornecimento de motos — YZR-R3 e YZ250R —, mas também indicando pilotos asiáticos para workshops com o multicampeão e seus pupilos.

Na Honda, Márquez e Dani Pedrosa também serão agentes livres no mercado, mas não há grandes razões para antever mudanças, especialmente no caso do primeiro.

Para Dani, a possibilidade de deixar o time amparado pela Repsol já vem sendo ventilada há alguns anos, e o espanhol, certamente, seria um ativo valioso para qualquer equipe.

Nesse cenário, a KTM aparece em vantagem, uma vez que conta com o envolvimento de Mike Leitner, ex-chefe de equipe de Pedrosa. Ainda assim, é cedo para previsões. Dani ainda não conseguiu o sonhado título da classe rainha, mas é, indiscutivelmente, um dos melhores pilotos do grid e pode ser uma ajuda valiosa para a Honda na tentativa de recolocar a RCV no eixo.

Na Ducati, Andrea Iannone parece ter uma posição mais sólida, mas Andrea Dovizioso terá de se empenhar se quiser seguir frequentando a casa de Bolonha. O irregular 2015 não deixou o #04 em uma posição das mais favoráveis.

Do lado da Suzuki, Maverick Viñales é alvo do interesse de praticamente todo mundo. Melhor estreante na temporada passada, o espanhol impressionou durante toda a pré-temporada, é visto como um dos grandes talentos de sua geração e pode optar por deixar o time comandado por Davide Brivio se encontrar nas fábricas rivais a condição ideal para alcançar o título da categoria máxima do motociclismo.

A mudança mais completa, por assim dizer, pode acontecer na Tech3, onde Pol Espargaró e Bradley Smith já foram publicamente cobrados pelo chefe Hervé Poncharal por melhores resultados.

A atuação da dupla, contudo, não é a única razão para uma eventual mudança. Equipe satélite da Yamaha, a Tech3 define seu line-up em conjunto com a marca nipônica, que também já admitiu ter sua mira na direção de Álex Rins. O jovem espanhol fez uma boa temporada de estreia na Moto2 em 2015 e está na lista de favoritos ao título dos pesos médios neste ano.

Na Aprilia, Álvaro Bautista e Stefan Bradl também terão de disputar a vaga à tapa, já que Sam Lowes já está garantido no time em 2017. Como parte do acordo, o britânico vai correr pela Gresini na Moto2 nesta temporada

A Áustria que já recebe a F1 vai também abrigar a MotoGP. Que se preparem para neblina
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A caminho da Áustria

 

Se o grid não foi lá dos mais movimentados, o mesmo pode ser dito do calendário. Desconsiderando as mudanças de ordem e data, uma única alteração diz respeito à entrada da Áustria.

 

Localizado na cidade de Spielberg, o traçado foi construído originalmente em 1969, quando foi batizado de Osterreichring. Em 1996, o traçado passou por uma reforma completa e foi renomeado para A1 Ring. Em 2004, no entanto, a pista foi fechada por conta da necessidade de obras. 

Depois de anos de inatividade, a Red Bull apareceu com um cheque de US$ 70 milhões, o que levou a reinauguração do circuito, agora sob a alcunha de Red Bull Ring. No ano passado, a Dorna chegou a um acordo com Dietrich Mateschitz para levar a MotoGP ao país pela primeira vez desde 1997.

Mas a prova austríaca teve um efeito colateral. Com a chegada do traçado taurino, sai de cena o GP de Indianápolis. Embora tenha registrado um aumento de público em sua última edição — cerca de 132 mil pessoal em 2014 contra 145,5 mil em 2015 —, o Mundial de Motovelocidade ainda tem dificuldade para lotar os circuitos dos EUA — também por conta da capacidade dos autódromos — e a realização de duas provas em território norte-americano é considerada um excesso.

Além da audiência, pesou o custo para a realização da prova. Com a saída da etapa de Laguna Seca, a logística para a etapa de Indiana ficou muito mais dispendiosa.

Mundial peso médio


A divisão intermediária do Mundial de Motovelocidade abre 2016 tentando se reinventar. Ofuscada pela brilhante Moto3, a Moto2 tenta recuperar sua importância, especialmente no que diz respeito ao papel de categoria de acesso.

A temporada 2015 ficou marcada pela performance irretocável de Johann Zarco, que somou oito vitórias e um total de 14 pódios. Apesar da supremacia do francês, Álex Rins também brilhou, assim como Sam Lowes, que pecou pela irregularidade, mas mostrou que tem potencial para mais.

Nesse cenário, a categoria terá um ano de muitas caras novas. Campeão da Moto3 no ano passado, Danny Kent chega acompanhado por Éfren Vázquez, Isaac Viñales, Alessandro Tonnucci e Miguel Oliveira.

Além dos promovidos, Federico Fuligni, Xavi Vierge e Edgar Pons também chegam para compor o grid, junto com Luca Marini, que carrega a pressão de ser meio-irmão de Valentino Rossi. O histórico familiar gera uma cobrança extra ao gigante #10 — o italiano tem 1,84m —, mas vale lembrar que o DNA de corrida não foi transmitido para o caçula dos irmãos de Tavullia, já que o piloto da família era Graziano e o parentesco vem do lado de Stefania Palma.

Em termos de equipamento, assim como no ano passado, predomínio da Kalex. A exceção são as Speed Up de Simone Corsi, Xavier Siméon e Julián Simón, e as Mistral 610 de Vierge e Viñales.

A briga dos pesos pena

 

Assim como acontece na Moto2, a categoria de entrada do Mundial de Motovelocidade também terá um ano de muitas caras novas, com a chegada de Fabio Di Giannantonio, Adam Norrodin, Nicolò Bulega, Joan Mir, Stefano Valtulini, Arón Canet, Bo Bendsneyder e Martin Vanhaeren.

Depois de chegar ao Mundial com status de fenômeno, Fabio Quartararo fez uma mudança chocante, abandonando a Estrella Galicia 0,0 — que hoje conta com estruturas em todas as classes — para se juntar à Kiefer. Com a mudança, o francês abandona a NSF250RW da Honda para guiar a RC250GP da KTM.

A marca austríaca, aliás, segue como maioria no grid. São 12 motos da KTM, 11 da Honda, oito da Mahindra e duas da Peugeot, a estreante no Mundial. A moto da marca do leão, na verdade, está mais para um equipamento indiano disfarçado.

[Bastidores]

Como nasce um guia de MotoGP, pelas mãos de Juliana Tesser.