Quem ataca e quem defende em 2016? Ducati e Suzuki de um lado, Yamaha e Honda do outro

Na nova era da MotoGP, Ducati e Suzuki pretendem dar uma chave de braço em Yamaha e Honda. As tradicionais fábricas têm cada uma suas vantagens para competir de igual para igual

Pedro Henrique Marum, do Rio de Janeiro

A tônica dos últimos muitos anos na MotoGP tem sido uma disputa pelo topo entre Honda e Yamaha. Ora uma tem o cetro em mãos, ora outra se vale de alguma vantagem ou atualização que a coloca na frente. Mas há vida para grandes fábricas além das duas. E em 2016, Ducati e Suzuki miram grandes passos. Quem sabe um trabalho que termine arrancando na base da força o cinturão das rivais.

A Ducati manteve a dupla de Andreas e pretende voltar aos tempos em que ganhou com Casey Stoner - que também está na equipe
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A Ducati não batalhou com a Honda no ano passado - obviamente, também não com a Yamaha - durante o campeonato, mas conseguiu promover desafios esporádicos. Na Austrália, por exemplo. Não que a fábrica italiana esteja mirando o título na temporada 2016, mas quer roncar mais alto. Quer vencer corridas e estar mais presente aos pódios.

E qual a maior vantagem da Ducati nesta intenção de inflar o peito? Exatamente o conhecimento íntimo do maior ponto de interrogação da temporada. Com seus times satélites, a fábrica de Borgo Panigale já usava o software da Magneti Marelli no ano passado. Enquanto as rivais japonesas tentam se familiarizar - com pilotos reclamando, como Marc Márquez, por exemplo -, o time campeão de 2007 sabe que precisa capitalizar enquanto puder.

A ECU padronizada, diga-se, é uma tentativa da MotoGP de diminuir custos, além de aumentar a competitividade. Com uma fábrica de fora do Mundial de Motovelocidade produzindo o ECU, o sistema acaba sendo, ao menos por enquanto, uma involução do que Honda e Yamaha tinham. A marca da asa dourada, inclusive, sempre foi forte opositora da medida. Só a possibilidade de as montadoras ajudarem no desenvolvimento foi algo que agradou a marca.

Outra vantagem da Ducati está na quantidade de motos colocadas na grelha: suas duas, as duas da Pramac, as duas da Avintia e as duas da Aspar. Além de Andrea Dovizioso e Andrea Iannone, Danilo Petrucci, Scott Redding, Héctor Barberá, Loris Baz, Eugene Laverty e Yonny Hernández, todos se utilizarão de versões diferentes da Desmosedici. A segunda marca com mais motos no grid será a Honda, com cinco.

Mas apenas o time de fábrica de Borgo Panigale é que vai usar a versão GP16 esperando melhorar os oito pódios de 2015.

O câmbio seamless é a aposta da Suzuki para chegar no pelotão da frente na MotoGP
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Com uma dupla forte de pilotos formada por Maverick Viñales e Aleix Espargaró, a Suzuki também tem suas novidades e metas ousadas. A marca vai estrear um novo câmbio seamless na GSX-RR, testado em pista no final do ano passado. Com os novos pneus da Michelin e a ECU da Magneti Marelli, a Suzuki espera um ano mais parelho.

Tamanho o equilíbrio que Viñales chegou à pré-temporada colocando na mesa uma meta dotada de muita confiança: ser top-6 em todas as corridas da temporada, desde Losail até Valência. Por curiosidade, em 2015 foram apenas três vezes que a Suzuki terminou corrida na sexta colocação: com Viñales na Catalunha e na Austrália; com Espargaró em Aragão.

A pré-temporada foi animadora, é verdade. A Suzuki impressionou - especialmente Maverick. O espanhol liderou um dia de testes coletivos em Phillip Island, outro em Losail. O que se acredita por lá é na continuidade. O time considera que o pacote que vem trabalhando é fundamental, assim como a manutenção de seus dois pilotos. Ambos estão em fim de contrato — o de Maverick tem a opção de ser estendido por mais um —, mas a Suzuki já trabalha para renovar com ambos.

Pelo menos é isso que garante o chefe da equipe da fábrica de Hamamatsu, Davide Brivio. "Maverick é valioso. Nosso objetivo é prorrogar pelo menos por mais dois anos o contrato dele e de Aleix. Estamos muito contentes com os dois pilotos. Somos conscientes de que ele tem um talento incrível e é muito ambicioso. A solução é simples: temos de dar a ele uma boa moto e convencê-lo de que pode conseguir o que quer conosco."

Talvez 2016 cumpra o que Viñales imagina que promete e ele fique, de fato. Porque os testes já fizeram com que ele dissesse que sua moto tinha ritmo de ida ao pódio. Se isso for verdade em algumas das semanas da temporada, certamente as chances de um acordo de longo prazo aumentam bastante, visto que não é pouco o assédio que ele vai sofrer durante o ano.

Em relação à Ducati, a Suzuki - e também a Aprilia e a KTM - ainda tem uma vantagem para se aproximar das poderosas: de acordo com o regulamento, o time japonês segue sem limites para testes e motores descongelados para ganhar em potência durante a temporada. Enquanto isso, Yamaha, Honda e Ducati têm apenas cinco dias de testes privados por ano e os motores congelados antes da prova no Catar. Ainda há uma diferença mais: os três times da frente contam com sete propulsores em seus motores; para os outros são nove. Tudo isso baseado na história e na pontuação anotada ano passado

As poderosas

 

Aliás, problemas contratuais estão aos montes no mapa da temporada. Jorge Lorenzo quer ficar, mas por enquanto só tem contrato até o fim do ano; na Honda, tanto Marc Márquez quanto Dani Pedrosa vão entrar em conversas para estender um contrato que só vive para ver 2016. Entre os quatro pilotos de maiores condições de título, todos estão com o futuro em suspenso. Valentino Rossi, aos 37 anos de idade, quer mais um último contrato.

A Yamaha tem a melhor dupla do grid e dois gênios fortes dividindo a garagem
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Na Yamaha, aliás, nem só de contrato de Lorenzo e proteção a Rossi - algo que o time de Iwata diz que não vai acontecer, mas Jorge até disse que entende - é que se vive. A YZR-M1 segue a melhor moto no grid e se apresenta em todas as condições possíveis de dar para suas duas estrelas a chance de quem disputem mais um título palmo a palmo. 

Se isso acontecer de fato, o clima vai esquentar de novo. É muito difícil, quase impossível, imaginar que nenhum drama vai assolar a Yamaha se Valentino e Jorge dispararem e começarem a disputar ponto a ponto. Os dois falam da importância de manter a disputa profissional, mas o sangue quente destes dois europeus latinos torna impossível que o sangue não esquente quando o histórico da relação dos dois é rancor e de inimizade.

Mesmo com vitórias em 11 das 18 provas da temporada passada para a Yamaha, Rossi ainda pedia mais velocidade final à moto de 2016. Depois dos testes em Sepang, Phillip Island e Losail, ele já tem uma ideia bem melhor de como será andar com a borracha e tamanho dos novos pneus Michelin - mas resmungou para cima da nova moto.

Lorenzo, por outro lado, mostrou se entender bem com a nova M1. Foi, no geral, o mais rápido da pré-temporada e saiu dos testes no mesmo Catar da abertura da temporada esbanjando confiança para o 2016 que se avizinha. Com ou sem situação contratual resolvida na Yamaha, é difícil imaginar os dois fora de uma briga particular

A Honda vem para ser adversária à altura e espera que Dani Pedrosa ande no ritmo de Marc Márquez o ano todo
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Na Honda, a RC213V é um trabalho em andamento. Para Marc Márquez, depois de um começo muito preocupante em Sepang, o time está chegando na cola da Yamaha. Talvez o espanhol esteja forçando um pouco a barra, mas as mudanças eletrônicas, embora sempre contestadas pela Honda, talvez ajudem a marca nessa questão. Com alguns pontos de vantagem da Yamaha resetados, o caminho para voltar ao topo pode ficar mais curto.

O certo é que o público ainda vai começar a temporada querendo saber como vão se desdobrar as polêmicas do final de 2015. A relação entre Márquez e Rossi já era - não tem mais como voltar atrás -, mas a FIM (Federação Internacional de Motociclismo) ainda tenta fazer com que tudo seja enterrado o mais fundo possível. Daí decidir não divulgar a telemetria do toque entre os dois e pivô de toda a confusão que se seguiu.

O que a Honda gostaria realmente era ter mais potência no motor para tornar a RCV um tanto quanto mais poderosa e temida. Só que com o congelamento dos motores após submetidos para o início da temporada, não vai rolar exatamente de acordo com o plano. 

Outra coisa fundamental é que Pedrosa participe de todas as corridas e que Márquez pare de cair quando não ganha. Dani perdeu três corridas no ano passado por conta uma cirurgia para tentar se livrar da síndrome compartimental no braço direito e Marc venceu cinco GPs. Mesmo assim, Pedrosa teve uma média melhor de pontos por corrida do que Márquez: 13,7 contra 13,4. Dani precisa ser mais agressivo, enquanto Márquez não pode ser tão espalhador de farofa.

Falta pouco para que a temporada vá pelos ares no Catar.