Briga tríplice pelo título tem um campeão, um vingador e um aprendiz

A MotoGP desenha uma batalha que promete um novo e histórico round entre Jorge Lorenzo, Valentino Rossi e Marc Márquez. E com a inimizade entre eles à flor da pele

Evelyn Guimarães, de Curitiba

Um campeão reinante, um derrotado com sede de vingança e um aprendiz que tenta dar a volta por cima. Assim se desenha o cenário da MotoGP em 2016. A verdade é que a classe rainha ainda vive sob a sombra negra do imbróglio protagonizado por suas principais estrelas e tenta deixar para trás as rusgas que tornaram a disputa final pelo título do campeonato passado em uma batalha no melhor estilo dos embates de torcidas de futebol. Só que a paz ainda está longe. 

Ainda é uma guerra. A Espanha saiu vitoriosa no primeiro confronto, mas a Itália não desistiu e quer a revanche. Jorge Lorenzo, Valentino Rossi e Marc Márquez continuam sob os holofotes, e a promessa de uma rivalidade tríplice já povoa o imaginário dos fãs ao redor do mundo. E não só dos torcedores. O trio será seguido de perto, todos os passos serão atentamente acompanhados a partir da luz verde no fim do pit-lane da iluminada pista de Losail, e o que se espera é um confronto de titãs, algo como a clássica cena de ‘Os Vingadores’, quando Thor, Capitão América e o Homem de Ferro se enfrentam para ver quem fica com o vilão Loki. 

O tricampeão Jorge Lorenzo vem como o cara a ser batido. Dificuldade para todos os lados
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E neste novo capitulo, o dono da M1 #99 é quem surge como o homem a ser batido. Lorenzo vem muito forte para a temporada que começa no Catar, impulsionado pela virada no campeonato em 2015 e pela performance avassaladora que apresentou em cima da Yamaha na pré-temporada. O piloto de 28 anos se mostrou, mais uma vez, veloz e esbanjou aquela que é sua marca registrada: a constância.

Lorenzo comandou duas das três sessões de testes coletivos. Tanto em Sepang quanto em Losail, o espanhol colocou mais de meio segundo nos rivais. Apenas em Phillip Island o roteiro não se repetiu — lá, o piloto foi só o quarto. Na Austrália, Jorge lutou para encontrar o equilíbrio e o melhor rendimento dos novos pneus da Michelin.

Ainda assim, o agora tricampeão se coloca em um posto de favorito e em um cenário que tudo conspira a seu favor. A Yamaha acertou a mão na eletrônica unificada e produziu um motor forte o bastante para fazer frente à concorrência. A gestão dos pneus também parece ser um ponto forte, o que é essencial para o estilo de pilotagem de Lorenzo, baseado no clássico ‘manteiga e martelo’. Aliado a isso, ainda há a força mental e o extremo perfeccionismo de Jorge. 

Ou seja, se tudo der certo, se tudo se encaixar com perfeição, a tarefa dos adversários será ainda mais difícil. Mas há esperança. Lorenzo também tem pontos fracos e o maior deles está sentado do outro lado da garagem azul.

A amargura e o desejo de vingança ainda permeiam Valentino Rossi, que usa a polêmica para ter maior força
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Embora mais maduro e consciente de seu papel dentro da Yamaha e diante também do grid da MotoGP, Jorge ainda sente a pressão. E é aí que Valentino Rossi aparece. A experiência e o fato de conhecer bem o rival espanhol colocam o italiano como principal ameaça ao quarto título do piloto das Ilhas Baleares.  

Rossi vai desembarcar no Catar sedento por vingança e com tudo que aconteceu em Sepang e em Valência bem nítido na memória. Ainda que não admita publicamente, Valentino quer, sim, dar o troco nos dois espanhóis e, enfim, faturar sua décima taça no Mundial de Motovelocidade, apesar de ainda nem pensar em aposentadoria. 

Aos 37 anos, o maior nome do motociclismo de competição no mundo ainda é o dono da bola na MotoGP. É ele o responsável por lotar autódromos por onde a categoria passa e, ainda que o toque com Márquez na Malásia tenha deixado marcas sombrias em sua carreira, o carisma e a paixão do torcedor continuam intactos. E essa talvez seja a sua maior arma.

E engana-se quem pensa que a idade aí pode pesar contra o multicampeão. Aliás, é muito pelo contrário. A temporada passada mostrou que o italiano está afinadíssimo com a sua adorada M1. A troca de chefe e a escolha de Silvano Galbusera também foram acertadas e parece ter dado o ambiente seguro para Rossi trabalhar. O resultado foi que Valentino liderou a temporada, venceu corridas e o título só não veio porque acabou ficando refém dos desdobramentos da polêmica envolvendo Márquez.   

Na pista, Valentino continua diabólico. Se não tem mais a mesma velocidade de antes, Rossi ainda continua um grande estrategista e dono de uma pilotagem técnica e refinada. A boa leitura que faz das corridas também é seu ponto forte. Sabe como ninguém poupar pneus e entende a hora certa de atacar. É paciente também, vantagem que veio da experiência e que o coloca a alguns passos à frente dos adversários.

A questão agora é entender como o showman vai lidar com as novas disputas que deve enfrentar com Lorenzo e, principalmente, com Márquez. Valentino já deixou claro que apertos de mãos estão fora de cogitação e que a relação com o espanhol da Honda nunca mais poderá ser reparada. Na cabeça de Vale, Marc o traiu, e isso não tem mais volta. Com Jorge, o trato é puramente profissional. É Ok, em suas próprias palavras, mas nada muito além disso. 

E dentro da garagem da Yamaha, a disputa promete ser acirrada de fato. Lorenzo parece ter se adaptado melhor às mudanças, cenário que complica a vida dos demais. Já Rossi possui uma equipe forte ao seu redor e, embora não tenha se destacado nos testes, o ‘Doutor’ foi constante, procurando entender os novos pneus da Michelin.

Pela primeira vez, Marc Márquez sentiu o gosto da derrota. 2015 foi de aprendizado, mas também de interrogações
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Marc Márquez é quem fecha a briga tríplice. O menino prodígio agora se vê em uma nova situação na carreira. Depois de viver o mocinho em seus dois primeiros anos de MotoGP, em que fez tudo certo e assombrou o mundo com seu talento puro e velocidade, Marc também teve de lidar com uma posição mais sombria, com críticas severas e ataques públicos. O fim da temporada não foi fácil para o garoto de Cervera. O sorriso fácil deu lugar muitas vezes ao semelhante preocupado e tenso.

A verdade é que a confusão em Sepang também o colocou no olho do furacão, como uma prova de fogo. E agora Márquez precisa se reencontrar. Só que a vida do jovem espanhol não será fácil em 2016.

A Honda não se mostrou tão forte como em anos anteriores. A equipe laranja ainda tenta se entender com a eletrônica unificada. Além disso, os pneus da Michelin não se mostraram um componente forte o bastante para a moto japonesa, especialmente na frente. A montadora terá dias difíceis pela frente e toda a experiência será válida. Por enquanto, entretanto, o time começa o ano atrás da arquirrival Yamaha.  

Portanto, Márquez terá trabalho adicional. Se por um lado o espanhol pode eventualmente contar com um embate mais forte na casa de Iwata para crescer, também é bem verdade que seu maior inimigo está em sua ânsia de alcançá-los. Marc não tem medo da velocidade, se arrisca e tem na disputa corpo a corpo um de seus maiores trunfos. O problema é dosar tudo isso, especialmente agora quando inicia o ano ainda sob o olhar atento dos mais críticos

O ótimo desempenho no fim do ano credencia Dani Pedrosa à briga. Seria ele a nova cor do campeonato?
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E quem corre por fora?

 

 

Naturalmente, o primeiro nome a mencionar é o de Dani Pedrosa. O experiente piloto da Honda é um elemento importante para o equilíbrio da disputa tríplice. Isso porque o catalão surge em momentos decisivos, como aconteceu na parte final de 2015.

Agora totalmente recuperado da lesão no braço, Pedrosa não pode ser descartado e também será de grande ajuda para a Honda neste primeiro momento do novo regulamento. O caminho a seguir pode ser dado por ele, apesar da participação discreta na pré-temporada. 

A Ducati aparece logo atrás. A equipe italiana deve dar mais trabalho neste ano, principalmente porque é a mais bem adaptada à eletrônica desenvolvida pela Magneti Marelli. O time vermelho trabalhou muito no último ano e meio, tanto em motor quanto na unidade eletrônica. O papel de Casey Stoner como piloto de testes também vai representar um ganho extra, ainda que a longo prazo. E a marca de Borgo Panigale ainda será a fabricante com mais motos no grid.

Além disso, conta também com o veloz Andrea Iannone, que deve figurar mais no pódio neste ano. Constante e experiente, Andrea Dovizioso também vai incomodar os ponteiros e deve ajudar a Ducati a se encontrar no campeonato. 

Ao lado dos italianos, é possível também colocar a Suzuki. A equipe japonesa, que trabalha sob o comando do inteligente Davide Brivio, fez a lição de casa direitinho. Surgiu forte na pré-temporada e deve surpreender. A escolha dos pilotos também é acertada. 

Aleix Espargaró tem a regularidade necessária e cabeça para conduzir a moto azul ao pódio. Já Maverick Viñales é a grande aposta da marca para o futuro. O jovem espanhol chegou a liderar uma sessão de testes na Austrália e se mostra cada vez adaptado à classe rainha. Velocidade não falta.