F1 sempre teve hegemonias e tem o que oferecer. O problema é a concorrência que enfrenta

As mudanças podem não ser grandes e até pode ser que venha mais do mesmo. A questão que a F1 tem de lidar é que, se o produto é ruim, ninguém mais tem paciência em esperar e vai procurar outra coisa para fazer

Flavio Gomes, de São Paulo

Não esperemos grandes mudanças. Mas não nos decepcionemos com isso.

A F1 sempre foi assim, e o domínio da Mercedes nada mais é do que a repetição de outros ciclos que todos lembramos bem.

Para não ir muito longe, o que foi a McLaren do fim dos anos 80 ao início dos 90? E a Williams ao longo de boa parte dessa década, batida apenas por Schumacher em duas temporadas? Aí a McLaren voltou, e depois o alemão instalou a mais longa das hegemonias com a Ferrari. 

Lewis Hamilton está tranquilão e favorável? Nem tanto...
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A partir de 2005, sim, as coisas melhoraram, ao ponto de termos saudades de uma época que, afinal, nem é tão distante assim. Renault, Ferrari, McLaren, Brawn, um revezamento bem-vindo – e raro --, até a disparada da Red Bull, só freada por um novo regulamento que a Mercedes aproveitou melhor do que todo mundo.

Gostar ou não desses domínios depende um pouco das preferências pessoais. Há uma certa beleza na competência. Pode aborrecer um pouco, mas como não admirar equipes e pilotos capazes de estabelecer domínios longevos? Se transformam em objetivos, nos caras que têm de ser batidos.

Portanto, nenhuma novidade na fase que a Mercedes vive, e que uma hora vai acabar. O problema é que a F1 hoje tem concorrência – outros esportes, outras atividades, outras formas de lazer. E a previsibilidade é vista com olhos menos complacentes por um público que se renova e que se não está gostando do que vê, não tem paciência para esperar pela próxima fase. Troca de produto. Simples assim.

Essa é a crise da F1 atual. O produto não é tão diferente do que sempre foi, mas as pessoas já não se satisfazem com ele. Para piorar, é uma categoria de compreensão cada vez menor para quem não é letrado na história do esporte.

Ainda assim, produz bons espetáculos. Talvez com frequência menor, e é por isso que seus agentes batem cabeça ano a ano pensando no que fazer para torná-la mais atraente. A última mudança radical de regulamento foi um desastre, com a adoção, em 2014, de um pacote técnico muito interessante do ponto de vista da engenharia, mas indecifrável para os leigos e para uma audiência que só se interessa por aquilo que é fácil de entender e rápido de consumir. Ficar duas horas na frente da TV sabendo o desfecho de um evento é tarefa para amantes incondicionais. E o mundo tem cada vez menos gente disposta a isso.

Romain Grosjean posa para fotos: a Haas é grande atração neste fim de semana na Austrália
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Por isso que, a cada início de temporada, todos tentamos buscar alguns motivos para o otimismo. Neste campeonato que começa domingo, a esperança é a Ferrari. Será que chega? Será que é capaz de derrotar a Mercedes? Será que vamos ter briga?

Tomara, tomara. Mas e se não acontecer, o que fazer?

Posso elencar várias razões para tentar convencer o eventual leitor a acompanhar tudo, e bem de perto. A começar pela óbvia expectativa de que a Ferrari dê um salto de qualidade que seja capaz de opor Vettel a Hamilton. Outra boa razão: ver esses dois pilotos em ação, dois que estão entre os maiores de todos os tempos, o que é um privilégio de uma época. Poderia também sugerir que olhem com atenção para a nova classificação, para o possível crescimento da Force India, para a interessante estreia da Haas, para tentativa de reação da Red Bull, para o talento de Sainz Jr. e Verstappen, para o GP na cidade medieval de Baku...

Tem coisa boa por vir, creio. Mesmo se parecer um pouco mais do mesmo.