Com uma equipe e duas corridas a mais, F1 também tem que ser mais. Mais emocionante e disputada

A F1 ganha a americana Haas, a inóspita Baku no calendário e uma pitada extra de caos na classificação. Mas para ganhar os fãs, é preciso que alguém (Ferrari) tenha feito um carro capaz de lutar contra a Mercedes (Hamilton)

Victor Martins, de São Paulo

GP da Austrália. Fosse isso um poema, seria algo assim:

 

     Se soubesses o tamanho de teu imenso esplendor
     Por a primeira de uma série de 21 serdes
     Demonstras quem tem impávida força e pleno valor
     Para ganhar ouro no prata da Mercedes

A prosa, devidamente aplicada, se resumiria ao seguinte fato: Austrália, minha querida, dá uma esperança para a gente e mostra que a F1 vai ser interessante.

É o que todo mundo espera: que alguém tenha concebido um carro bonito, rápido, potente e confiável. Que tenha feito, assim, um W07 Hybrid genérico. Que alguém incomode Lewis Hamilton, que o tire das estribeiras, que não seja fogo de palha e o vença quando o campeonato já não vale nada – ou seja, que não seja Nico Rosberg. 

Os vários que vão ligar a TV em qualquer lugar do mundo desejam que a corrida em Melbourne surpreenda e seja um incentivo para ver as demais 20. Porque se for o mais do mesmo, vai ficar aquela chata impressão de que não se deve perder tempo com esta F1 que tem até tentado se ajudar, mas que ainda tateia um caminho que já foi achado por outras categorias.

A Nascar, por exemplo, foi abençoada com duas corridas decididas na linha de chegada, por meros centésimos; a MotoGP movimentou as ações no fim do ano passado e vai atrair muita gente disposta a ver se a rivalidade entre Valentino Rossi, Jorge Lorenzo e Marc Márquez se acirra. As duas souberam se reinventar e achar um jeito de atrair o público. Até hoje, o campeonato das motos busca um equilíbrio para que as fábricas justifiquem seus investimentos. Que Ducati e Suzuki, por exemplo, vão lá brigar com Honda e Yamaha, que Maverick Viñales e Andrea Iannone sejam pedra no sapato.

A F1 se perde em si mesma. Não se pode evoluir, não se incentiva a ser melhor, não permite que se resolva no bom senso, não se sabe quem é que manda mesmo, não se deixa relaxar e curtir, nem às vezes compartilhar – aliás, a F1 chegou ao Facebook, um ano depois de ter conhecido o YouTube; mas tenha plena certeza de que as imagens serão devidamente proibidas e removidas com o rigor militar de quem não sabe o que é socializar as redes. A F1 é a não F1. 

E não, não deixa de ser estranho quando alguém que tem bilhões resolve sair do American way of racing, aventura-se na F1 e se impressiona. Gene Haas era só um quase-caipira e um ingênuo conhecedor do automobilismo até ver que ‘dentes’ nas aletas podem gerar décimos preciosos, que a energia é um ciclo de reaproveitamento, que o biturbo tem de encaixar perfeitamente dentro daquela carenagem estreita. A F1 ainda é o máximo do automobilismo. Só que poderia ser mais que o máximo. 

Mais, a F1 vai ter em número de corridas: a Alemanha volta para onde não deveria ter saído e o Azerbaijão entra no cenário, não por sua história nem por qualquer autódromo. Mais, também, serão os tipos de pneus no fim de semana, com uma terceira opção sendo, com trocadilho incluído, opcional. Mais problemas à vista: o caos que o novo formato da classificação deve provocar há de fazer a FIA rever conceitos, sobretudo em como os comissários atuarão para aplicar suas punições mais absurdas.

O mais da F1, pela pré-temporada, só pode ser a Ferrari. E tem mais em Sebastian Vettel do que em Kimi Räikkönen. É dela, a equipe, e dele, o piloto, de quem o mundo mais espera. Não é da Williams, que mais uma vez não deve brigar por vitórias, não é da Red Bull e muito menos da McLaren.

Se o fim de semana tiver uma definição de grid de largada insosso e uma corrida que não empolgue, se o resultado for o padrão Hamilton-Rosberg-Vettel, não tem verso, não tem prosa, não tem mais jeito. 

Aí o mais da F1, de novo e infelizmente, é menos.