Com pinturas pouco chamativas, carros acabam refletindo a falta de vida da própria F1

Uma categoria que luta para reencontrar um rumo e carros com layouts tão insossos que incomodam. Os bólidos exageradamente 'monocromáticos' são espelho da F1 que não brilha

Vitor Fazio, de Porto Alegre

Preto, prata, branco, cinza, cinza escuro. Parece a descrição do trânsito de uma grande metrópole, mas é o grid da F1 mesmo. A categoria, outrora conhecida por seus grids coloridos e pelos carros atraentes, se afundou em pinturas insossas e na falta de criatividade. Enquanto o certame luta para resgatar sua alma nas pistas, tentando dar vida para uma entidade que sofre para sustentar, a falta de vida acaba se refletindo na palidez de grande parte dos 22 carros que vão alinhar no grid na Austrália.

Salvo o tradicional vermelho da Ferrari, o amarelo da Renault, o azul da Sauber e o tricolor da Manor, será um grid ainda menos colorido do que o de 2015. Prata para Mercedes, Force India e Haas; cinza para McLaren; azul escuro para Red Bull e Toro Rosso; branco para Williams. Há quem não se importe com isso, mas as poucas cores acabam por refletir uma transformação muito recente da F1. 

As cores apagadas acabam por revelar como o mundo corporativo se apropriou da F1. Antes, quando o grid era recheado de equipes garageiras, era muito mais fácil pintar um carro de verde, amarelo ou azul. Não havia um comitê, uma equipe de marketing ou reunião de sócios para aprovar ou não um layout mais agressivo.

Tinha carro vermelho, verde, amarelo, branco, azul claro, azul escuro...
Getty Images

Já em 2016, essas mudanças são muito mais truncadas, e por uma série de motivos. Patrocinadores, querendo um carro que se encaixe bem com suas cores, não curtem mudanças repentinas. E também existe a vontade permanente de manter uma pintura ao longo prazo, tentando grudar certa identidade visual na cabeça do fã de F1. Não é por acaso que a Red Bull, na categoria desde 2005, nunca fez mudanças muito significativas em seu layout.

O problema é que mesmo essa postura já resultou em pinturas mais coloridas. A McLaren, por exemplo, ficou entre 1972 e 1996 praticamente com a mesma pintura – a vermelha e branca da Marlboro. Note: vermelho e branco, não cinza, prata ou preto. Tons vivos e bastante chamativos.

Pensando um pouco mais acabamos, percebe-se que todas as equipes de ponta tinham pinturas coloridas. A Ferrari sempre foi rubra, a Williams portava amarelo e azul, a Benetton já foi azul, verde, amarela, multicolorida... Na verdade, o prata só foi começar a virar uma moda na F1 no fim da década de 1990. Em 1997, a McLaren trocou a Marlboro pela West e passou a correr prateada, moda que carregou até 2015.

Notem o grid de 2000...

A Renault é a única a usar uma cor destoante neste ano
Getty Images, com arte Grande Premium

Hoje já não se vê tantas cores por causa de um processo que já acontece há anos. A F1 encaretou. Outrora selvagem e divertida, havia espaço para a criatividade e para a inovação. Hoje é extremamente tecnológica, burocrática e – aí já em uma análise mais pessoal – menos divertida. É como se a categoria tivesse deixado de ser aquele amigo publicitário que se dá bem com todo mundo para virar aquele cara de TI que é antissocial.

As pinturas, sérias, acabam contrastando com a imagem que as equipes tentam passar pelas redes sociais. A Lotus sempre optou pela sobriedade do preto, mas no Twitter e no Facebook tentava parecer mais engraçadinha. É óbvio que isso não tem nada a ver com a cor de um carro, mas serve para levantar a pergunta: qual o motivo para não tentar ser menos séria na hora de escolher um layout?

Provavelmente tem a ver com o fato de as redes sociais escaparem um pouco do controle de dirigentes, acionistas ou o que seja. As redes sociais, com um nível de controle muito menor, acabam sendo o espaço para aflorar um lado menos sério.

É uma grande pena, mas ainda falta muito para vermos este lado se expandir. Cada vez mais, as escuderias são empresas das mais estruturadas. Mas não custa tentar: enquanto a F1 seguir tentando recuperar a vida dentro das pistas, não custaria nada tentar o mesmo com as pinturas dos carros, a grande vitrine da categoria.

Guia F1 2016, parte 1

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Publicado por Grande Prêmio em Quinta, 17 de março de 2016