Quando o amor se converte em superação

O Mercedes-Benz Challenge proporciona muito mais que velocidade e belas batalhas dentro da pista. Por vezes, a categoria dos gentlemen-drivers é capaz de ser o pano de fundo para histórias de superação e amor ao esporte

Fernando Silva, de Sumaré

O automobilismo é pródigo em proporcionar grandes histórias de vida, amor e perseverança. Como esquecer da ‘fênix’ Niki Lauda, que renasceu das cinzas, venceu a morte e se tornou um dos maiores pilotos de todos os tempos? O épico triunfo de Ayrton Senna no GP do Brasil de 1991, quando tinha apenas a sexta marcha e teve de lutar contra um desgaste físico feroz nas últimas voltas em Interlagos também é daqueles momentos que ficam guardados na memória. Quer exemplo mais heroico que o de Alessandro Zanardi, que perdeu as duas pernas, mas jamais a alegria de viver, não desistiu, voltou a pilotar e se tornou um ícone paraolímpico?

Os exemplos são muitos. Poderia aqui escrever um livro sobre várias dessas histórias maravilhosas que tornam o esporte verdadeiramente mágico em sua essência. E o Mercedes-Benz Challenge, a categoria que proporciona aos gentlemen-drivers a chance de acelerar em carros que fazem parte do imaginário do apaixonado por corridas, também tem um grande exemplo de amor pelo esporte, perseverança e dedicação. Sentimentos e estado de espírito que servem como mola-mestra da almejada superação.

José Vitte já disputou um sem número de corridas em sua carreira. Teve a chance de acelerar os carros da Copa Clio e do Trofeo Linea, ficando perto de ícones do esporte a motor nacional como Cacá Bueno, Christian Fittipaldi e Felipe Massa, aprendendo muito ao lado de grandes ídolos que se tornaram amigos. E desde 2014, o piloto radicado em Santa Gertrudes passou a fazer parte do concorrido grid do Mercedes-Benz Challenge na estreia da classe CLA AMG Cup. Foi amor à primeira vista.

“Eu estava parado em 2013. Tinha feito o Trofeo Linea um ano antes e aí, ao fim de 2013, fui convidado para participar da apresentação do carro. Achei o projeto muito interessante, bacana, e a partir daí trilhamos o caminho para participarmos da temporada a partir de Curitiba. Adorei o carro”, conta Vitte ao GRANDE PREMIUM.

O piloto destaca como se apaixonou pelo CLA 45 AMG tão logo esteve ao volante do carro. “Correr de Mercedes é um prazer imensurável. Andar nesta marca, que é um ícone mundial, com uma tecnologia super avançada... as pessoas são super profissionais, preocupadas com a segurança. Gosto muito. É um privilégio poder andar com um Mercedes-Benz, ainda mais uma CLA produzida na Alemanha, uma AMG de puro sangue”.

José Vitte faz parte do grid do Mercedes-Benz Challenge desde o início da CLA AMG Cup, em 2014
Fábio Davini

A jornada de Vitte no Mercedes-Benz Challenge começava de forma promissora naquela temporada. A cada corrida, os bons resultados começavam a aparecer e o piloto conseguia se familiarizar bem com a condução do CLA 45 AMG. Tudo ia bem demais para o interiorano, até que chegou o fim de semana da quinta etapa do campeonato, disputada num 7 de setembro no Autódromo do Velopark.

O mineiro Victor Corrêa, que fazia sua estreia no Mercedes-Benz Challenge justamente naquele dia, perdeu o controle do seu carro num forte ponto de freada e acertou Vitte bem do lado onde o piloto estava postado. Foi uma batida fortíssima, a mais de 200 km/h, que implicou numa grande mudança de vida para José.


“Ali começava uma luta pela vida. Sofri muitas fraturas. Passei por muitas UTIs, muitos hospitais, uma luta de oito meses. Tive de ter muita perseverança, uma briga intensa comigo mesmo para voltar a acelerar”, lembra o piloto.

Contudo, Vitte jamais deixou de lado seu amor pelo esporte e mesmo em meio a muitas dores, não perdeu de vista seu objetivo: voltar a correr. “E isso aconteceu em agosto de 2015, em Goiânia. Consegui fazer a prova e fui ao pódio na categoria Master. Foi uma meta que eu coloquei para superar tudo isso. Uma vontade muito grande que tinha para voltar ao carro de corrida. Nem tinha ainda a liberação dos médicos, mas mesmo assim consegui correr, me diverti e fiquei muito feliz.”

“E, depois, fiz a prova final em São Paulo, consegui outro pódio na Master. E tudo isso foi o resultado de muita luta, muita osteopatia e também uma vontade louca de estar na pista. E tudo isso ajudou a me reabilitar. Foi muito duro tudo isso, mas valeu a pena estar presente novamente”, narra Vitte.

Depois de todo o processo de recuperação vivido desde o fim do ano passado, Vitte voltou com ainda mais motivação para fazer sua terceira temporada no Mercedes-Benz Challenge. E começou muito bem. Em Curitiba, o piloto terminou a disputa em segundo lugar na classificação geral, só atrás de Arnaldo Diniz Filho, e faturou a vitória na classe Master da CLA AMG Cup. Mas o destino voltou a lhe pregar uma peça em um treino na quarta etapa do campeonato, no veloz e desafiador Autódromo Zilmar Beux, em Cascavel.

“Infelizmente, quando tudo estava voltando a acontecer, neste ano acabei tendo outro acidente. Em Cascavel tive um grande problema... ali achei que sairia aposentado”, recorda Vitte, que contou com a ajuda de um dos grandes amigos que fez no automobilismo para dar a volta por cima mais uma vez.

Com a ajuda de Arnaldo Diniz, Vitte voltou à ativa pela WCR/Comark Racing em Interlagos
Fábio Davini

“Dentro de um esquema de muita superação, o Arnaldo Diniz me recuperou emprestando um carro. Volto a correr, fiz a etapa de São Paulo com ele, e aí montamos uma parceria e estamos com a Comark Racing. Lidar com tudo isso muito difícil, já que nosso corpo tem seus limites. E eu ultrapassei todos os limites do meu corpo, mas com muita garra, fé em Deus e muita perseverança, consegui voltar e superar tudo isso”, comemora o dono do carro #90, que corou seu retorno às pistas com o segundo lugar em Interlagos na classe Master.

Tão difícil quanto enfrentar as dores causadas pelos acidentes sofridos ao longo dos últimos anos é conviver com a resistência de uma família igualmente apaixonada, mas também bastante preocupada com a saúde de Vitte. Mas, com uma boa conversa e doses homeopáticas de compreensão das duas partes, o piloto ganhou o ‘cartão verde’ para voltar a fazer o que mais gosta quando não está com a família ou à frente da imobiliária que administra.

“Eles sabem que sou muito apaixonado pelo que eu faço. Faço com muito amor, com muita garra. Claro que a cada corrida é uma negociação para fazer, e não tiro a razão deles. Eles temem que isso aconteça de novo, automobilismo é um esporte de risco. Mas vou devagarzinho, prova a prova... já estou liberado para correr até São Paulo, até o fim da temporada”, comenta.

“Eles ainda relutam comigo... eles me apoiam com muito receio porque foram praticamente dois anos do meu acidente [no Velopark] e até hoje vivo em recuperação. Devo estar com uns 90% em ordem, mas o corpo precisa de um tempo para se regenerar. Minha família sabe disso, e acabo tendo um pouco de dificuldade em convencê-los. Mas eles sabem da minha paixão... comecei só aos 36 anos, quando passei a ter condições, e isso tudo é ponderado por eles, que sabem que isso é muito importante para mim”, explica Vitte.

Com o apoio da família, ainda que com alguma resistência, Vitte mostra seu amor pelo automobilismo a cada corrida
Fábio Davini

De fato, estar nos autódromos ao redor do Brasil e dividir as curvas com adversários dentro das pistas, mas amigos fora delas, torna José Vitte um homem completo e realizado.

“Estar no fim de semana nas pistas, ver os amigos, ver pessoas que há tempos não vemos. Me considero amigo de muita gente, embora corrida seja competição, e estou agora com uma nova equipe, que me acolheu muito bem em São Paulo, que é a WCR/Comark Racing. E estou muito feliz em fazer o que eu sou apaixonado. Minha família tem me apoiado com muita precaução, mas agora está melhor. Então vamos lá, corrida após corrida”, sorri o piloto.

Por fim, Vitte ressalta que só tem condições hoje de voltar a correr e inclusive de dar esta entrevista por um fator dos mais importantes, ou talvez o mais importante: a segurança proporcionada pelos carros da Mercedes.

“O carro é muito seguro. É isso que me dá firmeza em voltar a competir. A Mercedes preza muito por segurança e mostrou isso no meu acidente. Se não fosse um genuíno AMG, talvez eu não tivesse suportado o impacto”, completa José Vitte, que estará em ação novamente, com todo o amor que o move a acelerar pelos autódromos do Brasil, neste fim de semana para a sétima e penúltima etapa do campeonato, em Goiânia, a mesma praça onde teve a chance de recomeçar.

Com 52 pontos, ele está em quinto lugar na classe Master da CLA AMG Cup e ainda alimenta chances de conquistar o título que, se vier, servirá para coroar todo o esforço e o espírito de superação que acompanha os grandes, seja no esporte, seja na vida como um todo.