O campeão improvável

Mesmo sem vencer ao longo da temporada, Luiz Carlos Ribeiro concluiu a temporada como o novo campeão do Mercedes-Benz Challenge na CLA AMG Cup. Uma conquista inesperada pela maneira como foi, bem como a confirmação do bicampeonato logrado por Peter ‘Tubarão’ Gottschalk, que veio com uma grande dose de drama

Fernando Silva, de Interlagos

Semanas antes da decisão dos títulos em jogo no Mercedes-Benz Challenge, a expectativa era que a categoria dos gentlemen-drivers coroasse com tranquilidade dois pilotos como bicampeões. Afinal, Arnaldo Diniz Filho e Peter ‘Tubarão’ Gottschalk contavam com o favoritismo e lideravam nas respectivas classes CLA AMG Cup e C 250 Cup. Mas o automobilismo, sempre afeito a pregar suas peças aqui e ali, aprontou das suas mais uma vez e tornou o fim de semana da grande decisão do certame bastante tenso, compreendendo um desfecho improvável em Interlagos.

Entretanto, o título da CLA AMG Cup começou a ser decidido bem longe de Interlagos. Pouco mais de um mês antes, no dia 6 de novembro, Goiânia recebeu a penúltima etapa da temporada. Uma etapa marcada pela chuva, que tornou a prova bem mais desafiadora. A corrida tinha tudo para ser vencida por Diniz, mas um toque sofrido pelo carro de Betão Fonseca fez com que o empresário e piloto da Comark Racing batesse forte, de frente, contra o muro de proteção na entrada da reta dos boxes.

Fonseca seguiu em frente e venceu a prova na pista, mas foi punido com a exclusão da corrida, com Luiz Carlos Ribeiro herdando a vitória. Entretanto, por conta da vitória em um recurso no STJD, Betão recuperou o triunfo em Goiânia. Assim era, portanto, a pontuação do campeonato antes da decisão do título em São Paulo: Diniz somava 86, contra 76 de Luiz Carlos Ribeiro, 69 de Fernando Fortes e 67 de Fonseca.

Mas ninguém esperava que o grande líder do campeonato seria a maior ausência da prova final. Na forte batida em Goiânia, Diniz fraturou a clavícula e virou dúvida, mas havia tempo, em teoria, para voltar à batalha e tentar garantir o bicampeonato. O mistério perdurou até sábado, dia do treino classificatório. Nem mesmo os mecânicos da Comark Racing sabiam se o piloto viria a Interlagos ou não. No fim das contas, Diniz ficou mesmo de fora da decisão e tornou o cenário ainda mais incerto.

Fortes, vencedor da primeira das duas provas em Goiânia, em maio, despontava como grande favorito ao título em razão do seu grande desempenho em Interlagos: até antes da corrida, o paulista da Mottin Racing foi perfeito e liderou os dois treinos livres, além de ter garantido a pole-position. Mas o que vale mesmo é a corrida. E o azar de Fortes foi a sorte do gaúcho Ribeiro.

Fernando liderava até a parada obrigatória nos boxes. Entretanto, o piloto enfrentou problemas no pit-stop e despencou de líder para quinto colocado. Usando a receita que foi bem-sucedida ao longo de toda a temporada, Luiz Carlos Ribeiro estava no lugar certo na hora certa. Comendo pelas beiradas, o piloto da Ourocar/Charrua Racing cruzou a linha de chegada em quarto, terminou logo à frente do seu maior adversário no fim de semana e confirmou a improvável conquista do título do Mercedes-Benz Challenge em 2016. 

Luiz Carlos Ribeiro, com a coroa de louros, comemora o título de campeão na CLA AMG Cup
Fábio Davini/Vicar

Na tabela dos pontos, Ribeiro somou 102, contra 91 de Fortes e 90 de Adriano Rabelo, que venceu a corrida em Interlagos. Fonseca, que havia recuperado os 20 pontos de Goiânia com a vitória no recurso, teria melhor sorte se não tivesse terminado a corrida em Interlagos, que distribuiu pontuação dobrada, em sexto lugar. Betão ficou apenas 15 pontos atrás do grande campeão da CLA AMG Cup.

Ribeiro, aos 43 anos, é natural de Bom Retiro do Sul, cidade de 14 mil habitantes do interior do Rio Grande do Sul. O piloto corre no Mercedes-Benz Challenge desde a abertura da CLA AMG Cup, em 2014. O ano de estreia foi complicado, com alguns acidentes que atrapalharam sua trajetória.

Em 2015, o gaúcho correu em boa parte do campeonato fazendo dupla com o experiente conterrâneo Fernando Poeta e conseguiu acumular experiência maior com o carro. Em 2016, veio novamente uma carreira solo, com muito mais regularidade desde o início, zerando apenas na primeira das duas corridas realizadas em Goiânia.

“O legal é que nesse ano nós fizemos [aqui] a equipe que nós já andávamos lá no Regional do Rio Grande do Sul, todo mundo aqui é do Regional. Fomos campeões ano passado, outras três vezes vice... e aí perguntamos: ‘Vamos encarar lá?’. E viemos para cá e foi muito legal. Chegar no primeiro ano e ser campeão é muito, muito bom”, diz o novo campeão do Mercedes-Benz Challenge ao GRANDE PREMIUM logo depois de ter confirmado o título em São Paulo.

Luiz Carlos Ribeiro recebe o troféu de campeão do Mercedes-Benz Challenge
Luís França/Vicar

Nas palavras de Ribeiro, em que pese o sentimento de dever cumprido e a felicidade pela conquista do título, faltava um quê de satisfação em razão da ausência de Diniz da decisão do título. “Fico sentido por ele não ter participado da prova porque se machucou. Foi uma coisa que não deveria ter acontecido. Mas são coisas de corrida”, comenta Ribeiro.

Os melhores resultados de Ribeiro na temporada foram dois segundos lugares, em Cascavel e na segunda corrida em Goiânia. Mas o veterano tirou proveito de uma série de azares dos seus oponentes e, com a tática de procurar chegar bem em cada prova, obteve sucesso e agora pode soltar o grito de campeão da garganta.

“Conseguimos fazer uma temporada sem ganhar nenhuma prova, mas muito regular. Não adianta você querer ganhar todas as corridas. Esse carro é muito desafiador, então temos de ir levando para chegar bem ao fim da corrida. E foi isso o que fizemos ao longo da temporada. Já tivemos corridas em que largamos em 13º e terminávamos em segundo, terceiro, e essa consistência de levar o carro bem até o fim da corrida foi decisiva”, encerra o gaúcho.

Mesmo sem vencer, Ribeiro (#19) teve a regularidade em seu favor para se tornar campeão na CLA AMG Cup
Duda Bairros

Drama marca decisão na C 250 Cup

Tinha tudo para ser um domingo tranquilo para Peter Michel Gottschalk, o ‘Tubarão’, conquistar o bicampeonato do Mercedes-Benz Challenge na C 250 Cup. Afinal, os 113 pontos conquistados ao longo de sete etapas, contra 88 dos parceiros de equipe Marcos Paioli/Peter Gottschalk e da revelação do campeonato, Fábio Escorpioni, indicavam que Peter Michel precisaria apenas de um oitavo lugar, independente do resultado dos adversários.

E ‘Tubarão’ terminou a corrida decisiva em Interlagos justamente no limite para se tornar campeão. Se arrastando. Depois de parar exatas oito vezes na pista em razão de problemas mecânicos no câmbio do seu carro, Peter Michael foi bafejado pela sorte. A sorte que acompanha os campeões. Porque apenas oito carros terminaram a prova depois dos abandonos de Beto Rossi e do luso João Lemos, que bateu muito forte na chicane e capotou.

Em último dentre aqueles que viram a bandeira quadriculada, ‘Tubarão’ finalmente pode comemorar um suado e dramático bicampeonato.

Peter 'Tubarão' conquistou o bicampeonato na C 250 Cup. Mas com muito drama em Interlagos
Luís França/Vicar

Ao GRANDE PREMIUM, Gottschalk relata um pouco do drama vivido em Interlagos. “Foi um sufoco! Precisava somente do oitavo lugar, então fui super tranquilo, certo da taça, já. Larguei em quarto, logo subi para terceiro e era o mais rápido da pista. Até que o carro começou a ter problema, e fui para nono lugar. Nessa hora, estava perdendo o campeonato...”

“No fim da prova, o carro do ótimo João Lemos capotou. O safety-car entrou na pista, subi para sétimo lugar e, no limite, levei o campeonato. Agora, se não fosse essa batida, teria ficado sem o título esse ano. Ontem foi um dia de sorte mesmo para mim”, conclui o novo bicampeão do Mercedes-Benz Challenge na C 250 Cup.

Nas duas categorias, a grande final em Interlagos mostrou que não basta ter apenas um grande carro para ser campeão. É preciso, acima de tudo, de sorte, de muita sorte. A sorte que costuma acompanhar os grandes campeões.