Vidas cruzadas por acidentes

Bartosz Ostalowski é único piloto sem braços a ter licença da FIA, em história tão comovente quanto do também polonês Robert Kubica, que quase perdeu mão direita, mas hoje tenta voltar à F1. ‘Não deixei tragédia destruir meu espírito’, disse drifter ao GRANDE PREMIUM

André Avelar, São Paulo

 

A F1 aguarda ansiosamente o retorno de Robert Kubica. Se voltará como o pretenso campeão mundial de antes, pouco importa para quem quase perdeu a mão direita em um acidente de rali. O polonês famoso pode nunca nem saber, mas tem um compatriota que também é exemplo de superação no automobilismo. Bartosz Ostalowski perdeu os dois braços em um acidente de moto. Esteve igualmente perto da morte, mas venceu a depressão e a dor nos carros de drift para hoje ser o único piloto biamputado dos membros superiores a ter uma licença da FIA.

Vestir o macacão, afivelar o capacete, enviar as respostas desta entrevista por e-mail... Bart precisa de ajuda para tudo em seu cotidiano nas proximidades da Cracóvia, no sul do país. Exceto quando está dentro do carro. É neste ambiente – aparentemente desconfortável para quem precisa de agilidade com o pé esquerdo no volante e precisão com o direito nos pedais de acelerador e de freio – que o polonês hoje de 30 anos se sente em casa. Aos que por vezes reclamam de qualquer noite mal-dormida, vê-lo só abrir a porta do seu Nissan Skyline R34 é uma inevitável aula de superação.

“Posso dizer que me considero um exemplo de superação para qualquer um. Meu acidente me levou para o ponto mais crítico da minha vida e, mesmo assim, não deixei a tragédia destruir meu espírito. Mesmo não tendo braços, não deixei de desafiar meus sonhos e ter meus objetivos. Espero ser um exemplo positivo apesar das trágicas circunstâncias”, contou Bart, que também é conhecido como Bartek, com exclusividade ao GRANDE PREMIUM.

A técnica de deslizar o carro nas curvas passou a ser a tradução da vida de Bart. É uma autêntica visão perturbadora de que nada vai dar certo, mas no fundo está tudo sobre controle. A precisão do piloto é milimétrica para entrar sem perder tempo de lado nas curvas, em meio à fumaça dos pneus já fritos, cheiro de combustível queimado e público invariavelmente em aplausos (veja só) de pé. A arte do drift permite rabiscar o asfalto com as rodas dianteiras apontadas para um lado e o carro teimando em seguir para o outro.


Também não deixa de ser diferente do que Kubica praticava, mas em estradas tão estreitas quanto escorregadias. Na F1, ele ganhava dinheiro; no rali, ele era feliz. Se hoje busca continuar uma história inacabada nas principais pistas do mundo, é porque em 2011, no Ronde di Andorra, queria mais que viver do pódio em sua terceira corrida, da batida assustadora no segundo ano, da vitória no terceiro. O prazer de domar um Skoda Fabia pelo asfalto molhado das proximidades de Gênoa, no norte da Itália, custou as inúmeras complicações de um guard-rail atravessado em seu cockpit. O copiloto Jakub Gerber pouco se machucou.

Desde pequeno “apaixonado por tudo que andava rápido”, Bart fez uma primeira corrida, aos 18 anos, ainda em ambiente amador apesar de estar a bordo de um Audi 80 Quattro, todo preparado. Dois anos mais tarde e já com alguma pretensão de seguir carreira, veio a queda de moto que lhe tirou os dois braços. Junto com o terrível acidente, os piores dias de sua vida e a total descrença na vida.

“Fiquei arrasado e pensei que jamais poderia voltar a fazer parte de alguma área do automobilismo. Nunca mais passou pela minha cabeça ser um piloto profissional. Durante esses tempos difíceis, depois da dor e da falta de coragem, procurava alguma resposta e encontrei uma solução que poderia ser dirigir com meus pés. Eram muitos os obstáculos e tinha que aprender a guiar tudo de novo e ter minha licença da FIA. Não foi nada fácil pessoal e profissionalmente. Tive de treinar muito todos os dias, mas quando olho para trás vejo que valeu a pena”, resumiu o drifter quase três anos de dúvidas.

Meu acidente me levou para o ponto mais crítico da minha vida e, mesmo assim, não deixei a tragédia destruir meu espírito. Mesmo não tendo braços, não deixei de desafiar meus sonhos e ter meus objetivos
Bartosz Ostalowski

 

Assim que tirou a exigida, e exigente, licença para competir Bart seguiu carreira na Copa Polonesa e no Campeonato Europeu de Rali. Depois de já construir seu nome no ‘racing’, era hora de mudar para o ‘drifting’. Para isso, foram necessárias, claro, algumas adaptações em seu Skyline como um motor novo, juntamente com uma caixa de marchas independente e uma de transmissão mais potente. O sucesso foi tanto que dois anos depois de sua estreia, em 2014, fundou com os amigos a Bart Racing. Nessa temporada, conquistou o primeiro lugar na etapa de Lausitzring, do Campeonato Checo de Drift e segue participando de competições pela Europa. 

As vidas de Bart e Kubica são tão cruzadas por um acidente que o primeiro gravou, antes do GP da Itália deste ano, um comercial com o piloto Nico Hulkenberg, da Renault. Já Kubica, apesar de dois testes dentro dos domínios da própria Renault, foi estranhamente dispensado da montadora francesa. Agora, agenciado pelo ainda atual campeão Nico Rosberg, tem testes marcados de novo para Hungaroring, mas desta vez, a bordo da Williams de 2014.