Onde nascem os campeões

Reconhecida por sua qualidade no preparo de jovens pilotos, a Academia de Pilotos VR46 abriu suas portas na Itália e, em uma iniciativa da Yamaha, recebeu o brasileiro Renzo Ferreira para uma semana de treinos

Juliana Tesser, de São Paulo

O método de ensino da Academia de Pilotos VR46 pode não ser tão renomado ― e extremo ― como aquele criado por Constantin Stanislavski para as artes dramáticas, mas, certamente, tem sua funcionalidade, como atestam os bons resultados obtidos por seus integrantes no Mundial de Motovelocidade.

Criada em 2014 atender jovens pilotos italianos, a VR46 vem abrindo suas portas para estrangeiros graças a uma iniciativa da Yamaha, que em março de 2016 fechou uma parceria formal com a ‘instituição de ensino’ de Valentino Rossi. Pelo acordo, a casa de Iwata fornece as motos que são usadas pelos pilotos em seus treinamentos, enquanto o multicampeão abre as portas de seu Rancho e dispõe de seu pessoal para desenvolver jovens indicados pela marca dos três diapasões no chamado Master Camp.

“Originalmente, o programa começou com a ideia de que o único caminho pelo qual você pode realmente avançar em sua carreira esportiva, vindo de um país onde o motociclismo não é grande ou bem desenvolvido, é fazer um esforço para correr na Europa. A VR46 está baseada em Tavullia, na Itália, o terreno ideal de aprendizado para jovens pilotos”, explicou Lin Jarvis, diretor da Yamaha. 

Renzo Ferreira, Robert Schotman, Enzo De La Vega, Kimi Patova, Mykyta Kalinin e Alfonso Coppola participaram do Master Camp
(Foto: Yamaha)

As primeiras edições do chamado Master Camp receberam estudantes de Ásia, Oceania e América do Norte, mas a quarta etapa do programa contou com pilotos com experiência na Europa, inclusive um brasileiro. 

Membros do projeto bLU cRU, uma competição desenvolvida pela marca nipônica onde os pilotos disputam o apoio formal da Yamaha para 2018, os seis escolhidos concorrem atualmente no estreante Mundial de Supersport 300: o brasileiro Renzo Ferreira, o holandês Robert Schotman, o francês Enzo De La Vega, o finlandês Kimi Patova, o ucraniano Mykyta Kalinin e o italiano Alfonso Coppola.

Nos dias de treino em Tavullia, os pilotos têm a chance de aprender não só com Rossi, mas também com os integrantes da Academia ― Franco Morbidelli, Lorenzo Baldassarri, Niccolò Antonelli, Nicolò Bulega, Francesco Bagnaia, Stefano Manzi, Marco Bezzecchi, Andrea Migno, Luca Marini, Dennis Foggia e Celestino Vietti ―, com o tricampeão inglês e bicampeão americano e europeu de Flat-Track, Marco Belli, com o preparador físico, Carlo Casabianca, e outros especialistas.

Além do ‘Motor Ranch’ de Rossi, os convidados para o Master Camp também participam de treinos no circuito de Misano e na pista de Misanino ― um circuito de kart.

O objetivo deste ‘curso extracurricular’ é melhorar as habilidades dos pilotos no que diz respeito ao controle da moto e na escolha da melhor linha, tudo isso usando as YZF-R3, motos de MiniGP, karts e as off-road YZ250F.

Rancho de Valentino Rossi é palco dos treinamentos do Master Camp
(Foto: Yamaha)

A palavra do chefe

 

Aos 38 anos e com uma coleção de nove títulos mundiais, Rossi ‘usa’ seus pupilos para se preparar e motivar, mas também para passar adiante os conhecimentos acumulados neste mais de 20 anos de experiência na elite da motovelocidade.

“Ajudar jovens talentos a desenvolverem suas carreiras internacionais é uma paixão minha há um longo tempo”, disse Rossi. “Ver isso crescer da Academia de Pilotos VR46 para a presença de pilotos estrangeiros nos Master Camp é algo muito especial”, continuou.

Amigo de longa data de Valentino, Alessio Salucci, o Uccio, é quem tem a missão de comandar a Academia e quem fica à frente do Master Camp.

“Nosso objetivo principal é sempre o mesmo: queremos dar aos pilotos a melhor experiência possível”, resumiu Uccio. “Isto é o que está no cerne de todo o programa e o que guia cada ação que fazemos. Nós queremos que eles voltem para casa não só com mais experiência, mas também com uma paixão maior pelo esporte. Eles devem se sentir ainda mais empolgados para pilotar e devem ter uma motivação ainda maior para continuar trabalhando o mais duro que podem no Mundial de Supersport 300”, seguiu.

“Os instrutores estão sempre de olho nos pilotos e na maneira como eles estão se desenvolvendo e ganhando novas habilidades. Isto não é uma competição. Claro, nós olhamos o nível de habilidade que cada piloto possui, mas, mais do que isso, nós olhamos para o quão profissionais eles são. O profissionalismo é demonstrado 50% na pista e 50% fora do circuito”, apontou. “Valentino, a VR46 e eu achamos que o profissionalismo fora da pista é crucial, é igualmente importante a ser rápido na pista. É bom se você for realmente rápido, mas se importar apenas em vencer não é o bastante”, assegurou.

Durante os dias em Tavullia, os pilotos são tirados de sua zona de conforto, treinam em pistas e com motos diferentes, além de participarem de cursos técnicos, como uma aula sobre suspensão, por exemplo.

“Durante essa experiência, cabe aos pilotos mostrarem a nós o que eles querem aprender. Se querem, vieram ao lugar certo”, afirmou Uccio. “Entretanto, eles vão precisar se comunicar claramente conosco sobre qual área eles querem aprender. Um piloto pode ter dificuldade com o posicionamento do corpo, enquanto outro precisa de ajuda para melhorar seu preparo físico. Os pilotos do Master Camp precisam refletir sobre si mesmos e definir suas próprias forças e fraquezas para que nós possamos ser capazes de ajudá-los”, detalhou. 

“Em um mundo ideal, gostaríamos de ver todos os nossos pilotos encontrando um bom equilíbrio entre encarar o esporte de maneira muito séria, mas também podendo se divertir com tudo isso. Eles devem viver e respirar o esporte de uma maneira boa: cheia de entusiasmo para aprender e melhorar, dentro e fora da pista”, finalizou.

Valentino Rossi também foi para a pista com os jovens pupilos da Yamaha
(Foto: Yamaha)

Alunos-professores

 

Na quarta edição do Master Camp, os jovens pilotos contaram com a companhia e o apoio dos mais experientes pupilos de Rossi. Morbidelli, Marini, Bagnaia e Migno, por exemplo, acompanharam as sessões de treinos físicos, enquanto Bulega ficou responsável por orientar os trabalhos na pista de Misanino.

“Na minha opinião, [o Master Camp] é uma coisa maravilhosa”, comentou Morbidelli. “Eles são todos caras jovens de 15, 16, 19 anos de idade, que tem essa grande oportunidade, na qual podem treinar conosco e ver nosso estilo de pilotagem. Eles fazem todas as atividades que nós fazemos, seguidos de uma maneira impecável e fantástica por toda a equipe da Yamaha. É bom ver algo assim sendo feito pela Yamaha para jovens pilotos”, elogiou.

Também titular da Moto2, Bagnaia ressaltou que os pilotos da Academia estão sempre disponíveis para ajudar os jovens aprendizes.

“Acho que eles são pilotos muito invejados, porque eles podem vir aqui e passar tempo com Vale e o nosso grupo. Nós estamos sempre disponíveis para eles e nós os ajudamos bastante, especialmente de manhã, quando vamos para a academia com eles e tentamos fazer algo com todos juntos. Na minha opinião, é uma grande oportunidade para eles, porque eles podem ver tudo que fazemos. Se eu fosse um jovem piloto, adoraria ser chamado pela Yamaha para participar do Master Camp”, finalizou.

Os integrantes da Academia de Pilotos VR46 são instrutores no Master Camp
(Foto: Yamaha)

Semana dos sonhos

 

Único brasileiro presente na quarta edição do Master Camp, Renzo Ferreira, de 16 anos, hoje vive nos Estados Unidos, mas divide seu tempo entre o país norte-americano e a Europa, onde se prepara para o Mundial de Supersport 300.

Apesar da novidade de treinar com um multicampeão como Rossi, Renzo está acostumado a ser orientado por pilotos de ponta. Na categoria de acesso ao Mundial de Superbike, o jovem nascido em Campinas, no interior de São Paulo, faz parte da equipe Kallio, da família de Mika Kallio, vice-campeão das 125cc em 2005 e 2006 e da Moto2 em 2014 e atual piloto de testes da KTM na MotoGP.

“Ele está sempre com o time e anda comigo nas pistas, analisa a telemetria comigo e conversamos sobre estratégia”, contou Renzo em entrevista ao GRANDE PREMIUM. “Ele é realmente um piloto especial e um treinador excelente”, elogiou.

A chance de treinar com Rossi, entretanto, foi única. Ao GP*, o jovem brasileiro confessou que já se daria por satisfeito apenas em tirar uma foto com o #46.

“Eu ficaria feliz em ter uma foto com ele, mas andar com ele e receber dicas do maior de todos os tempos é algo que eu nunca imaginaria. Foi um sonho realizado”, declarou. “Vê-lo como uma pessoa normal, conversar com ele, foi realmente uma experiência maravilhosa. Ele é muito acessível e divertido. Conversamos sobre moto e coisas normais. Foi muito legal. Vou levar para minha vida toda o boné autografado e os momentos que dividimos na pista”, seguiu.

O carismático piloto da Yamaha, porém, não foi o único a causar boa impressão. 

“A Academia de Pilotos VR46 tem muitos pilotos da MotoGP e todos são muito acessíveis”, contou Renzo. “Tive treinos com Franco Morbidelli e recebi muitas dicas dele na pista de Misano e nos treinos físicos. Também treinamos junto com Pecco Bagnaia, Nico Bulega, Nico Antonelli e Andrea Migno, que também estavam treinando junto conosco de 600cc, de flat-track e minimoto. Também treinamos com Marco Belli, nosso instrutor de flat-track. Mas eu fiquei muito amigo do Franco e do Antonelli, que me ajudaram muito”, relatou.

Renzo Ferreira foi o único brasileiro a participar do Master Camp até agora
(Foto: Yamaha)

Diretor da Yamaha, Lin Jarvis também participou do Master Camp e deu palestras aos jovens pilotos falando sobre a expectativas das marcas e equipes em relação a seus profissionais.

“Nós aprendemos que somos realmente um produto que as empresas utilizam para vender a marca delas. Uma marca quer estar associada a comportamentos bons, uma boa postura e aparência. Temos de saber falar línguas e sermos simpáticos e acessíveis com todos”, afirmou. “A Yamaha procura pessoas que possam ser modelos como atleta e pessoa para associar sua marca. Não adianta ser um bom piloto, se não tiver todas as outras características. Fazer uma entrevista em inglês é fundamental”, considerou.

A experiência em Tavullia também serviu para Ferreira mudar um pouco sua visão do esporte, especialmente no que diz respeito à sua preparação física.

Questionado pelo GRANDE PREMIUM se a rotina dos pilotos que fazem parte do Mundial de Motovelocidade é diferente do que ele esperava, Renzo respondeu: “Mudou um pouco minha visão”. 

“Achei que eles treinassem muito mais a parte muscular, mas fisicamente eles treinam muito resistência e flexibilidade. Isso foi muito importante pra mim”, reconheceu. “A rotina não é muito diferente do que vivo hoje no Mundial, mas os treinos variam bastante. E depende muito do biotipo do piloto. O treino do Bulega é diferente do Franco, por exemplo”, explicou.

Treinos de kart também fizeram parte do Master Camp
(Foto: Yamaha)

Os dias em Tavullia também modificaram o planejamento do jovem brasileiro, que entende que precisa mudar seu sistema de treinos.

“Muitas coisas mudaram na minha maneira de pensar, como, por exemplo, as responsabilidades fora da pista. E, com certeza, vou aumentar meus treinos de flat-track nos EUA, onde estão os melhores do mundo na modalidade”, apontou. “A persistência é o que faz um campeão mundial e isso foi o que eu vi. Conhecendo a história do inicio de cada piloto, todos começaram caindo muito e perdendo várias corridas. Isso tem de se transformar em motivação para evoluir”, defendeu.

Renzo acredita que, além da mudança em seus treinos físicos, precisa trabalhar para melhorar seu foco.

“Acho que, realmente, devo fortificar minha parte psicológica para o esporte e colocar mais treinos de foco e outros que aprendemos durante os dias. Para mim, esta é a parte em que tenho de focar mais. Como sou muito novo, ainda tenho muito a melhorar nesta área”, reconheceu. “Na parte de treino físico, modificar meus treinos para o que aprendi para melhorar minha performance”, seguiu.

Apesar do pouco tempo que passou desde os treinos em Tavullia, Renzo já sente o reflexo do aprendizado com Rossi e os membros da Academia de Pilotos VR46.

“Após o treinamento, tive duas corridas na Finlândia com o time do Mika Kallio e pude notar a diferença utilizando as técnicas mais avançadas. Consegui ganhar as duas corridas mesmo sem nunca ter andado na pista”, contou. “Minha motivação aumentou muito e minha garra também. Vou tentar a cada dia aplicar mais, porque não se muda de um dia para o outro. É um processo longo de mudar o jeito de treinar e pensar. Depois dos cinco dias, realmente percebi o quanto preciso evoluir e o quanto não sabia de detalhes”, encerrou.

Flat-track foi uma das modalidades de treino em Tavullia
(Foto: Yamaha)