Franco Morbidelli do Brasil

Piloto da Moto2, que correrá etapa de Brno com macacão verde-amarelo, revelou em visita ao País que sequer esperava tamanho carinho da torcida. Mas por que pouco o conhecemos e já o amamos tanto?

André Avelar, São Paulo

Franco Morbidelli passou pelo Brasil no início do mês na velocidade de quem está pronto para acelerar na MotoGP. Em menos de 48 horas no país-natal de sua mãe, o italiano utilizou de seu carisma espontâneo para acabar com qualquer desconfiança sobre sua personalidade e ainda se mostrou bastante à vontade com a cultura local. Tanto que se permitiu até uma franca lágrima ao ver o macacão verde-amarelo que usará já na próxima etapa da Moto2, em 5 de agosto, na República Checa. Mas por que ainda nem bem o conhecemos e já o amamos tanto?

Apenas a carência de ídolos não seria o bastante para explicar o ‘Fenômeno Morbidelli’. O próprio reconheceu que não esperava tamanho carinho da torcida em sua breve passagem por aqui para cumprir compromissos com uma das patrocinadoras, a Estrella Galicia, e, claro, também relembrar uma ou outra memória de infância. O piloto contou que ainda criança adorava passar férias com a mãe, a tia, demais familiares e amigos na praia de Boa Viagem, no Recife (PE). 

 

Não é de hoje que o #21 carrega as bandeiras brasileira e italiana em cada metade de seu capacete. Assim que os pódios começaram a surgir na categoria intermediária do Mundial de Motovelocidade, uma enxurrada de fãs inundou suas redes sociais com mensagens em português. Em um primeiro momento, os diversos recados causaram estranheza, mas lá no fundo aquele idioma era conhecido apesar de não ser o falado em casa. Daí a surpresa ainda maior pela fluência dispensada pacientemente em incríveis oito entrevistas exclusivas com jornalistas, uma coletiva e um bate-papo ao vivo na internet em um só dia, aliás, o mesmo que havia chegado direto do aeroporto. 

“Recebo muitas mensagens de brasileiros. Não esperava uma coisa assim só porque coloquei uma bandeira no meu capacete ou ser quem eu sou. Mas sei que [com o apoio brasileiro] tive mais força para brigar pelas vitórias”, disse o vencedor de seis das nove etapas da Moto2 até agora, razão também pela qual suas páginas pessoais multiplicaram em acessos vindos do outro lado do Atlântico. “Os fãs italianos e brasileiros são iguais. A paixão não tem nacionalidade. A relação é igual.”

Ainda que haja uma eficiente e oportuna estratégia de marketing, – pessoas envolvidas há tempos no mundo da motovelocidade garantem que aí tem o dedo do ídolo e igualmente carismático Valentino Rossi, verdadeiro guru do piloto membro da VR46 Riders Academy – não basta vir ao Brasil e comer meia-dúzia de pães de queijo na frente das câmeras ou experimentar cachaça, como inclusive Morbidelli fez nos bastidores do PaddockGP. Tudo com Morbidelli parece ser levado naturalmente. Essa característica de “deixar a vida me levar”, outra expressão que adorou em sua passagem pelo Brasil, ele atribuiu à sua mãe.

Do lado italiano, o piloto acredita que herdou a disciplina para o trabalho e a bravura de seguir adiante sem se importar com as adversidades. Diferentemente do que muita gente pode imaginar, Morbidelli não nasceu em berço de ouro e, por diversas vezes, a falta de dinheiro por pouco não o fez abandonar as competições que fazia desde os sete anos, quando ainda só se divertia em minimotos. Pior do que isso, aos 18 anos, em 2013, teve de amadurecer da noite para o dia e superar o suicídio do pai. Também por isso, a família de Rossi teve papel fundamental em sua vida, já que o pai de Valentino, Graziano, era amigo do pai de Morbidelli.

“Acho que minha mãe é nesse estilo de deixar a correnteza ir embora. Por isso também sou um pouco tranquilo”, disse Morbidelli antes de conhecer a nova expressão, enquanto assinava inúmeros pôsteres com sua foto. “Gosto muito do estilo de vida do brasileiro. Cresci com muitos brasileiros ao meu redor. E as cores também são muito bonitas e agora ficou ainda mais legal no macacão.” 

Para o próximo ano, Morbidelli já tem passe garantido para a MotoGP. Resta saber qual será a parceira que a Marc VDS Racing terá na principal categoria: uma moto Honda de 2017 e uma Suzuki de fábrica estão entre as opções. Até lá, o cada vez menos ítalo e mais brasileiro se concentra no título da Moto2. Hoje, soma 174 pontos, 34 à frente do vice-líder Thomas Luthi.

De macacão verde-amarelo em Brno, o "Tema da Vitória" já está até na agulha.