Em busca da recuperação

Depois de um ano de severa crise dentro e fora das pistas, a F3 Brasil busca se reerguer. O primeiro passo já foi dado com a mudança nos rumos da gestão. Agora no mesmo rol de eventos da Porsche GT3 Cup, a categoria planeja se fortalecer e renovar seu DNA

Nathalia De Vivo, de São Paulo

Quando começam a competir no kart, os jovens pilotos já buscam traçar metas e planos para sua carreira. Aqueles que almejam seguir no desafiador caminho das categorias de fórmula podem contar com grande apoio no Brasil. No cenário nacional desde 1987, a antiga F3 Sul-Americana foi criada para servir como escola-base de formação e preparação de competidores.

A partir de 2012, o certame sul-americano, que já enfrentava declínio técnico e financeiro há algum tempo, passou a ficar sob o guarda-chuva da Vicar e, dois anos depois, viveu nova reformulação para se tornar um certame de caráter nacional. Tudo para reduzir custos e deixar a F3 por aqui menos proibitiva. Mas foi em 2016 que o verdadeiro significado da palavra crise se traduziu na base da fórmula nacional. Com grids encolhidos, domínio absoluto de uma só equipe e falta de interesse, a F3 Brasil foi perdendo sua gloriosa imagem do passado.

Para este ano, o cenário é diferente e já bastante animador. Deixando a tutela da Vicar e passando a correr junto com a Porsche GT3 Cup, organizada por Dener Pires, a principal categoria de base brasileira procura se reerguer. Com medidas para atrair mais atenção e competidores, a novamente reformulada F3 Brasil luta para encher seu grid oferecendo uma escola completa de formação para os jovens pilotos.

Augusto Cesário, o 'Formigão', dono de muita história no automobilismo, chefe da Cesário F3 e um dos idealizadores da “nova F3 Brasil”, mostrou empolgação com o projeto. “Essa é uma nova fase, com nova roupagem. É um evento novo. Estamos muito felizes com essa nova condição de correr com a Porsche. Existe uma grande possibilidade de crescimento da categoria, estamos torcendo”, disse.

O GRANDE PREMIUM, então, foi atrás para entender melhor a nova trilha que a categoria está prestes a rumar.

Pilotos que foram para a pista na primeira etapa da F3 Brasil em 2017
Marcus Cicarello

A F3 ainda é vista como categoria de base?

 

A F3 começou no Brasil em 1987 com o nome de F3 Sul-Americana. Nos anos 90, a categoria teve grande papel no automobilismo do país e contou com importantes nomes do esporte a motor brasileiro, como Helio Castroneves, Christian Fittipaldi, Bruno Junqueira, Ricardo Zonta, entre tantos outros.

A partir de 2012 passou a ser organizada pela Vicar, hoje responsável também pela Stock Car, Campeonato Brasileiro de Turismo, Campeonato Brasileiro de Marcas e Mercedes-Benz Challenge.

Mas foi no último ano que a categoria sofreu com uma verdadeira crise nas pistas. Começando o campeonato com 16 carros, o grid foi se esvaziado ao passo em que as etapas foram passando, e na reta final da temporada, em Interlagos, contou com apenas sete competidores no grid.

Apesar de um cenário desanimador para o esporte e para a categoria, muitos acreditam que a F3 Brasil ainda pode ser encarada como uma categoria de base eficiente e que auxilia na formação dos pilotos para a carreira.

Quem segue a linha de pensamento é Matheus Iorio, campeão da categoria em 2016. O competidor, que em 2017 disputará a Euroformula Open, afirmou que muito de seu conhecimento no automobilismo se deve aos três anos que passou correndo nas pistas do Brasil.

“Querendo ou não, por mais que o grid não esteja tão forte, o carro é muito bom para se aprender. Eu devo muito do que eu sei a esses anos que eu passei no Brasil correndo de F3 e com certeza é uma categoria-base para os pilotos que querem ter uma carreira internacional”, pontuou.

Ex-companheiro de Iorio e atual piloto da F3 Brasil na Cesário, Guilherme Samaia completou o discurso do colega afirmando que o estreitamento de laços com o kart será fundamental para a preparação para o futuro.

“Essa é uma categoria essencial para a formação de novos pilotos. Principalmente agora com a nova direção, que tem como foco trazer competidores do kart para o carro e oferecer estrutura de treinamento para eles. É uma escola importante para quem quer ser piloto profissional”.

Dárcio dos Santos, outro grande nome da história da F3 e dono da PropCar Racing, explicou que a F3 Brasil não deixa a desejar se comparada com as demais categorias de formação de jovens talentos ao redor do mundo. “Sem dúvidas a F3 é uma categoria de base preparatória”.

“Por exemplo, nossos carros da categoria F3 Academy são tão modernos ou melhores que a maioria dos carros de F4 ao redor do mundo. Nesta categoria o piloto aprende as variáveis de aerodinâmica, regulagens de suspensão, telemetria, vácuo, motor e câmbio”.

Corrida da F3 Sul-Americana em Goiânia, no ano de 1990
Reprodução

A fórmula x o turismo

 

Atualmente, as categorias com maior representatividade, espaço e competitividade dentro do país são as de turismo. Como exemplo podem ser apontadas Stock Car e Campeonato Brasileiro de Turismo, que têm grids respeitáveis e que colecionam nomes como Rubens Barrichello, Cacá Bueno e Ricardo Zonta. Então será que no Brasil os pilotos começam a optar por seguir este caminho?

Iorio crê que o carro de fórmula ainda chama mais atenção para quem está dando os primeiros passos. “Acho que a F3 Brasil é uma categoria muito atrativa para os jovens no Brasil, pois quem sai do kart, a maioria quer ir para fórmula. São poucos os que têm na cabeça decidido que querem ir para o turismo”, comentou.

Quem concordou com o pensamento foi Samaia. “Na minha visão, o turismo é em diversos casos a segunda opção. Acredito que ser profissional numa categoria de fórmula é muito mais difícil por vários motivos. E acredito também que o carro de fórmula é o que o piloto deseja”, disse.

“Ele faz muito mais curva, é extremamente rápido. Podemos até utilizar comparativos da diferença de volta de um F3 Brasil e um Stock, mesmo tendo uma diferença de cavalaria monstruosa. Porém, quando um piloto não consegue levar a carreira na fórmula, em muitos casos a opção é seguir para o Turismo. Esse tipo de categoria é muito mais flexível em relação ao peso e ao físico do piloto, sendo mais fácil de encher o grid. Além disso, o apoio dado pela mídia e TV aberta também contribui para essa migração da fórmula para o turismo”, seguiu.

Já Cesário tem uma visão muito mais crítica da debandada para as categorias de turismo. Pegando a Stock Car como exemplo, que conta com pilotos que já passaram pela F1, ela é vista por ele como opção para encerrar a carreira.

“Os pilotos que vislumbram a Stock Car... É um desperdício muito grande. Ela é uma categoria de final de carreira, o piloto não tem mais para onde ir. Não querendo desmerecer, é uma grande categoria brasileira, competitiva, que é a mais promovida, a com mais marketing”, ressaltou.

“Você tirar o menino do kart e ele vislumbrar o turismo é muito ruim. Nós estamos sem gente para vislumbrar a F1, estamos com falta de pilotos bons para galgarem todos os passos. Precisamos incentivar os pilotos e deixar a Stock Car para depois da F1. Acho que o piloto tem que vislumbrar a F1, a Indy, e encerrar a carreira na Stock Car. Acho que isso que temos que tentar fazer, fazer o automobilismo brasileiro ser um esporte de massa novamente, como na época de Senna e Piquet”, completou.

Carro da F3 Brasil com Stock Car, Petrobras de Marcas, Brasileiro de Turismo e MBC
Duda Bairros/Vicar

A F3 Academy

 

Visando uma melhor formação dos pilotos para o futuro de sua carreira, para a temporada 2017 foi apresentada a F3 Academy. Substituindo a antiga F3 Light, o programa procura ser uma formação de pilotos tanto dentro quanto fora da pista.

Explicando um pouco mais sobre o conceito, Carlos Col, idealizador do projeto, passou os principais pontos da escola base. “Recebi um pedido da CBA e do Cesário para ajuda-los na nova fase da F3 Brasil. A F3 Academy será uma escola de formação de pilotos, onde daremos uma formação extra pista para eles”, informou.

Entre os serviços oferecidos estão aulas e palestras sobre a parte teórica do automobilismo, como também treinamento físico, psicologia, nutrição, treinamento de comunicação, entre muitos outros pontos.

Carlos seguiu em seu discurso pontuando que a saída precoce dos pilotos do Brasil para a Europa pode acarretar problemas, e que então, a F3 Academy pode ajudar neste ponto. “Esse é um programa que pretendo formar pilotos, o Brasil está carente disso, de uma formação”.

“Quando os pais têm recursos, acabam levando os pilotos prematuramente para a Europa, e eles acabam abandonando tudo, família, amigos. Tudo isso contribui para não conseguir bons resultados lá fora. Sem bons resultados, os pilotos ficam abatidos, sem estímulos. Então acredito que eles devem ficar mais tempo no Brasil antes de irem para fora”, explicou.

Primeira etapa da temporada 2017 da F3 Brasil, em Curitiba
Marcus Cicarello

Para reverter a situação

 

Para a temporada 2017, a meta já está traçada e o objetivo é um: chegar na última etapa do ano com 16 carros no grid. A tarefa não é fácil, como reconheceu Col, mas medidas já estão sendo tomadas para atrair mais pilotos para a categoria.

“Tornar a F3 Brasil atraente novamente é o nosso grande desafio, pois ao longo dos anos ela foi perdendo sua atratividade, foi perdendo credibilidade. O que estamos fazendo, então, é fazer o resgate de algumas equipes que estavam paradas e damos o apoio técnico”, ressaltou Carlos.

“Também pretendemos trabalhar melhor a comunicação com o kart, estreitando laços, além de diminuir a potência dos motores. Hoje eles são de 250 cv, queremos reduzir para 220 cv”, explicou.

“Estamos também no processo de equalização dos motores, hoje já temos as curvas de todos os motores. É importante que, por ser uma categoria escola, a competição seja entre os pilotos, não entre os preparadores de motores. Eles têm que sentar todos em carros com a mesma potência”, seguiu.

Para Dárcio, o desinteresse na categoria foi um conjunto de crise financeira no Brasil e uma só equipe dominando absoluta nas corridas. No entanto, para o dirigente, a situação pode ser contornada. “O domínio de um só piloto e equipe trazem desinteresses, sem dúvidas”.

“Entretanto com uma boa divulgação e trabalho árduo dos dirigentes em tentarem conseguir ao menos algum apoio financeiro para a manutenção das equipes, isso seria o ideal”, concluiu.

Em 2017, a F3 Brasil está perseguindo a recuperação
Marcus Cicarello