As bases do turismo brasileiro

Hoje o Brasil pode ser considerado um país com fortes categorias de turismo. Entre as mais conhecidas está a Stock Car, que conta com o Campeonato Brasileiro de Turismo como um fundamental degrau para o sucesso de um piloto. No entanto, as categorias de base brasileiras realmente servem de apoio para os jovens competidores?

Nathalia De Vivo, de São Paulo

Para chegar ao topo do automobilismo, seja nacional ou internacional, qualquer piloto tem que começar por baixo. Aos poucos, degrau a degrau, ele vai começando a sua escalada até o Olimpo que deseja alcançar.

A difícil e gradativa - mas nem sempre recompensadora - jornada até seu objetivo final sempre tem um ponto de partida. Nesta tortuosa trilha para o reconhecimento e vitórias, o novato competidor acaba esbarrando nas categorias de base.

Elas nada mais são do que berçários para jovens pilotos que querem uma boa preparação para campeonatos mais fortes no futuro. Na F1, por exemplo, pode-se encarar a GP3 e GP2 como passos fundamentais para o sucesso.

Olhando para o Brasil, hoje a Stock Car pode ser considerada o ponto mais alto que qualquer competidor pode alcançar. Em um país predominantemente do turismo, grandes nomes acabam abrindo mão de seguir o rumo dos carros de fórmula.

Mas para chegar na principal categoria do automobilismo brasileiro, qual o caminho a ser percorrido e qual a melhor preparação hoje? Para as respostas, um nome pode ser apontado: Campeonato Brasileiro de Turismo.

Mas afinal, a categoria de base tem servido de apoio para os pilotos brasileiros? O GRANDE PREMIUM foi atrás para saber.

Momento da bandeirada para Gabriel Robe em Curitiba
Victor Eleuterio/Vicar

A criação das categorias de base

No dia 22 de abril de 1979 os motores da Stock Car roncaram pela primeira vez. A prova inaugural aconteceu em Tarumã, contando com dez pilotos no grid e teve como o grande vencedor da disputa Afonso Giaffone Jr.

No entanto, apesar de ter surgido no final dos anos 70, a primeira categoria de base foi criada apenas 14 anos depois, em 1993. Com o nome de Stock Car Brasil Light, surgiu com o objetivo de facilitar o caminho de jovens competidores.

Com o passar do ano a categoria mudou de nomes – em 2008 virou Copa Vicar; em 2010, Copa Chevrolet Montana; e, atualmente, é Campeonato Brasileiro de Turismo, sob o guarda-chuva da Vicar, também organizadora da Stock Car, Mercedes-Benz Challenge, Copa Petrobras de Marcas e F3 Brasil.

Por mais de 20 temporadas os campeonatos de base têm sido a opção de muitos novatos competidores que procuram a profissionalização e o reconhecimento no automobilismo. Com regulamento e carros semelhantes aos da Stock Car, o aprendizado é bastante proveitoso.

A Stock Car Light
Luca Bassani

A principal função das categorias de base

Os nomes podem ter sido muitos ao longo das temporadas, mas a função foi sempre uma: preparar pilotos para o seu futuro no automobilismo. E afinal, a preparação realmente acontece? Felipe Fraga, cria de um desses campeonato, diz que sim.

“Acredito que o Brasileiro de Turismo é uma escola muito boa para a Stock Car e não tenho dúvidas de que meu título na categoria, em 2013, me ajudou a ganhar espaço para correr na principal categoria do automobilismo nacional no ano seguinte”, explicou.

Fraga realmente chegou bastante preparado em 2014. Em sua corrida de estreia, ao lado de Rodrigo Sperafico na Corrida de Duplas em Interlagos, o piloto terminou vitorioso e se tornou o mais jovem a alcançar um triunfo em uma prova da categoria.

Seu companheiro de equipe, Marcos Gomes, ainda seguiu concordando com o pensamento dizendo que a equipe fica de olho em seus pupilos. “Nós da equipe principal acompanhamos bastante o trabalho da Cimed Racing também no Brasileiro de Turismo, com o Adibe Marques e o Pietro Rimbano”, comentou.

Marcio Campos, que se sagrou campeão do Turismo em 2015 e atualmente segue na categoria sem ter conseguido um espaço na Stock Car nesta temporada, segue a linha de pensamento da dupla.

“Acredito que o Campeonato Brasileiro de Turismo é um excelente campeonato de ‘entrada’ para pilotos que visam fazer carreira em carros de Turismo estilo Stock Car, Turismo Carretera, DTM e etc. O nível do campeonato e das equipes é muito bom, muito alto, e por ser mais acessível que a Stock Car e ter carros parecidos, serve como uma bela base”, disse.

O abraço emocionado entre Fraga e Sperafico após a vitória na Corrida de Duplas
Duda Bairros/Vicar

Quem tem talento realmente vai para a Stock Car?

Mas não é apenas de talentos que se vive um piloto e seu pulo para o topo. Fraga foi um caso difícil de se ver, com um combo de bons resultados, afinal, foram quatro vitórias em oito provas, um bom patrocínio do governo de Tocantins e apoio da Red Bull.

Nas 24 temporadas em que as categorias de base estão servindo de apoio para a Stock Car, apenas nove de seus campeões conseguiram, de fato, atingir a excelência de ir para a principal categoria brasileira.

Ou seja, piloto que não tem dinheiro dificilmente sobe. Ao menos é isso o que Campos disse acreditar. “Para chegar na Stock Car, infelizmente não necessitamos só de resultados, 90% do que precisa é dinheiro. O talento é importante, mas dinheiro é fundamental”, disparou.

Quem sofre do mesmo problema é Guilherme Salas. Campeão do Brasileiro de Turismo em 2014, apenas lhe restou ir para uma categoria paralela no ano seguinte, a Copa Petrobras de Marcas. Naquele campeonato, com uma vitória e uma pole-position, terminou em sexto na classificação.

Foi quando que no início de 2015 surgiu uma grande oportunidade de dividir um carro da Stock Car com Ricardo Maurício na Corrida de Duplas que aconteceria em Curitiba. Os companheiros conquistaram a posição de honra do grid de largada e o degrau mais baixo do pódio na corrida.

Infelizmente para Salas, foi a única chance de guiar um carro da categoria - até o próximo final de semana, quando estreia para valer na Stock Car na etapa de Goiânia. “As categorias de base servem para o aprendizado e preparo de um piloto jovem e não para te levar direto para uma Stock Car. Se você for campeão, como no meu caso que fui campeão do Brasileiro de Turismo em 2014, não tive nenhuma oportunidade de andar um ano na Stock Car, devido à falta de patrocínio”, desabafou.

Marcio Campos após ser campeão do Brasileiro de Turismo
Fernanda Freicosa/Vicar

O que falta para pilotos começarem a subir categorias

Com o passar dos anos muito se tem discutido de como atrair mais interesse de pilotos e patrocínios para categorias brasileiras como Brasileiro de Marcas e a própria Stock Car.

Não é difícil encontrar exemplos de que o automobilismo no Brasil tem sofrido crescentemente com a crise. Basta olhar para a F3 Brasil que, em sua última etapa disputada em 2016, em Curitiba, contou com apenas sete carros em seu grid.

Gomes, que foi campeão da Stock Car Light em 2006 e é o atual campeão da divisão principal, comentou que falta incentivo por parte do governo. “As categorias de base no Brasil passam por um momento delicado. Para mim, o ponto principal seria a falta de recursos dos pilotos e seus familiares para investir em uma carreira profissional, principalmente no exterior”, avaliou.

“Está faltando patrocínio? Isso sempre faltou. O que poderia se criar seriam incentivos, dos promotores e se possível do Governo, só assim teríamos categorias de base com grids cheios no Brasil. O campeão deveria no mínimo ganhar uma temporada na categoria seguinte, seja no Brasil ou na Europa”, completou o piloto.

Por fim, Campos diz que as próprias montadoras podem dar apoio. "O automobilismo no Brasil carece de investimento por parte das concessionárias, das próprias montadoras. Na Argentina existe uma verba destinada para o automobilismo", encerrou.

Largada da Copa Chevrolet Montana
Duda Bairros/Vicar