A crise na base

Recriada em 2014, a F3 Brasil vem enfrentando sua pior crise desde então. Na etapa de Londrina, foram apenas sete os pilotos no grid. Trata-se de um cenário que reflete lá na frente, na carência de novos nomes brasileiros

Fernando Silva, de Interlagos e Londrina

Helio Castroneves, Christian Fittipaldi, Bruno Junqueira, Ricardo Zonta, Cristiano da Matta, Nelsinho Piquet, Lucas Di Grassi, Tarso Marques, Vitor Meira, Max Wilson. Em comum, todos os nomes listados já correram na F1 ou na Indy — alguns deles, nas duas principais categorias de monopostos do automobilismo mundial. E todos eles deram suas primeiras aceleradas em carros na F3 Sul-Americana, numa época de grids cheios e quando os talentos brotavam em profusão. Não à toa, o nível de competição era muito alto, de modo que a categoria era capaz de forjar muitos pilotos para o exterior, sendo que muitos deles vingaram e ainda estão aí na ativa.

Bons tempos aqueles, não? O começo da década de 1990 era o auge do Brasil no automobilismo. Ayrton Senna tinha conquistado o tricampeonato mundial e era mais venerado por essas bandas do que Pelé ou qualquer outro nome esportivo. O futebol, na contramão da F1, vivia uma seca de títulos que só foi quebrada com o tetra em 1994. O automobilismo era o esporte da moda.

Hoje, contudo, a realidade se mostra bem diferente e dura para quem tenta seu lugar ao sol na F3 Brasil, que voltou a ser um certame nacional justamente para resolver um dos problemas que afetava a competição continental: os altos custos. Desde o fim de 2012, a Vicar, empresa que promove e organiza a Stock Car, passou a assumir a organização da F3 por aqui com a intenção de desenvolver o esporte e torná-lo mais viável. Porém, a crise econômica afetou com força a categoria. Em 2016, a F3 Brasil começou a temporada no Velopark, com 16 carros inscritos. No último fim de semana, em Londrina, este número caiu para apenas sete pilotos.

Sem dúvidas, é algo que não combina com a grandeza da F3 e também com a história do automobilismo brasileiro. E que, no fim das contas, reflete o motivo de a perspectiva do Brasil para o futuro na F1 e também na Indy ser bastante sombria. Felipe Massa anunciou recentemente que deixará o Mundial no fim do ano. Felipe Nasr ainda não definiu onde vai correr no ano que vem. Na Indy, há tempos o país sobrevive no grid graças a Castroneves, oriundo da antiga F3 Sul-Americana, e Tony Kanaan. Difícil saber o que virá pela frente. Se é que virá.

 

Mas bem antes dos momentos difíceis de hoje, a antiga F3 Sul-Americana tinha a capacidade de reunir os jovens talentos não só do Brasil, mas também de todo o Cone-Sul. Entre os brasileiros, muitos não chegaram à F1, mas é impossível, sobretudo aos mais velhos, se esquecer de pilotos como Leonel Friedrich, Norio Matsubara, Tom Stefani, João Paulo de Oliveira, Ricardo e Rodrigo Sperafico, Jaime Melo, André Nicastro, entre tantos outros. Mas os argentinos não ficavam atrás e garantiam outro componente importante para tornar o espetáculo ainda maior: a grande rivalidade.

Fernando Croceri, Emiliano Spataro, Agustín Canapino deixaram seus nomes na história da F3 Sul-Americana, mas ninguém o fez com tamanha propriedade quanto Néstor Gabriel Furlán. Aos 51 anos, o ex-piloto nascido em Buenos Aires trabalha hoje na Stock Car como colaborador técnico da equipe Carlos Alves e próximo ao compatriota Néstor ‘Bebu’ Girolami. Atualmente, Furlán passa despercebido pelo paddock pelos autódromos brasileiros, mas no seu auge, nos anos 1990, era amado por muitos e odiado por outros tantos.

Furlán foi o maior campeão da história da F3 Sul-Americana. Foram quatro títulos, ao todo: 1989, 1994, 1996 e 1998. Foi também a grande ‘pedra no sapato’ de muitos brasileiros durante todo esse tempo. Em Interlagos, durante o fim de semana da Corrida do Milhão da Stock Car e também da quarta etapa da F3 Brasil, Furlán falou ao GRANDE PREMIUM com certa nostalgia sobre o período que viveu na antiga competição sul-americana.

“As lembranças são as melhores da minha vida esportiva. A passagem pela F3 Sul-Americana foi a melhor que vivi na minha carreira. Corri por nove anos num total de 28 no automobilismo. Aqui, em Interlagos, ganhei minha última corrida de F3, em 1998, no ano em que me aposentei.”, diz Furlán, que na Argentina é dono da GF Racing, equipe do Top Race V6.

“Lembro de muitas rivalidades: na minha primeira época de F3, meu grande rival era o gaúcho Leonel Friedrich, de Porto Alegre. Depois fui correr na Europa e, quando voltei, encontrei muitos pilotos bons: Ricardo Zonta, Bruno Junqueira, Helio Castroneves, os irmãos Sperafico... muitos com quem disputei, sempre lutando dentro dos limites e, com muitos deles, fui amigo, parceiro fora das pistas. E isso é o melhor que pode acontecer no esporte. Lutar dentro da pista, mas quando a corrida acaba, entender que o outro não é um inimigo, só um rival esportivo."

 

Néstor Gabriel Furlán foi um dos grandes nomes da história da F3 Sul-Americana
Fernando Silva/Grande Premium

 

Lenda da F3, Furlán sempre tem no Brasil e nos brasileiros as suas maiores lembranças como piloto, em provas sempre com mais de 20 carros no grid e marcadas pela alta competitividade e imprevisibilidade. “Falo de três corridas inesquecíveis: uma delas foi em Buenos Aires, a última do campeonato de 1989, quando venci meu primeiro título na F3, disputava com Leonel Friederich, mas ganhei a prova e foi campeão. Isso permitiu que eu fosse correr na Europa, foi um impulso na minha carreira.”

“A segunda corrida que sempre lembro foi em Tarumã. Disputava com Marcos Gueiros. A prova começou com chuva, mas depois secou, então parei para trocar os pneus. Na época, não havia a pistola pneumática como agora, tínhamos de trocar o pneu na chave-cruz. Então, levei 45s para trocar pneu e, quando voltei, o Gueiros estava na minha frente. Eu com pneus de pista seca e ele com pneus de chuva. Faltando três voltas, consegui recuperar a liderança e consegui vencer a corrida. E a outra que eu lembro sempre foi a última vitória, aqui em Interlagos. Foi um motivo de muita satisfação para a minha carreira”, recorda‘Gaby’, que sorri ao lembrar dos bons tempos.

Furlán, contudo, entende que hoje o automobilismo vive um momento de transição, com o enfraquecimento das categorias de base, sobretudo nos monopostos. O Brasil, de uma forma ou de outra, consegue se sustentar com sua F3 nacional, mas a Itália e mesmo a tão elogiada Alemanha não conseguiram o mesmo sucesso, sufocadas pela F3 Europeia. Mesmo na Inglaterra, a F3 local deixou de ser realizada em 2015, voltando a ser disputada neste ano com carros da antiga F4.

O que há, com cada vez mais força, é um foco maior para os carros de turismo. A base do automobilismo na Argentina há tempos é o turismo, com categorias fortes como a Top Race, Super TC2000 e o lendário Turismo Carretera, sendo a F-Renault o único grande certame dos monopostos por lá. O mesmo cenário passa a ser visto com cada vez maior intensidade também no Brasil.

 



“Há uma contradição no automobilismo mundial: o monoposto é mesmo um carro de corrida, onde a gente aprende a guiar, aprende a virar rápido, mas é de aceitação cada vez mais difícil pelo público, não só aqui, mas na Europa, nos Estados Unidos, também”, avalia o ex-piloto, que enxerga nos organizadores e também nos responsáveis pelos rumos do esporte a motor uma ação para não deixar a base dos monopostos morrer. Na esteira da observação de Furlán, cabe observar: a Indy vem tendo cada vez menos público nas arquibancadas e mesmo a F1 tem lidado com queda de audiência, no público presente e também entre os telespectadores.

“É preciso haver um apoio dos dirigentes, dos organizadores do evento seja aqui, seja na Argentina, porque é necessário entender que isso aqui é uma escola para todos nós. É preciso de muito apoio para que o campeonato volte a ser competitivo. A F3 deveria ser novamente Sul-Americana, com pilotos sobretudo de Brasil e Argentina. É aí que o trabalho deveria começar. Na minha época, você tinha dez carros aqui, com outros dez, 12 de lá, tínhamos um grid cheio e forte. Seria bom trabalhar isso, tentar recuperar o fôlego, a briga entre brasileiros e argentinos, que era bom para o campeonato, para o público, para a televisão”, opina.

A queda do número de pilotos em categorias de monopostos é uma realidade não só no Brasil, mas no automobilismo mundial. Hoje, nem mesmo a F3 Europeia consegue encher seus grids como antes. Não faz muito tempo, a categoria tinha mais de 30 carros no alinhamento inicial. Mas na última corrida disputada, em Nürburgring, foram apenas 17. Ainda é um número razoável, mas praticamente a metade do que a categoria tinha não faz muito tempo.

A sempre forte F3 Japonesa também fechou sua temporada com 17 carros no grid, mesmo número da Euroformula. Outra categoria de base importante, a F-Renault 2.0, reuniu 19 carros em sua última prova, em Spa-Francorchamps, sendo que a classe, em 2013, fechou a temporada com nada menos que 34 pilotos. Trata-se, portanto, de uma tendência mundial que acaba sendo refletida também no Brasil.

A presença do sobrenome Piquet alavancou a F3 Brasil entre 2014 e 2015
Luca Bassani

O último ano da outrora gloriosa F3 Sul-Americana foi em 2013. Foi uma temporada melancólica, com boa parte das corridas tendo um grid de apenas seis carros. A categoria estava morrendo, definitivamente. Na esteira dos custos altos, mas ainda sem o período de crise dos dias atuais, a F3 tinha de ir para a Argentina para realizar ao menos uma prova e manter o status de competição internacional. Tudo isso dificultava muito, sobretudo em termos de logística, tudo era mais caro. Felipe Guimarães, hoje tentando se firmar na Stock Car, foi o último campeão.

Estava claro que era preciso mudar para garantir a sobrevivência da F3 por aqui. E o principal era reduzir os custos. Pensando nisso, a Vicar promoveu a volta da F3 Brasil, com corridas sendo disputadas apenas em solo nacional e fazendo parte do cronograma do fim de semana da Stock Car. Além disso, o pacote também continha a transmissão das corridas. No começo, as provas eram exibidas ao vivo pela internet, no portal Terra. Depois, ficaram a cargo apenas do SporTV, em VTs programados para a semana seguinte das disputas.

A ideia era que, com uma visibilidade maior, a categoria conseguisse se sustentar e atraísse também bons patrocinadores.

No entanto, a Vicar passou a ser alvo de críticas por parte de pilotos e equipes pelo grande hiato entre as corridas e também em razão do cronograma apertado e dos horários em que foram alocados os eventos da F3 Brasil, com algumas provas acontecendo ou muito no fim do dia, com pouca luz natural ou bem no amanhecer dos domingos, oferecendo pouca visibilidade à categoria.

Nos seus dois primeiros anos, a renovada F3 Brasil conseguiu se sustentar até que bem. Os grids tinham uma média de 15 carros, e a principal atração era, sem dúvidas, a presença de um glorioso sobrenome. Pedro Piquet arrasava a concorrência com a pintura do carro inspirada na lendária Brabham guiada por Nelsão na década de 80. Piquetzinho era a grande atração, mas outros nomes conseguiram ali seus destaques: Vitor Baptista, Matheus Leist, Sergio Sette Câmara, Lukas Moraes e, por fim, Matheus Iorio.

 

Em poucos anos após sua recriação, a F3 Brasil foi capaz de revelar talentos que têm a condição de brilhar hoje no exterior. Baptista, por exemplo, conquistou o título da F3 Euroformula, baseada na Espanha, no ano passado, e hoje é um dos pilotos da F-V8 3.5, a antiga F-Renault 3.5, que fazia parte da World Series. Matheus Leist, gaúcho de Novo Hamburgo e que foi companheiro de equipe de Baptista e Piquet na Cesário, foi outro nome de destaque neste ano, sendo o primeiro campeão da renovada e tradicional F3 Inglesa.

Sem contar também Sergio Sette Câmara. O mineiro foi escolhido no ano passado pela Red Bull para fazer parte do cobiçado programa de desenvolvimento de jovens pilotos. E já teve suas oportunidades até na F1. Primeiro, guiando carros da própria Red Bull em eventos como exibição. E também teve a chance de pilotar o bólido da Toro Rosso durante os testes intertemporada em Silverstone..

Não à toa, o mineiro surge como um dos poucos futuros nomes do país com chances de ir para a F1. Já Lukas Moraes, que foi um dos poucos pilotos a vencer na F3 Brasil dominada por Pedro Piquet, preferiu rumar para os carros fechados e hoje disputa o Brasileiro de Turismo, onde também já venceu corrida, no Velopark, neste ano.

 

Em 2014 e 2015, correndo pela tradicional equipe de Augusto Cesário, Pedro Piquet nadou de braçada e ganhou fácil o título. No ano seguinte, o caçula do tricampeão mundial de F1 cruzou o Atlântico para encarar a difícil F3 Europeia — e, ao menos até agora, vem enfrentando muitas dificuldades. Por aqui, a F3 Brasil seguiu rumo à terceira temporada nesta nova geração, com a perspectiva de maior equilíbrio sem a presença de Piquet. Mas ninguém poderia imaginar que 2016 seria um ano difícil para a categoria.

Um fato que chamou a atenção na primeira prova da temporada, no Velopark, foi a quantidade de carros da categoria A: chassi Dallara F309 equipado com o motor argentino Berta. Foram 13, ao todo. Renan Pietrowski e Pedro Caland alinharam com os antigos Dallara F301 da categoria Light. Era um grid bem razoável, com 15 carros.

Só que aí, a crise mostrou seus desdobramentos: foram 14 os carros inscritos para a etapa de Santa Cruz do Sul — a densa neblina não permitiu a realização da rodada dupla, sendo que uma prova foi marcada para a etapa posterior, em Cascavel, que teve apenas 12 pilotos. E, então, veio São Paulo, no fim de semana de maior visibilidade no ano por estar no mesmo cronograma da Corrida do Milhão. Mas, para a F3, foi a corrida do centavo: apenas dez carros estiveram no grid de largada.

Interlagos já marcou uma notória redução do grid da F3 Brasil em 2016
Fábio Davini/Vicar

A rodada dupla de Interlagos foi marcada por mais um domínio da Cesário, equipe que venceu todas as corridas da temporada na classe principal. A primeira prova do fim de semana, ocorrida na manhã de domingo, foi vencida por Guilherme Samaia. No fim da tarde, o triunfo ficou com o líder do campeonato, Matheus Iorio. Apesar da comemoração por mais uma jornada coroada de êxito, o experiente preparador e chefe de equipe, Augusto Cesário, demonstrou preocupação pela atual situação da F3 Brasil.

“A única categoria que pode revelar pilotos é a nossa, a F3 Brasil. Vejo que a gente pode desenvolver os garotos, dar chance para eles andarem, pegarem experiência. Acho que a gente tem tudo para poder revelar novos talentos, como a F3 já revelou tantos. Veja o nosso caso: Cristiano da Matta, Ricardo Zonta, mesmo quem não conseguiu chegar lá na F1, os irmãos (Dennis e Danilo) Dirani, Clemente Faria, enfim... agora tem o Piquetzinho, que ganhou dois títulos com a gente há pouco tempo, o próprio Leist”, comentou o ‘Formigão’, citando também o mais novo campeão da F3 Inglesa.

Cesário cobrou um esforço conjunto para que a F3 Brasil possa voltar a ser forte como no passado e ter a capacidade cada vez maior de revelar bons nomes capazes de representar bem o país lá fora.

“Acredito que é uma força muito grande para o automobilismo e não podemos deixar de desenvolver, porque é a única fonte de fomento para as categorias superiores, tendo a F3 como categoria de base para os meninos pegarem experiência”, salientou.

“Acho que os patrocinadores, os grandes veículos, os organizadores, a própria CBA, têm de olhar para a F3 com um carinho especial e fazer a F3 acontecer em termos de grid, de visibilidade, de forma a gente poder ter uma categoria mais forte e estruturada, porque é daqui que saem os meninos. Acho que é a única forma de revelarmos pilotos em condições de chegar à F1 e, se Deus ajudar, ganhar títulos. É a chance de a gente ganhar aquela representatividade que tínhamos em outros tempos”, complementa.

Iorio, apesar de desfrutar da condição de líder da temporada, também deixou claro que não está contente com a atual situação da F3 Brasil. “Estamos atravessando uma fase difícil, que tem afetado o Brasil inteiro. Parece mais um campeonato regional, né? No Sul, por exemplo, a gente teve mais carros, 13, 14... e aqui em São Paulo parece que o pessoal não pode gastar. Dinheiro, transporte, então tudo começa a ficar complicado. Acho que só desvaloriza a gente”, lamenta o paulista de 19 anos.

Em Interlagos, Iorio demonstrou fé sobre os rumos da categoria, mas ao mesmo tempo demonstrou preocupação. “Espero que melhore. Dez carros é um número muito pequeno. Falta categoria de base aqui para gente, mais patrocinadores olharem os meninos bons e levarem para fora. Se não tiver isso, não vamos ter mais gente lá fora”, observa, citando a cada vez mais densa escassez de bons nomes brasileiros em categorias de ponta nos monopostos.

Falta categoria de base aqui para nós. Se não tiver isso, não vamos ter mais gente lá fora
Matheus Iorio

 

Quem também fala ao GRANDE PREMIUM sobre a crise na F3 Brasil foi Darcio dos Santos. Preparador de larga experiência nos monopostos, ele também é dono da equipe Prop Car Racing. Tio de Rubens Barrichello, Darcio chefia o time que neste ano conta com os jovens Matheus Muniz e Igor Fraga, na categoria principal, e Renan Pietrowski, na Light. Porém de dez corridas já disputadas no ano, o paranaense só participou de quatro, o que acabou gerando uma situação bizarra e triste: há atualmente apenas um piloto na classe Light, o brasiliense Pedro Caland, que corre sozinho com um Dallara F301 da equipe Hitech Racing.

Darcio não tem dúvidas em apontar a crise econômica no país como o principal fator para afastar pilotos e equipes do grid da F3 Brasil e lembra com saudade dos tempos em que a categoria contava com o apoio ostensivo de grandes empresas. “Na verdade, a crise financeira no Brasil está afetando muito as equipes quanto aos patrocínios, como nós tínhamos no passado. Por exemplo: minha equipe teve apoio da Petrobras por cinco temporadas. Naquela época, nós podíamos escolher os melhores pilotos. Então, em todos aqueles anos, tivemos granes nomes: Ricardo Zonta, Bruno Junqueira, Duda Pamplona, Leonardo Nienkotter, Max Wilson, entre vários outros com o apoio da Petrobras. Obviamente que a crise pegou. Estamos tentando levar a F3 adiante. Espero que ela venha a ter um grid maior a partir de Londrina, Curitiba, Goiânia e depois São Paulo, para que a gente possa chegar forte em 2017”, acrescenta dos Santos, sem imaginar que seria mais uma vítima da crise duas semanas depois.

Cesário concorda com Darcio quanto à crise que atingiu em cheio a F3 Brasil. “Eu vejo que a situação econômica interfere muito no desenvolvimento da nossa categoria. E, acredito que, com isso, muitos times não têm como vir e participar. Por isso tivemos essa diminuição importante, e eu acredito que, com a melhora da situação e da volta ao normal da equipe, os patrocínios possam voltar e a gente possa ter um grid melhor, mais aceitável”, diz.

Ao comentar sobre alternativas para tornar a F3 Brasil mais atraente, Darcio revelou uma possibilidade que pode envolver a própria F1, para tentar garantir uma visibilidade melhor à categoria. “Vou tentar falar com o Bernie Ecclestone aqui no Brasil. Tenho uma grande ideia para apresentar a ele e espero que dê tudo certo para anunciar em breve: estamos pretendendo fazer uma etapa preliminar à F1, não sei se uma etapa extra ou que faça de fato parte do campeonato. Vamos discutir com os pilotos e donos de equipe”, revela o preparador.

 

A F3 Brasil deixou Interlagos no fim da tarde daquele domingo, 11 de setembro, em meio às incertezas sobre como seria o futuro dentro de duas semanas, em Londrina. Afinal, um grid de dez carros era algo de fato desanimador para a categoria. Mas, quando começou o fim de semana na ‘Capital do Café’, a surpresa foi ainda maior. Isso porque apenas sete carros (seis da classe principal e Pedro Caland, na Light) estavam nos boxes do Autódromo Internacional Ayrton Senna.

A equipe Prop Car, de Darcio, nem viajou para Londrina. Outro piloto que ficou de fora foi o americanense Artur Fortunato, que corre por equipe própria. Assim, apenas três equipes se fizeram presentes em Londrina: a Cesário, com os habituais quatro carros (Iorio, Samaia, Carlos Cunha e Christian Hahn); a RR Racing, com o jovem Luiz Branquinho; e a Hitech, que tinha além do carro de Caland, na Light, o F309 de Thiago Vivacqua.

Thiago, aliás, é um exemplo incomum na categoria. Seu carro tem o patrocínio da Shell, que o apoia por meio da Academia de Pilotos, um projeto que abrange não só a F3, mas vai do kart, passa pelo Brasileiro de Turismo e marca também presença na Stock Car. Quanto aos outros pilotos, a maioria esmagadora dos patrocinadores é oriundo das famílias dos respectivos pilotos.

O cenário, de fato, era bem triste. “É um fim de semana bem chato”, afirma o vice-líder do campeonato, Guilherme Samaia. “Perdemos três carros em relação a Interlagos. A gente começou o ano com 16 e estamos com sete... É uma pena, realmente. Começamos com um grid grande, competitivo”, destaca o paulista, ressaltando a capacidade da categoria em lapidar talentos para o exterior.

“A F3 Brasil é excepcional. O carro é muito veloz, a mais rápida do mundo. Tem motor e pneus muito bons, e os treinos aqui são livres. Dá para a gente pegar quilometragem e depois ir para a Europa, onde os treinos são limitados, e fazer um bom papel por lá”, comenta.

Samaia voltou a vencer em Londrina, enquanto Matheus Iorio triunfou na primeira corrida e disparou na liderança do campeonato. O fato é que, desde 2014, a Cesário domina a categoria, de modo que as equipes rivais, até por sobrevivência, deixam claro que é preciso equilibrar o grid, oferecendo maiores chances de vitória para quem também busca seu lugar ao sol.

A Cesário F3 vem dominando a categoria desde seu ressurgimento, em 2014
Fernanda Freixosa/Vicar

Rodrigo Contin é chefe da equipe Hitech Racing. Foi pela equipe, que nasceu como braço da escuderia britânica, que hoje faz parte da F3 Europeia, que Felipe Guimarães conquistou o último título da F3 Sul-Americana. Mas desde 2014, o time sediado em Curitiba tem dificuldades para se colocar em pé de igualdade com a Cesário, ainda que em Londrina Vivacqua tenha conquistado dois segundos lugares, um resultado bastante animador.

Ao GRANDE PREMIUM, Contin fala sobre o atual momento da F3 Brasil e também salientou a questão da crise financeira. “A categoria começou muito bem, apesar de ser um ano economicamente muito difícil para o país. A crise política também atrapalha, já que muita gente tem projetos de incentivo e não conseguem captação de recursos, as empresas estão segurando um pouco, então só quem tem patrocínio direto consegue estar patrocinando. Então tudo isso acabou contribuindo para formar esse cenário.”

O chefe da Hitech, porém, acredita em novos e bons ventos para a F3 Brasil já a partir da etapa de Curitiba, entre 15 e 16 de outubro.

“Estamos buscando algumas novidades para a categoria, algumas ainda para esse ano e outras para o ano que vem, no sentido de manter os pilotos e incentivar os novos, então vejo que vamos ter bons momentos para a categoria. São mudanças na execução da categoria. Mas temos a expectativa de que em Curitiba o grid já melhore. Vamos tentar terminar em uma condição um pouco melhor e, com as propostas que temos para o ano que vem, vamos conseguir dar um rumo legal para a categoria”, acrescenta.

A F3 Brasil, sob o comando da Vicar, chegou a ter um grid de quase 19 carros. Hoje, luta para sobreviver
Bruno Terena/Vicar

Contin entende que a presença da F3 Brasil no rol de eventos esportivos da Vicar é fundamental para a sobrevivência da categoria e disse que críticas sobre os horários das corridas não fazem sentido.

“Estar com a Vicar é muito, muito bom para nós. Vejo que muitos criticam os horários, mas não vivenciam o dia-a-dia da categoria. Alguns até encaram como um desprestígio, mas vejo pelo contrário. Mesmo na Europa, por exemplo, a F3 não corre nos horários principais, no mundo inteiro é assim. Acho que só o fato de estar com a Vicar é um baita prestígio para a categoria.”

“Quando não estávamos com eles, aí sim a categoria não teve a imagem e o prestígio que merece ter. Então, independentemente da situação, fazer parte de um evento grande como o da Stock Car é muito bom para nós, para os pilotos, para os patrocinadores também”, avalia.

Por fim, o GP* fala com Maurício Slaviero. Homem-forte da Vicar, o paranaense também tem sua história como piloto e sabe bem o que vive a categoria nascida e recriada para formar novos talentos. Slaviero correu na antiga F3 Sul-Americana e disputou até a Indy Lights na década de 90, antes de se tornar um empresário bem-sucedido no ramo de eventos.

“A F3 já está com a Vicar há alguns anos. Quando a gente pegou a F3, ela estava praticamente acabando, então nosso objetivo era resgatá-la. E a gente conseguiu isso, na verdade. Chegamos a ter grids de 18, 19, quase 20 carros. Neste ano, mesmo, começamos bem, com um grid de 15, 16... mas infelizmente a situação econômica no Brasil atrapalha um pouco. Vemos tendo uma redução no grid. Aqui mesmo, em Londrina, tivemos um grid pequeno, a gente não esperava”, comenta o dirigente.

Slaviero revelou que trabalha junto à categoria para conseguir entregar, já na próxima etapa, um grid mais robusto, mas também visa um trabalho para atrair maior interesse à F3 Brasil em 2017, sobretudo para tornar o certame mais igual. “Estamos fazendo um trabalho forte junto às equipes para que a gente volte a ter um grid maior já para Curitiba, esse é o nosso objetivo. Estamos pensando em algumas coisas para o ano que vem: uma das coisas que já fizemos foi mudar o pneu da Light, que vai ser importado, igual ao da A, a partir de Curitiba.”

“Para o ano que vem, vamos manter esse pneu da Light, importado como o da A, e também trabalhar com as equipes em algumas ideias, como trabalhar melhor nos motores, procurando equalizar... hoje há equipes com condição técnica um pouco melhor e acabam tendo motores melhores trabalhados que outras, então isso acaba dando diferença e acaba desanimando um pouco, também. Então a ideia é fornecer motores equalizados, como já é na Stock Car e em outras categorias, para que a diferença seja resultado da mão do piloto e no acerto, obviamente, do carro da equipe”, explicou.

“Vamos continuar trabalhando para voltarmos a ter um grid de 15, 16 carros, que é o que a gente quer, e vamos ver se conseguimos isso ainda neste ano. É a única categoria de formação em monopostos no Brasil, não podemos deixá-la morrer de jeito nenhum. Formou muitos pilotos no passado e tenho certeza que vai continuar formando. É uma situação, da crise momentânea, e vamos voltar a ter um grid alto. É o que a gente espera que vai acontecer e vamos trabalhar para que isso aconteça”, finalizou.