Um caminhão de problemas

De rica, F-Truck acumula dívidas milionárias com uma série de credores, vê caminhões penhorados, entra em rota de colisão com a CBA e se coloca futuro em risco

Evelyn Guimarães, de Curitiba,
André Avelar, de São Paulo &
Victor Martins, de São Paulo

 

Poucas modalidades no Brasil conseguiram a popularidade que a F-Truck atraiu em seus recém-completados 20 anos de existência. A categoria dos caminhões foi responsável por lotar autódromos em meio à crescente perda de interesse do público tupiniquim pelo automobilismo no fim da década de 1990 e por toda a primeira parte dos anos 2000. Também é dela o crédito de reinventar os eventos do esporte a motor e usar como ninguém o marketing para seduzir grandes patrocinadores. A Truck desbancou campeonatos tradicionais, como a Stock Car, e se colocou como um modelo de gestão, promoção e saúde financeira em um país que apoia pouco o esporte. 

Os hospitality-centers — os populares camarotes das empresas apoiadoras — se enchiam com facilidade e movimentavam milhões de reais em negócios por onde quer que a categoria passasse. Em etapas importantes, como em São Paulo, até 10 mil pessoas chegavam a frequentar as áreas VIPs. As montadoras de caminhões enxergavam ali um produto precioso no relacionamento com seus clientes e uma ferramenta poderosa para ampliar as vendas e parcerias. 

Quer dizer, como evento dirigido e bem trabalhado, a Truck cresceu vertiginosamente, assim como o envolvimento técnico das fabricantes no campeonato, o que garantia a competitividade entre as marcas. Tanto é assim que a categoria se profissionalizou rapidamente e conseguiu colocar em seu grid pilotos de renome internacional, como Felipe Giaffone, Bruno Junqueira e Cristiano da Matta. Trouxe gente de outras séries, inclusive estrangeiros. E tudo isso com o apoio das mais fortes empresas do país. Nos caminhões, nos circuitos e nos camarotes, havia espaço para as marcas mais óbvias, do setor automotivo e de peças, mas também para companhias de consumo geral, como as cervejarias. Até clubes de futebol tomaram parte no evento, tamanha capacidade de novos negócios que a categoria gerava.

 

Agora, no entanto, o ronco alto dos motores dos caminhões e sua competência de fazer negócios falha – e cada vez mais. O campeonato criado por Aurélio Batista Félix caminha por um traçado sinuoso nesta metade de década — e até perigoso. O empreendedorismo, o espírito ‘marqueteiro’ e o olhar à frente de seu tempo, as grandes marcas do idealizador da categoria, parecem agora ter desaparecido. 

Aurélio morreu em 2008, e a direção da Truck, então, passou para as mãos de sua esposa, Neusa Navarro Félix, desde então a comandante. 

Por algum tempo, todo o show se manteve vivo e cresceu, é bem verdade, exatamente como Aurélio previa. O modelo de gestão criado por ele sobreviveu por alguns anos após sua morte, mesmo a categoria tendo uma direção diferente. Só que o campeonato estagnou.

Ao longo dos últimos meses, o GRANDE PREMIUM fez uma série de entrevistas, levantou dados com órgãos oficiais e apurou informações que culminam em uma delicada situação: a Truck corre sérios riscos por ter acumulado dezenas de débitos e perdido patrocinadores ano a ano. A ponto de quase provocar uma ruptura para a criação de um novo campeonato.

A F-Truck inovou o automobilismo no Brasil e cresceu rapidamente no fim da década de 1990
Rodrigo Ruiz

 

Nomes sujos


Dentre as empresas do grupo familiar que comanda o campeonato estão a King Truck Show e a Racing Truck. Ambas aparecem em uma longa lista de dívidas e protestos por falta de pagamentos. Por meio dos números de CNPJ, o GRANDE PREMIUM confirmou os problemas financeiros enfrentados pelas duas companhias. Os números surpreendem.  

As duas empresas citadas devem para prestadoras de serviços, que vão desde hotéis, empresas de confecção, vestuário e acessórios, passando por postos de combustível, materiais de construção, concessionárias, revendedoras e autopeças. Há dívidas até com meios de comunicação, rádios e TV, e instituições financeiras. 

Empresa fundada por Aurélio Batista Félix para a criação da F-Truck em 1993, a Racing Truck Empreendimentos e Participações tem uma série de dívidas registradas em cartório. Em uma consulta oficial em Santos, no litoral paulista, a empresa aparece em 25 casos de protestos. Os valores chegam a quase R$ 140 mil – dívidas que foram cobradas só no primeiro semestre deste ano; algumas são resultado de queixas que datam de 2014 e 2015.

A King Truck Show Eventos e Empreendimentos, criada em 2001 para atender também a categoria e que tem Neusa Navarro como sócia, junto com seus três filhos Gabrielle, Danielle e Aurélio Jr., possuía 29 protestos em um cartório da cidade de São Vicente, em São Paulo, onde se localiza a empresa. As dívidas alcançavam valores de cerca de R$ 130 mil — este é o número que aparece referente à consulta feita no cartório dos últimos cinco anos e até o mês de junho último. 
 
Inclusive, há duas queixas registradas pela Federação Gaúcha de Automobilismo (FGA), em valores que chegam a quase R$ 40 mil. Esses protestos da entidade do Rio Grande do Sul se juntam a outros 24 em um cartório de Santos, também contra a King Truck. O montante da dívida ultrapassa os R$ 600 mil.

A mesma empresa apareceu ainda em queixas em um terceiro tabelionato, agora no município de Cubatão, com uma dívida de R$ 710. Em um quarto, de novo em São Vicente, a instituição surge com 14 protestos, que somam mais R$ 30 mil. E as diversas prestadoras de serviço aparecem com mais de uma queixa por falta de pagamentos das duas empresas nas consultas oficiais realizadas pelo GRANDE PREMIUM

A Racing Truck também ficou devendo a prestadores de serviço, como empresas de eventos e confecções. Além das duas empresas, há ainda uma terceira, a Fashion Truck Modas e Acessórios, que também tem a participação de Neusa Navarro e de seus filhos. O CNPJ revela com dívidas no Serasa (Centralização de Serviços dos Bancos), assim como a King Truck e a Racing Truck.

Mas essa conta é ainda maior. Somadas, as dívidas ultrapassam R$ 1 milhão em dados obtidos até a última consulta, em meados de setembro. 

Ainda, há uma cobrança de imposto de contribuição social, que agora já se encontra na Procuradoria Geral da Fazenda Nacional contra a Racing Truck.

 

 

As dívidas da Racing Truck no Serasa
Reprodução

Devem, mas até negam


O GRANDE PREMIUM ouviu alguns dos credores da Truck. Parte deles preferiu sair pela tangente, até negando as dívidas, ou simplesmente se esquivando; outros foram francos e falaram abertamente. Nos vários cenários, sob o anonimato, culparam a má gestão de Neusa Navarro Félix pela atual situação. 

“Na verdade, tem uma dívida. Eu só não sei qual é o valor. Tem uma dívida da F-Truck para conosco. Só não sei qual é o valor e nem posso te dar esse valor”, diz um fornecedor, em condição de anonimato, que trabalha com a família Navarro Félix desde os tempos da transportadora.

“Teve uma negociação por nossa parte. Já várias vezes entramos em contato com a Dona Neusa, mas ela não conseguiu fazer o pagamento. Ela fala que vai pagar, mas não paga”, revela outro fornecedor, que também não quer se identificar, mas conta que precisa justificar o prejuízo no Imposto de Renda.

“Você tem que conversar com ela sobre isso [dívidas]. Eu não posso te dizer nada. Você tem que conversar com o pessoal da F-Truck. Me desculpe, mas é um caso que não tenho nada a ver com isso. Decidi não trabalhar este ano para eles, mas isso não vem ao caso”, fala uma terceira fornecedora.

 

Cortando o microfone
 

A direção da F-Truck também está em débito com os jornalistas contratados pela categoria para fazer a narração, comentários e reportagens do campeonato por meio do acordo com a TV Bandeirantes, que transmite as etapas ao vivo. 

Ao GRANDE PREMIUM, o jornalista Celso Miranda e o comentarista Eduardo Homem de Melo confirmaram a falta de pagamento pelos serviços prestados e lamentaram a situação, acrescentando que Neusa Navarro nunca os procurou para conversar e que a gestão se acomodou demais com o sucesso quando tinha patrocinadores. 

"Dei a minha contribuição para a F-Truck e, de coração, desejo muito boa sorte para a categoria. Foi um ótimo tempo em que trabalhei lá", relembra Miranda. Já Homem de Melo, inclusive, afirma também que prefere que ela “pague os fornecedores que mais precisam” e se comprometeu a doar integralmente o valor que tem para receber.

Nos últimos meses, Homem de Mello tem utilizado as redes sociais para ser  severamente crítico, por vezes, cobrando o que a categoria lhe deve e falando em “derrocada”.

Homem de Mello é mais um que está entrando na justiça para 'ganhar seus 1.157 ingressos' contra a categoria.

 

As dívidas da F-Truck já ultrapassam R$ 1 milhão
Luciana Flores

 

Máster problema
 

Foi em junho que aconteceu um problema de última hora para a Truck. A MasterTv, empresa paranaense que pertence a Jorge Guirado, não mandou para Goiânia seu caminhão com equipamentos para a transmissão da etapa. 

A prova acabou sendo exibida não ao vivo, mas passou na semana seguinte, porque a data coincidiu com a final do Grand Slam de tênis de Roland Garros. O público se espantou com a imagem vinda de drones e de baixa qualidade até mesmo de celular.

Fontes indicaram ao GRANDE PREMIUM que a dívida com a Master chegou a beirar R$ 1,5 milhão e, para saldá-la, um apartamento em Balneário Camboriú de posse da direção da categoria entrou no negócio. Procurado, Guirado desconversou e disse que não há dívidas.

“Nós tivemos problemas, sim, mas o que houve foi uma desinformação”, explica o executivo. “Houve uma falta de comunicação entre mim, diretamente, e a dona Neusa. Nós vínhamos fazendo tudo conversando, negociando, sem grandes problemas." 

Guirado alegou, ainda, que não enviou seus equipamentos de Cascavel para a etapa na capital de Goiás por ter havido uma mudança em uma data no contrato entre as duas empresas. “Eu acabei viajando e nós não conversamos direito, e isso resultou que a unidade não foi para lá fazer a corrida, foi fazer outro evento. No contrato, a gente tinha uma data e ela alterou essa data”, alega. “Mas agora está tudo superado. Depois disso, nós já fizemos Londrina e São Paulo. E vamos seguir até o resto da temporada. Em resumo, foi uma falta de comunicação”, garante.

O GP* averiguou que, de fato, houve uma alteração no calendário da Truck com relação à prova de Goiânia. Inicialmente, estava marcada para a data de 12 de junho, mas foi antecipada para 5 do mesmo mês.

Também questionado sobre o momento pelo qual atravessa a categoria, Guirado entende que, assim como outras modalidades do esporte a motor, a série dos caminhões também precisa mudar. E deixa a dica. “Acho que o automobilismo precisa se reinventar de modo geral. A Stock Car, por exemplo, tem categorias fortes junto, tem a F3, o Marcas, a Mercedes, o Brasileiro de Turismo. E a Truck vai sozinha. Fica muito tempo sem nada. Tem os shows e tal, mas precisa de uma categoria suporte. Precisa criar algo que seja atrativo para o público”, diz.

“Hoje em dia, para a pessoa sair de casa, com tantas opções que existem, precisa ter alguma coisa, porque é tudo uma dificuldade. É difícil chegar nos autódromos, as estruturas não são as melhores em termos de lanchonetes, de banheiros. Eu lembro na época do Aurélio havia sempre uma categoria junto, havia shows. A gente ficava até de madrugada nos autódromos. Hoje está meio sozinha. Então, precisa ter algum atrativo”, afirma Guirado, que ainda faz uma comparação da forma como a categoria é gerida agora.

“O Aurélio era uma pessoa carismática, que agregava. Ele chegava nos lugares e ia aos jornais, nas rádios. Fazia um trabalho de RP mesmo. São pessoas diferentes. Ele era mais aberto. ”

Consultas nos órgãos oficiais apontam que há três protestos da MasterTv contra a F-Truck, cada um no valor de pouco mais de R$ 176 mil cada.

Via assessoria, o GRANDE PREMIUM encaminhou um questionamento há duas semanas à direção da F-Truck, reforçando posteriormente o pedido para as respostas dias atrás. Não houve retorno em nenhuma das situações.

 

De quem é a culpa? O alvo dos pilotos da F-Truck é a gestão de Neusa Navarro Félix
Rodrigo Berton


Diferentes acertos


Diante deste cenário, o GRANDE PREMIUM também conversou com alguns dos pilotos protagonistas da F-Truck. Que seguiram a base vista na consulta aos fornecedores: uns falam abertamente do cenário, outros mesclam com a crise econômica e até quem diga que tudo vai bem, obrigado. 

Atual líder do campeonato, tricampeão e correndo na categoria regularmente desde 2007, Felipe Giaffone confirma que, de fato, tem visto a saída de apoiadores e que 2016 tem sido "disparado" o ano mais difícil para a série dos caminhões. "Realmente, nós perdemos muitos patrocinadores. Em parte, a própria equipe se acomodou no passar dos anos. Eu considero a minha equipe a melhor tecnicamente da F-Truck – ou uma das melhores –, então, normalmente, os patrocínios apareciam. No final das contas, neste ano, não apareceram. A gente perdeu a Crystal, Banco Volkswagen. Então, para a equipe, é disparado o pior ano que a categoria está passando", diz o piloto da RM, que corre com os caminhões Volkswagen. 

Giaffone entende que a perda de apoiadores financeiros também é um reflexo da administração que se faz da categoria nas últimas temporadas. "A partir da hora em que a melhor equipe da categoria, ou uma das melhores, não tem patrocínio para pagar piloto nem para se manter de uma forma saudável, realmente as coisas estão em apuros”, analisa. “Eu sempre vi a F-Truck como uma categoria top, com pilotos de mais nome e que ganham mais, em que os pilotos são pagos para correr, assim como acontece na Stock Car e nas grandes categorias. Mas a F-Truck neste ano, infelizmente, não está mais dentro desta situação. É uma pena, porque é um produto muito melhor do que muitas categorias top em que já passei."

 


O grave momento econômico pela qual o Brasil atravessa também tem um papel de peso na situação vivida pela categoria. Mas não é só isso, de acordo com Felipe. "Tem um pouco da crise. Mas, particularmente, acho que a F-Truck não foi bem trabalhada ali depois de 2011. O Aurélio era realmente um gênio do negócio e tinha um grande relacionamento com os patrocinadores", lembra. "Só que o cara do marketing, o cara que vendia, o cara que tocava a F-Truck morreu, infelizmente. Por alguns anos, os patrocinadores continuaram apoiando, acreditando, dando uma força por tudo aquilo que aconteceu. Mas, depois disso, a categoria também precisa continuar a mostrar... A Truck não tem mais esse cara do marketing. Antes tinha um gênio – ele não era formado na área, mas era um gênio nato. A F-Truck perdeu isso aí e não teve ninguém para substituí-lo", diz.

Giaffone crê que o que levou à queda de patrocinadores e a consequente crise é a falta de uma visão mais inovadora em termos de marketing por parte de quem comanda o show. "Acho que o grande problema está aí. Eles tinham um gênio, que negociava e fazia tudo, ele mesmo falava com tinha orgulho de nunca ter perdido um patrocinador. Mas depois isso mudou. Dois anos depois que ele se foi, os patrocinadores começaram a sair, saiu a Vipal, a Crystal no ano passado, entre outros. E acho que isso aconteceu muito em função dessa falta da parte comercial da categoria", explica.

E a redução da exposição das marcas também afeta as fabricantes. "Acho que, com relação às montadoras, o ano também tem sido atípico. No caso da Volkswagen, a engenharia ainda está dentro, assim como a Mercedes, que também apoia. Mas não apoia como era no passado. Mas ela ainda está junto nesta parte. De qualquer forma, o evento murchou muito. O evento precisava realmente dar uma renovada. Uma guinada, na verdade", completa.

 

 

Piloto da Iveco e campeão da Truck em 2013, Beto Monteiro não escondeu os problemas pelos quais a F-Truck atravessa e também demonstrou enorme preocupação com o futuro da categoria. O pernambucano afirmou que a Truck continua sendo um produto muito bom, mas que, neste momento, não está conseguindo lidar com os déficits financeiros. Monteiro vê, sim, o peso da crise econômica na atual situação, mas não crê que tenha sido decisivo para o cenário de temor.

"O transporte foi um dos setores mais afetados, as montadoras pararam de produzir, e aí vem todo aquele efeito dominó”, afirma Monteiro. “A Truck é uma categoria que me adotou e me abraçou muito bem. Eu sempre tive uma carreira bacana na categoria. Só que hoje eu não consigo mais correr apenas na Truck. Eu estou fazendo corridas fora do Brasil e outras aqui também – tudo para completar, já que sou um profissional do esporte. Fico realmente sentido com a crise e com a situação que a Truck vem passando.”

Apesar do bom relacionamento, Monteiro entende que o grande problema está na gestão de Neusa Navarro e em sua pouca inclinação para ouvir e receber ajuda. Na opinião do piloto, não há flexibilidade por parte da administração, algo que tem gerado até desconfiança. “Acho que a Truck sempre foi muito bem gerida. Quando você administra uma empresa com uma receita muito boa, é, de certa forma, fácil de gerir. Mas quando a coisa aperta... E é difícil dizer também se é sem querer ou por querer, se falta capacidade ou não, porque é difícil dizer algo se você não está dentro do negócio”, diz. “Mas existe um fato que agravou um pouco a situação, que é a falta de flexibilidade da direção. Isso acabou ajudando a causar essa queda. ”

Monteiro ressalta que “a situação é muito séria”. “É preciso dar fôlego e vida à categoria, porque quando o campeonato está bem, as equipes e os pilotos, tudo fica bem. Mas, antes de tudo, quem precisa estar bem é a categoria. É aí onde falo que faltou flexibilidade da direção em se abraçar com todo mundo e dizer assim: ‘Olha, eu tenho um problema e vocês querem ajudar, então cada um vai fazer a sua parte’. Mas ela não dá essa abertura. Então, para mim, esse é o grande pecado da administração”, explica. 

 

Outro veterano da categoria e que possui negócios na Truck, Djalma Fogaça também entende que o campeonato necessita de uma virada. Porém, o dono da DF Motorsport acredita que a atual situação se deve mais à crise financeira do que eventualmente a uma má gestão. "O evento precisa se modernizar. Se você for ver é o mesmo evento desde da época do Aurélio. Não tem uma coisa nova. E tudo isso veio de encontro – quer dizer, esse formato novo, que foi uma coisa inovadora dentro da competição – à crise. Porque para você inovar, precisa de dinheiro. E isso veio de encontro à crise", diz.

Fogaça fala que a Truck tem um público diferente. “É o caminhoneiro, é a família. E na condição que estamos hoje, esse caminheiro é o primeiro a sentir. Quer dizer, o que não vende, não transporta. Não transporta, não ganha. E isso é um efeito dominó. Aí se reflete no entretenimento, porque as corridas, seja de F1, de Truck, de Stock, não passam de entretenimento. É a primeira coisa que se corta na casa.”

Piloto e também proprietário de equipe no campeonato, Roberval Andrade vai pelo mesmo caminho do colega e chega a dizer que não vê “nenhuma dificuldade no campeonato, não”. “A dificuldade que a Truck está encontrando é uma dificuldade de todos os setores do Brasil. A gente tem uma preocupação para o ano que vem, que é a renovação. Quando você vem muito com dificuldade de patrocínio, é difícil alimentar novos projetos para seguir em frente. E um evento como a F-Truck, e eu acho que a Neusa está desbravando essa dificuldade em termos de se reinventar, se reorganizar para poder tocar esse evento da maneira que ela está tocando e que está indo muito em cima da própria estrutura da Truck", diz o campeão de 2010. 


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O caminhão de Roberval Andrade: vai estar lá em 2017?
Rodrigo Ruiz

O menor apoio das montadoras


As fabricantes de caminhões sempre foram o grande carro-chefe da Truck, o motivo pela qual a categoria ganhou enorme notoriedade. As montadoras viram no produto um espaço ideal um relacionamento dirigido com seus clientes. E toda a estrutura montada pela organização do campeonato viabiliza os negócios. Tanto é assim que a maioria das fábricas ainda segue envolvida com a categoria de alguma forma, mas sem a mesma solidez de outrora. E esse é o caso de marcas de peso no mercado automotivo como Volkswagen, Mercedes e Iveco. 

"Eu acho que as montadoras estão sofrendo nesse mercado", diz Roberval. "Só para se ter uma ideia, a Mercedes fechou a fábrica aqui e todas as outras fabricantes de caminhão estão vendendo 55, quase 60% a menos do que o volume desejado, alcançado, então quer dizer que todas as empresas dentro do segmento transportes estão passando por extrema dificuldade. E isso está trazendo essa crise para dentro de todo o setor. E a Truck não se exime disso, porque vive dentro desse setor de transporte. Fazendo automobilismo, mas dentro de um mercado muito grandioso, que é o meio do transporte, os caminhoneiros, os frotistas, os autônomos, os motoristas, então a gente está vivendo isso", completa.

Tetracampeão da Truck, Wellington Cirino defende a marca da estrela de três pontas e também entende que as dificuldades enfrentadas pela indústria do transporte interferem diretamente no trabalho de marketing das fabricantes. "Não cheguei a perder patrocínios, mas o que vem acontecendo é uma redução na quantidade de investimentos. Por exemplo, isso inviabilizou muitos projetos nossos na parte de desenvolvimento técnico. Ainda assim, estamos conseguindo nos manter. A Mercedes vem apoiando com relação às peças do caminhão, como sempre fez. Mas, sem dúvida, falta mais investidores para melhorar o desenvolvimento", afirma ao GRANDE PREMIUM.

"O que posso é que, devido à crise do país, a Mercedes não tem mais como fazer um HC (hospitality-centers) para trazer 200, 300, 500 pessoas como era antigamente. Quer dizer, as empresas tiraram o pé. Como a Mercedes vai fazer isso se está deixando muitos trabalhadores em casa de descanso? Não há jeito", diz o paranaense. "Na verdade, está tudo mundo trabalhando muito no prejuízo. Está muito difícil, e isso também se reflete nos investidores. A Volkswagen, que tinha um investimento enorme no campeonato, tirou o pé. A própria Iveco, que foi campeã com o Beto Monteiro, também reduziu", acrescenta o piloto.

 

 

Um caminho sem grana


Principais envolvidos no campeonato também avaliam que a perda de apoios e parcerias comerciais geram esse déficit financeiro da gestão da F-Truck, daí as dificuldades atuais e a necessidade de mudar. "Você vai buscar patrocínio, mas como você vai buscar o patrocínio se o cara está mandando 200, 300 pessoas embora? ”, questiona Fogaça. “Uma boa gestão sem dinheiro é algo muito difícil."

E também é um caso “muito difícil de avaliar”, segundo o dirigente. “A pessoa vai tomando porrada por uma gestão ruim até a hora de enxergar que tem uma má gestão e que as coisas não estão indo de acordo com aquilo que a pessoa pensa. Aí ela vai lá e muda, só que dá de encontro com essa crise, com a falta de dinheiro”, completa.

Felipe Giaffone vai mais longe e pede uma mudança profunda no comando da Truck para voltar a ter uma saúde financeira adequada. "Nesta hora, você precisa realmente ter aquilo que o Aurélio tinha: um líder, ou seja, tomar uma decisão e seguir nesta direção, que é o que não está acontecendo”, aponta. “A atual direção não passa essa preocupação para a gente, pilotos e equipes. É sempre aquela coisa de que: 'Ah, é um ano difícil, mas está difícil para todo mundo’. Mas eu acho que, se ela não der uma guinada forte mesmo, uma mudança grande, vai virar uma categoria em que vão correr pilotos que pagam e que têm contatos, como em várias outras – não tem nada de errado com isso, porém ela muda o foco. Ela deixa de ser uma categoria de pilotos profissionais para ser uma categoria de amadores”, alerta.

Acima de tudo, a Truck precisa equilibrar as contas. E rápido. "Administrar tudo isso não é fácil. Agora, quem precisa estar financeiramente bem em uma categoria profissional é o promotor”, fala Giaffone. “Dificilmente, você vai ver um piloto quebrado com equipe e piloto ganhando dinheiro. E quando o promotor quebra, começa um efeito dominó. Então, um promotor saudável sempre vai criar espaço para a equipe e para o piloto.”

Quando deixou a Indy e voltou ao Brasil, Giaffone comparou as duas principais categorias e garante que “o evento da Truck era muito maior que o da Stock Car, como estrutura e como público”. “E isso foi até 2010, mas depois a coisa foi virando, virando ,até termos o que temos hoje. A coisa mudou completamente. Hoje, a Truck está em um nível abaixo da Stock Car", decreta.

 

Quem pouco ajuda...

 

Historinha de bastidor. O grupo Itaipava sempre esteve presente na Truck desde os tempos de Aurélio com suas várias marcas, seja com as cervejas ou com seu energético. Nos últimos anos, uma das patrocinadoras principais junto com a Petrobras era a Crystal. No começo do ano, a petrolífera reduziu seu aporte e a cervejeira retirou seu apoio, avaliado em R$ 5 milhões, da categoria. Crise econômica? Que nada. Uma das filhas de Neusa, Danielle, disse em uma reunião para o time de marketing da Crystal que a cerveja não era das melhores coisas para se beber – sem usar exatamente estas palavras...

Danielle tem um temperamento intempestivo. Em junho deste ano, o STJD da CBA suspendeu a filha de Neusa por 90 dias. O motivo: durante a classificação da terceira etapa da F-Truck, que ocorreu em 14 de maio em Campo Grande, Danielle entrou na sala dos comissários de forma exaltada, segundo relatos, pedindo que pilotos fossem desclassificados por seus caminhões apresentarem excesso de fumaça. Sem ser atendida, chamou o comissário Antonio Carlos Gomes de “safado” e o mandou “tomar no cu”, além de incitar um piloto a agredi-lo dizendo “bate nele que eu seguro”.  A história está devidamente relatada na seção de Processos do STJD da CBA e pode ser acessada na íntegra aqui.

Via assessoria, a Crystal foi questionada sobre a veracidade do relato acima. Preferiu dizer isto, sem negá-lo: "Por questões estratégicas, o Grupo Petrópolis, fabricante da Cerveja Crystal, não pode divulgar os valores de seus contratos e patrocínios. A empresa patrocinou a Fórmula Truck de 2010 a 2015 em uma relação produtiva e vencedora. A saída da categoria aconteceu devido às mudanças de posicionamento da marca, que incluem investimentos em divulgação."

A F-Truck foi procurada duas vezes para se manifestar. Não respondeu ao GRANDE PREMIUM. 


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Futuro incerto


Há uma enorme preocupação quanto à continuidade do campeonato da F-Truck dado o déficit financeiro da categoria, além das dificuldades econômicas do Brasil. 

Djalma Fogaça até mudou sua forma de gerenciar a equipe por conta do desequilíbrio nas contas no fim do mês. "Eu me preocupo muito com o futuro. Terminei o ano passado com uma equipe bem enxuta. E o meu orçamento agora também é a metade do que eu tinha no ano passado, que já não era bom. Mesmo assim, não mandei ninguém embora”, garante. “Então, neste momento, você também precisa inovar. Hoje eu não procuro patrocinador. Por exemplo, eu fechei uma parceria com uma empresa de brinquedos, então eu busco empresas que comprem o brinquedo e que façam ações de venda na empresa. Virou uma ferramenta, uma solução que a gente encontrou para este momento. A crise está fazendo que pilotos, equipes e gestão se reinventem. E eu estou tendo sucesso com isso", revela.

Fogaça fala em dar um crédito a Neusa “porque ela quer fazer”. “Agora, se ela vai conseguir fazer ou não, eu não sei dizer, mas espero que sim, porque a empresa dela é o reflexo da minha empresa. Tenho confiança no trabalho dela, porque vejo que ela quer fazer. Na crise, ela está querendo fazer algo de diferente, está fazendo coisas até que não fez lá trás."

 “Sentido pela situação toda”, Monteiro teme pelo futuro. “Tenho medo por seu problema. Todo mundo quer ajudar e outro não quer ser ajudado, quer fazer sozinho, mas não tem força para se levantar só. Não estou dizendo que a Truck não tem força para se erguer, mas e se não tiver? A minha preocupação hoje é essa: e se a F-Truck não tiver forças para se reerguer? Eu temo bastante, porque é uma categoria sensacional”, acrescenta. 

Ao fim e ao cabo, o campeonato segue sendo um bom produto comercial, mas talvez as mudanças necessárias para mantê-lo assim estão sendo tomadas de modo tardio, de acordo com Monteiro. “A F-Truck sempre foi um produto muito bom do ponto de vista comercial. Tanto que deu muito certo durante anos. E está de pé hoje porque realmente é um produto muito bom. E acho que já tenha acordado para algumas mudanças, mas talvez um pouco tarde.”

 

Giaffone não teme pelo fim, mas admite que seu futuro na categoria está bem longe de garantido – nem mesmo para 2016. E isso também depende da administração da Truck. "Neste ano, eu estou correndo pelo compromisso com a equipe. Eu corro com um cara que eu tenho muito respeito, que é o Renato (Martins). É um grande dono de equipe. É por isso. Porque na condição que está agora, e não precisa nem piorar, eu já não corro. Eu estou com a agenda bastante cheia. Eu vivo do automobilismo como piloto, mas claro que eu tenho outras atividades. Mas ano que vem, não sei se sigo com isso se tivermos essas mesmas dificuldades como neste ano", reconhece.

Felipe conta que sua equipe não está fechada para terminar o ano. “Eu estou liderando o campeonato e a gente não tem verba suficiente para acabar. Vou para o Rio Grande do Sul, mas a equipe ainda depende de alguns valores para que a gente consiga terminar o ano. Então, de novo, se uma equipe como a minha, profissional, está passando por isso, eu diria que tem muito mais coisa errada com a categoria do que com a equipe."

Então não foi a crise? “Não foi o fundamental. O problema não vem só de agora", conclui.

 

O carnê da boleia

 

O problema da F-Truck também bate à porta da CBA (Confederação Brasileiro de Automobilismo) há algum tempo. Até a entidade máxima do esporte a motor nacional entrou no rol das credoras da categoria, sem receber as taxas que são cobradas anualmente para realização dos campeonatos. O caso, segundo soube o GRANDE PREMIUM, levou o presidente Cleyton Pinteiro a dizer, em conversas particulares recentes, que não haverá F-Truck em 2017.  

Contatado pelo GP*, Pinteiro confirmou que não só a dívida, mas revelou a existência de um carnê que, segundo ele, a F-Truck tem quitado para zerá-la. Sem entrar em detalhes de valores e ser direto, o dirigente também ratificou a ameaça e que só vai permitir a realização do campeonato dos caminhões “se tiver garantias” porque a situação “administrativamente preocupa”. Abaixo, a entrevista com o presidente, dividida em tópicos. 

 

A situação da categoria

Vejo a situação da Truck com muita preocupação porque é uma categoria grande, que atrai um público maravilhoso e que está atravessando problemas que nos deixam muito preocupados sobre a continuidade dela. Espero que continue, até porque tem um público fiel. São caminhões que hoje estão em um nível superior até mesmo ao da Europa, mas administrativamente nos preocupa.


A dívida

Na parte da CBA, ela [Truck] vem cumprindo o contrato. Até porque, se não cumprir... Como qualquer quebra de contrato... Mas, as notícias que temos, pelo menos oficiosas, é que a categoria atravessa sérios problemas financeiros.

Com a CBA, ela [Truck] vem cumprindo [as dívidas]. Nós fizemos um acordo e ela vem cumprindo esse acordo. Ela vem pagando. Porém, quando eu administro o automobilismo, eu tenho que ver em um macro. Não é só o específico "pagando a conta da CBA", não. A categoria, para existir, tem de pagar todas as contas. Não basta só pagar a CBA, não.


O acordo

Essa categoria vem sofrendo isso [com dívidas] nos últimos dois anos. Obviamente, a situação financeira brasileira não está tão boa para ninguém. Lógico que existe toda essa coisa por trás. Porém, salta aos olhos o que a categoria vem sofrendo. É só ver a quantidade de carros, a quantidade de patrocínio, então, isso aí é preocupante.

Ela tem a dívida, mas ela vem honrando. Enquanto estiver honrando, não deixa de ter. É o mesmo quando você compra uma geladeira em 24 meses. Enquanto você estiver pagando as prestações, você está adimplente.

Vamos falar em uma linguagem comercial porque eu sou comerciante. Eu não poderia protestá-la porque ela vem pagando as letras.

Em relação à CBA, ela vem cumprindo. Agora, não é só cumprir com a CBA, não. Diria até que com a CBA é o mínimo. O principal é com os fornecedores, com as pessoas que trabalham, que são quem fazem efetivamente.

 

A chance de o campeonato não acontecer

Ela tem um contrato com a CBA até o final do ano. Esse contrato pode ser renovado ou não – ela como promotora porque, na verdade, o campeonato é da CBA. O promotor é que tem o contrato de promoção do evento. O dela termina no final do ano, e poderá ser renovado ou não. Para renovar, só o faço com garantias.

Estou terminando meu mandato, seria uma irresponsabilidade, até de minha parte, renovar o contrato sem garantias nenhuma para deixar isso para o meu sucessor. Isso não faz parte do meu perfil. Só renovo com garantias efetivas. Jamais faria um negócio desse. Vejo o automobilismo como um todo. Não sou irresponsável para deixar o cara em um mau lençol.


A renovação

Ela acontece em geral no final do ano. É um contrato público, posso não renovar cláusulas internas porque tem confidencialidade, mas vencimento, sem problema nenhum.


O ano que vem

Você não sabe como eu ficaria triste se uma categoria desse porte se acabar. Não, de jeito nenhum. A gente tem que unir forças, procurar outra pessoa ou até tentar ajudá-la, mas deixar morrer uma categoria dessa, não. Não seria só a categoria, mas o esporte em si que perde. Não vamos deixar morrer uma categoria dessa, não. 

Ela não tem porque morrer. A categoria é altamente viável mesmo com a situação econômica que o país atravessa, é uma categoria viável. Ela traz público e nos ensinou como fazer espetáculo de automobilismo. Não é só uma corrida de caminhão. É um espetáculo que muita gente vai ver e é algo que tem que ser preservado. A CBA vai fazer o possível para isso ser preservado. Com quem, eu não posso adiantar até porque não tem candidato ainda ou se ela própria vai continuar. Não sei.

 

Busca, muita apreensão, sem pão e circo


No fim da década de 1990, era difícil não ficar impressionado com a força e habilidade (dos caminhões e da própria categoria) em autódromos lotados pelo Brasil. Coube ao vanguardista Aurélio Batista Félix reinventar o já então carente esporte a motor nacional. As disputas emocionantes, aliadas ao marketing bem feito, foram as chaves para atrair fabricantes de peso, grandes patrocinadores em hospitality-centers abarrotados, pilotos reconhecidos internacionalmente e, claro, muita popularidade a ponto de desbancar Stock Car por exemplo. Mesmo depois da precoce morte de seu criador, o modelo de gestão imaginado prosperou nas mãos da sua mulher Neusa Navarro Félix. 

O que pouca gente esperava era tamanha crise financeira a ponto de afugentar o dinheiro, como alega a categoria. Por outro lado, há quem diga que houve uma acomodação demasiada, isolamento das decisões e má administração incapaz de prever tempos difíceis como quando quase resultou na criação de um novo campeonato. Diante de uma escassez de investimentos, os problemas não pararam de aparecer e, como se sabe, geraram uma espécie de efeito dominó.

Nos dias 3 de junho e 18 de novembro de 2015, o Banco Safra concedeu à categoria dois empréstimos respectivamente no valor de R$ 458.000 (a ser pago dois meses depois) e R$ 495.000 — a ser pago também em uma única parcela, mas 19 dias depois. No primeiro deles, foram firmados três aditamentos, o último no valor de R$ 429.971,54 para ser pago em seis parcelas. A F-Truck havia pagado apenas a primeira, segundo documento de janeiro de 2016; já no segundo caso, dois aditamentos foram feitos, um deles no valor de R$ 495.000, a ser pago em seis parcelas. Nenhuma delas havia sido paga no mesmo documento do início do ano.

Como garantia do cumprimento das obrigações, foram dados em alienação fiduciária — uma modalidade de garantia que se baseia na transferência de bens como pagamento de uma dívida — sete caminhões que fazem parte do show da F-Truck e uma picape. Com dificuldade no cumprimento dos prazos, o fluxo de pagamento e datas de vencimento foi diversas vezes alterados até 15 e fevereiro deste ano, data do primeiro atraso. Como resultado, em julho, os débitos atualizados perfaziam um total de R$ 1.090.715,28.

Não demorou muito e banco mandou uma carta endereçada à sede localizada em São Vicente, com a notificação de cobrança com 24 horas de prazo improrrogável para pagar. Sem sucesso, em agosto, a juíza de Direito Adriana Sachsida Garcia deferiu liminarmente então medida de busca e apreensão, fazendo com que, cumprido os prazos, os caminhões passassem a ser do banco e não mais da F-Truck. Em 3 de outubro deste ano, um oficial de Justiça deu cumprimento ao mandado e apreendeu quatro caminhões, todos em bons estados e com pneus novos, entregando-os a um fiel depositário, sendo-os levado a um Auto Socorro de Cubatão, também na Baixada Santista.

Documento de busca e apreensão informando que caminhões foram levados como não pagamento de uma dívida com o Banco Safra
Reprodução

No dia seguinte, em contestação protocolada, os advogados da King Truck exaltaram o histórico da empresa detentora da F-Truck, uma "categoria composta de caminhões preparados para corrida, com seis marcas de veículos, 24 pilotos distribuídos em 14 equipes". Também salientaram os cerca de 80 funcionários, sendo que em cada corrida são criados aproximadamente 2.500 empregos indiretos. Mas não deixaram de ressaltar que seus recebimentos são variáveis, de acordo com patrocinadores e bilheteria das corridas e, por isso, a cliente deles “atravessa dificuldades de ordem financeira, pois seus recebimentos dependem das verbas de patrocínio, que devido ao cenário do país, chegam com certa dificuldade, motivo pelo qual está em atraso com suas obrigações".    

A oitava etapa do campeonato, no entanto, estava prestes a acontecer. Foi então que os advogados requereram a substituição da garantia para que não só os caminhões participassem das atividades em Cascavel (PR), como para a requerida D. Neusa reaver seu bem de tamanha valia.

“Excelência, referidos caminhões integram a equipe de eventos da Requerida, preparados e caracterizados para as corridas, possuindo valores de mercado muito inferiores do que se estivesse em seu estado original, sendo certo que para a Requerente, não teria valor comercial, contudo, de muita valia para a Requerida”, escreveram os advogados. “Estando os caminhões em poder da Requerente, o evento não será realizado na íntegra, trazendo prejuízo irreparável e ou de difícil reparação para a Requerida, situação essa que piora o relacionamento com o Requerente, dificultando ainda mais honrar os compromissos firmados!”

O retrato do que involuntariamente os advogados confirmaram se tratar de um circo se deu a seguir: “[...] Seria mesma coisa que estar o circo armado, a plateia aguardando, mas os palhaços não aparecerem!”

 

Até conversa de Whatsapp está inclusa no processo da F-Truck
Reprodução

Como nova forma de garantia ao empréstimo, um imóvel com valor venal de R$ 367.459,58 e valor de mercado de aproximadamente R$ 1 milhão foi oferecido. O imóvel fica na Praia do Itararé, um dos cartões-postais em São Vicente, no litoral sul paulista.

Já em setembro, o banco e a categoria deliberaram e chegaram ao que chamaram de “composição amigável” para a dívida líquida e confessada pelo valor de R$ 1.146.593,55. Em princípio, também não deu certo por um atraso logo no primeiro vencimento. O plano era pagar uma entrada de R$ 300.000 e 47 parcelas de R$ 25.045,94, além de uma última de R$ 112.347,71 em setembro de 2020.

Os advogados do Banco Safra disseram que o processo corre em sigilo bancário e não puderam dar informações sobre o andamento do caso. Fontes ligadas à F-Truck disseram que os caminhões já estão em uso pela categoria.

Com ou sem circo armado, picadeiro, platéia ou palhaços, a F-Truck lembra um artista que luta para sair da decadência. E ninguém acha graça.

Chave desligada


O GRANDE PREMIUM entrou em contato, via assessoria de imprensa, para que a F-Truck esclarecesse os fatos e manifestasse publicamente a situação e as queixas levantadas nesta reportagem. O GP* aguardou duas semanas por uma resposta às seguintes perguntas:

  1. Nós temos a informação que as três empresas/os CNPJs que envolvem a F-Truck constam como devedores em protestos e dívidas, de postos de gasolina a narradores e comentaristas, que superam R$ 1 milhão. Confirma? Se sim, existe uma previsão para a quitação destes débitos?
     
  2. Nós temos a informação que a Máster TV é uma das empresas que mais teve dívidas – por isso não mandou seu equipamento para a etapa de Goiânia, e não por qualquer coincidência com a transmissão da final de Roland Garros – e que, para quitá-las, foi oferecido um apartamento na cidade de Balneário Camboriú. Confirma?

    Ainda, que empresa foi chamada para substituir a Máster TV nesta corrida de Goiânia?

  3. Nós temos a informação que a saída da Crystal como patrocinadora da F-Truck se deveu ao fato de Danielle Navarro ter dito a representantes da referida marca que a cerveja “é uma merda”. Confirma? Além do mais, Danielle, que foi suspensa pelo STJD por 90 dias por ameaças físicas e verbais a um comissário na etapa de Campo Grande, não cumpriu a suspensão. Confirma também?

  4. Nós temos a informação de que houve uma oferta, tempos atrás, de Roger Penske para compra da F-Truck, prontamente rechaçada pela direção da categoria por uma divergência de valores. Confirma? Na mesma linha, Carlos Col também já fez uma oferta pela categoria. Confirma? Por fim, existe ou existiu algum interesse de Neusa Navarro em passar o comando da F-Truck adiante?

  5. Nós temos a informação de que representantes da categoria como Roberval Andrade, Djalma Fogaça e Renato Martins se ofereceram para assumir o comando da categoria em reunião realizada no meio deste ano. Confirma?
     
  6. Nós temos a informação de que muitos fornecedores são amigos próximos da família dona da F-Truck e, no momento, preferiram se afastar dos negócios. Por quê?


Com uma série de informações, notamos que há um temor de pilotos e equipes de que a categoria não continue em 2017, até mesmo com muitos não garantindo a presença até o fim deste campeonato. O que a F-Truck pode dizer a respeito?

Não houve qualquer resposta aos questionamentos.

Em abril de 2017, as equipes dissidentes da F-Truck resolveram formar a Copa Truck, um campeonato com seis etapas e os principais pilotos da antiga categoria. A F-Truck, com no máximo dez pilotos, se arrasta nas pistas.