O destino do GP do Brasil no voto

O GRANDE PREMIUM ouviu os candidatos à Prefeitura de São Paulo, questionando o posicionamento deles sobre o futuro de Interlagos e da etapa brasileira da F1

Renan Martins Frade, de São Paulo

No próximo domingo, dia 2 de outubro, cerca de 9 milhões de eleitores de São Paulo vão começar a escolha do próximo prefeito ou prefeita da cidade. Uma decisão que envolve, claro, o destino da saúde, da educação, do transporte e de diversos pontos importantes na cidade. Porém, há também outra responsabilidade que cairá nas mãos do próximo mandatário: o destino do Autódromo José Carlos Pace e do GP do Brasil de F1.

Como parte do atual contrato com a categoria máxima do automobilismo, a cidade gastou cerca de R$ 160 milhões em reformas no autódromo de Interlagos nos últimos três anos. O dinheiro, que veio via verba do Ministério do Turismo, foi utilizado para a ampliação dos boxes, no aumento da entrada e da saída dos pits, em novos anexos na Curva do Sol, novas áreas de escape e um novo muro de arrimo, entre outros pontos. Como parte do acordo, o atual contrato com a FIA foi ampliado até 2020.

No entanto, 2020 também será o último ano do mandato do próximo prefeito. Assim, a extensão do acordo caberá ao próximo prefeito ou prefeita. E não é só isso: na última semana, a FIA divulgou o calendário da categoria para a próxima temporada, colocando um asterisco ao lado do GP do Brasil – informado que a corrida ainda está sujeira à confirmação. “2017 está confirmado. Houve um equívoco na publicação, que inclusive nem o nome da cidade eles escreveram certo”, explicou Tamas Rohonyi, o promotor da etapa brasileira.

Em junho passado, o mesmo Rohonyi havia garantido que o atual contrato é quase impossível de ser rompido. “Nunca diga nunca, mas a única forma seria o prefeito ou a prefeita não querer o autódromo. Decidir que vai fazer um Parque do Povo aqui”. Será que isso explica o asterisco ao lado do nome do GP na lista divulgada pela FIA dias atrás?...

Massa no pódio do GP do Brasil de 2014
Beto Issa / GP do Brasil de F1

Ainda assim, Felipe Massa, que se despede da F1 na atual temporada, demonstrou mais uma vez preocupação com o destino da prova. “Estamos apenas correndo e não sabemos o que acontece por trás dos contratos”, disse, esta semana, o piloto da Williams. “Sei que a situação no país não está fácil economicamente falando, então talvez seja algo em torno disso. Mas não sei, talvez seja só pressão e talvez aconteça como na Alemanha ano passado”.

Com mais uma decisão em jogo para o futuro mandatário de São Paulo, o GRANDE PREMIUM questionou todos os candidatos à Prefeitura sobre o uso do autódromo e a continuidade da corrida da F1 – que, de acordo com os organizadores, deve movimentar R$ 400 milhões na cidade agora em 2016. Dessa forma, o eleitor estará municiado de informações para decidir o candidato que irá receber o seu voto.  

As questões foram as seguintes:

- Quais são os planos para o autódromo de Interlagos durante o seu mandato como Prefeito de São Paulo?

 

- Quais são seus planos para o GP do Brasil de F1 durante a sua gestão?

 

Os posicionamentos dos candidatos estão, na íntegra, a seguir. Eles foram dos mais variados, indo desde a privatização do autódromo à realização de etapa da F-E, passando por uma Parceria Público-Privada para a gestão de Interlagos e a transformação do espaço em um parque. 

Celso Russomanno

Partido: PRB

Coligação: PRB / PSC / PTB / PEN

Fazer uma Parceria Público-Privada para gestão do autódromo, tornando um parque aberto para a população, mantendo a pista para competições esportivas de automóveis, kart, motos, Bicicletas, pedestres etc., previamente definidas nessa parceria.

Atualmente, Interlagos está ocioso a maior parte do ano, fechado à população e dando uma despesa enorme aos cofres da cidade. Vamos torná-lo aberto a população que lá poderá fazer práticas esportivas e lazer nos equipamentos que instalaremos para esportistas, infantis, idosos e deficientes.

GP do Brasil de F1 é um dos maiores eventos da cidade e será mantido e incentivado, pois, ao atrair turistas, gera renda e postos de trabalho indispensáveis para a cidade. Além disso, proporciona uma visibilidade à São Paulo junto a uma audiência altamente qualificada a nível global.

João Doria

Partido: PSDB

Coligação: PSDB / PPS / PV / PSB / DEM / PMB / PHS / PP / PSL / PT do B / PRP / PTC / PTN

A proposta é privatizar Interlagos, com a garantia de que continuará a ser utilizado como autódromo, kartódromo e parque com acesso público. Com a privatização, será também um grande centro de eventos musicais e culturais ao ar livre na cidade. O parque anexo ao autódromo será mantido aberto para toda a população com acesso gratuito e condições adequadas de uso. Incluindo banheiros, iluminação, sinalização, calçamento, quadras poliesportivas, áreas de lazer e segurança.

Com gestão privada, o autódromo deixará de onerar os cofres da Prefeitura com gastos de custeio. Além disso, poderá receber investimentos necessários para ser modernizado. O Autódromo de Interlagos significa hoje um gasto de R$ 400 milhões a cada quatro anos para a Prefeitura, sendo que a grande maioria da população não tem renda para comprar ingressos para os eventos nele realizados.

Interlagos continuará como autódromo, a finalidade não vai mudar, mas a administração será privada e vamos tirar o custo que ele representa hoje para a administração, além de investir os recursos gerados com a privatização em áreas prioritárias como saúde e educação.

Pretendo trabalhar da melhor forma possível para garantir o sucesso do GP do Brasil, evento que tem grande importância no calendário de eventos turísticos de São Paulo. O plano de privatizar Interlagos tem justamente o propósito de dar eficiência e agilidade às providências necessárias à realização do evento, seguindo o modelo de outros grandes autódromos do mundo, que também são privados. A Prefeitura estará sempre aberta a parcerias com a inciativa privada na organização de eventos capazes de atrair turistas e divisas para a cidade, gerando emprego e renda, além de divulgar a imagem de São Paulo no Brasil e no exterior.

 

Ricardo Young

Partido: REDE

Coligação: REDE

O automobilismo é um esporte muito interessante que merece seu espaço. Eu acredito que o autódromo de Interlagos deve ser mantido sob o cuidado do município e usado em parceria com a iniciativa privada ou em concessões específicas para diversos eventos. Mas para isso é preciso haver um comprometimento dessas organizações quanto à emissão de gases do efeito estufa. O uso do autódromo poderia ser vinculado a uma compensação ambiental e ao automobilismo da sustentabilidade. Isso seria bem simbólico quanto ao comprometimento tanto da cidade quanto dos seus organizadores em relação a um plneta mais sustentável. Um exemplo disso seria a realização de etapas da Formula E, com carros movidos a eletricidade.

Também acredito que manter o autódromo público permite seu uso para fins educacionais, como aulas de direção defensiva. Trata-se de um espaço onde os motoristas que possuem carros mais potentes, que atingem mais velocidade, podem aprender a usá-lo num espaço mais contido e seguro. Além disso, o amplo espaço permite pensar em mais usos, como um parque. É preciso pensar qual seria a infraestrutura para esse uso, mas o fácil acesso pelo trem permite ampliar seu uso geral.

A Formula 1, especificamente, é um evento importante para a cidade, que move milhões de reais em turismo e deve ser mantido e cuidado para que a cidade não perca esse evento internacional de grande porte.

Fernando Haddad

Partido: PT

Coligação: PT / PC do B / PR / PDT / PROS

O autódromo de Interlagos é um dos cartões postais de São Paulo. É hoje um espaço conhecido mundialmente não só por abrigar o Grande Prêmio de Fórmula 1, mas também por outras provas importantes do calendário nacional de automobilismo, e por ter sido a “casa” de pilotos como Ayrton Senna, Rubens Barrichello e Emerson Fittipaldi. Recentemente, fizemos reformas no local, onde demos atenção especial à área dos boxes, que hoje podem ser transformados num grande pavilhão para exposição de artes, para eventos culturais e até como espaço para convenções.

Agora, queremos usar esse espaço privilegiado para funcionar como um parque também, que pode vir a ser o pulmão da zona sul, com um milhão de metros quadrados de área – quase do tamanho do parque do Ibirapuera. Em hipótese alguma Interlagos será vendido. Como já é dotado de muita infraestrutura, o parque no autódromo poderia ser uma importante opção de lazer para bairros como M’Boi Mirim, Cidade Ademar, Grajaú, toda essa região, que precisa de fato de uma nova área de lazer. Um dos meus adversários está propondo vender a área do autódromo para empresas do ramo imobiliário, o que considero um retrocesso sob todos os pontos de vista. É uma ideia tão maluca e absurda, que ninguém teve a coragem de sequer sugerir esse tipo de discussão nas audiências públicas que foram feitas para a elaboração do novo Plano Diretor do município. Garanto que, no que depender de minha vontade, a cidade seguirá contando com seu autódromo e ainda ganhará um novo parque no local até o fim da próxima gestão.

O Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1 é um dos eventos mais importantes e tradicionais do país, e coloca São Paulo numa vitrine para o mundo. Vamos manter o apoio à realização do evento na cidade, uma vez que isso atrai turistas e movimenta nossa economia.

João Bico

Partido: PSDC

Coligação: PSDC

Nosso plano é fazer com que o espaço seja mais utilizado ao receber eventos diversos, como a Marcha para Jesus.

 

Luiza Erundina

Partido: PSOL

Coligação: PSOL / PCB

Nós vamos manter o autódromo sob a gestão da Prefeitura. Hoje ele é um patrimônio da cidade e assim deve continuar. Infelizmente, algumas candidaturas defendem privatizar totalmente o espaço. Mas se o autódromo pode ser lucrativo para a iniciativa privada, por que não mantê-lo sobre uma boa gestão do poder público e manter a arrecadação que hoje ele traz para o caixa do município? Sabemos da demanda por mais áreas verdes, por equipamentos de lazer e pela construção de um parque na região, mas isso pode ser estudado e viabilizado sem a extinção do autódromo. A Prefeitura, inclusive, acaba de investir muitos recursos na reforma do autódromo. Algumas coisas ainda não estão prontas, mas não é depois de investir recursos públicos em Interlagos que vamos vendê-lo para a iniciativa privada? Isso não faz nenhum sentido.

O contrato com a FIA está firmado até 2020 e vamos trabalhar para mantê-lo e renová-lo depois. Foi durante a minha gestão à frente da Prefeitura que nós trouxemos de volta o GP do Brasil para São Paulo, depois de problemas que aconteceram no Rio de Janeiro. É um evento importantíssimo no calendário da cidade e do país, que dinamiza nosso turismo, a rede hoteleira e traz divisas para São Paulo. Hoje a FIA divulgou o calendário de 2017 e o nosso GP aparece como “a confirmar”. Não sabemos se isso se deve às demandas ainda não atendidas pela Prefeitura. Mas trabalharemos com vigor para que Interlagos seja confirmado para novembro do ano que vem e para que o GP do Brasil continue por aqui.

Marta Suplicy

Partido: PMDB

Coligação: PMDB / PSD

Marta Suplicy não respondeu aos questionamentos do GRANDE PREMIUM até o fechamento desta matéria. O plano de governo da candidata afirma que um dos objetivos é atrair mais eventos, incluindo uma “exibição da Fórmula 1 pelas ruas da cidade”.

Em entrevista à 'Folha de S.Paulo', publicada no último dia 20, Marta afirmou que “dá para estudar” uma privatização de Interlagos, já que o autódromo “tem rendimento”. 

Major Olimpio

Partido: SD

Coligação: SD

Major Olimpio não respondeu aos questionamentos do GRANDE PREMIUM até o fechamento desta matéria. Em seu plano de governo, o candidato afirma que irá privatizar o autódromo de Interlagos, junto com o estádio do Pacaembu e o Centro de Eventos do Anhembi. 

Os candidatos Henrique Áreas (PCO), Levy Fidelix (PRTB) e Altino Prazeres (PSTU) foram contatados, mas não responderam aos questionamentos do GP* até o fechamento desta matéria. Além disso, os planos de governo dos candidatos não mencionam o autódromo ou a F1, muito menos os assuntos foram abordados em entrevistas recentes. Caso eles se posicionem até a eleição, este texto será atualizado com as informações.