Herói pela primeira vez

Na primeira temporada como piloto da Ferrari, Felipe Massa ainda precisava cumprir o papel de escudeiro de Michael Schumacher. Foi só no GP do Brasil de 2006, último da temporada, que o brasileiro virou um verdadeiro protagonista. Era o início de seu melhor ciclo na F1

Vitor Fazio, de Porto Alegre

Para Felipe Massa, o GP do Brasil de 2006 foi um ato de heroísmo. Representante de um país que já estava carente de ídolos, Massa chegava em Interlagos com a missão de trazer uma conquista que não vinha desde 1993 – a vitória de um brasileiro em terra natal. Com a sequência de três campeões mundiais já no passado, Felipe carregava um fardo. Agora na Ferrari, o objetivo era cumprir a missão que Rubens Barrichello não havia cumprido. Em uma prova marcante, Massa começou a sentir o peso do futuro que tinha pela frente.

Ao vencer aquele GP do Brasil de 2006 de forma incontestável, Massa começava a se portar como aquele cara que seria o grande nome da Ferrari, o grande nome do país no automobilismo. Felipe entrou em Interlagos naquele 22 de outubro como o parceiro de Schumacher e saiu como um líder de uma equipe que ficava órfã.

Era o início de um ciclo que culminaria na briga épica pelo título de 2008. Contra Lewis Hamilton, o que fez a diferença foi um único ponto. A batalha voltava a acontecer na mesma Interlagos de 2006 e Massa, mesmo vencendo, saía derrotado.

 

Para entender como Massa iniciou o melhor período de sua carreira na F1, é preciso voltar alguns anos no tempo. Felipe foi adotado pela Sauber ainda em 2002, após o título na Euro Formula 3000. O brasileiro ainda não sabia, mas a ida para a equipe suíça foi importantíssima: Peter Sauber era muito próximo da Ferrari, consequência direta do contrato de motor entre as duas equipes.

Mas é evidente que só estar na Sauber não bastaria. Era preciso alcançar resultados nas pistas – e os resultados não vieram com facilidade. A temporada 2002 de Massa foi bastante apagada, o que resultou em um pé na bunda para 2003 – Heinz-Harald Frentzen viria para seu lugar. Restava ser piloto de testes da Ferrari.

Depois de um ano em Maranello, Massa tinha o apoio necessário para voltar ao cockpit da Sauber. Voltou e, em dois anos, se consolidou como primeiro piloto da equipe. Ao fim de 2005, a saída de Rubens Barrichello da Ferrari abriu caminho para a chegada de um piloto que ainda não havia dado provas de seus verdadeiro potencial.

A temporada 2006 foi um divisor de águas para Felipe Massa. O brasileiro, antes acostumado com os carros medianos da Sauber, tinha a rara chance de brilhar em um carro de ponta. Mesmo ofuscado por Michael Schumacher, Massa tinha tudo para colher seus frutos na Ferrari – equipe que, após um 2005 bem abaixo da média, vinha com tudo para desafiar a poderosa Renault.

Apesar das promessas, o ano começou devagar. Nos quatro primeiros GPs, Massa só pontuou duas vezes. Na sequência veio o GP da Europa, em Nürburgring, reservando o primeiro pódio da carreira.

Conforme os meses passavam, as coisas seguiam ficando mais positivas: mais cinco pódios antes do GP do Brasil, tendo como ponto alto a vitória no GP da Turquia. Com uma performance dominante, Massa finalmente convertia seu carro vencedor em presença no topo do pódio – algo bastante difícil, considerando a presença constante de Schumacher.

Assim, Massa chegou ao último GP do ano com as coisas ao seu favor: uma corrida em casa, um carro vencedor e um campeonato já praticamente definido – Felipe não tinha mais nada a perder em Interlagos. Essa combinação de fatores serviu para alcançar um dos resultados mais brilhantes da carreira do brasileiro.

 

Os treinos livres não chegavam a apontar para uma grande performance da Ferrari – a McLaren liderou o TL1 com Kimi Räikkönen, enquanto Alexander Wurz, reserve, levou o TL2 com a Williams. Os italianos só foram mostrar serviço no TL3: Massa em primeiro, Schumacher em segundo. Depois do bom resultado na manhã de sábado, a tarde de treino classificatório prometia bastante.

E, de fato, Massa conseguiu fazer seu trabalho no treino classificatório.  Com folga – 0s619 sobre Räikkönen – o brasileiro carimbou a pole, relativamente previsível. Com Michael Schumacher largando em décimo, Felipe tinha tudo para controlar a corrida.

A liderança foi mantida na largada com certa facilidade. Após uma boa partida de Massa, uma leve virada de volante para a direita foi suficiente para conter qualquer manobra mais agressiva de Räikkönen, que se contentou com o segundo lugar na largada. Nem mesmo o safety-car trazido por Nico Rosberg ainda na primeira volta conseguiu acalmar os ânimos de Felipe, que voltou a pisar fundo assim que pôde.

O pneu furado de Schumacher, logo na volta nove, já praticamente decidia uma disputa pelo título que não dizia respeito a Massa. Alonso, que já tinha uma mão na taça, colocou a outra. Felipe, à luz do retrospecto de ordens de equipe da Ferrari, sorriu: não havia companheiro que pudesse ameaça-lo nesse dia.

Assim, sem nada para se preocupar, Massa seguiu abrindo. 7s, 10s, 15s, 18s658. Com uma folga dessas sobre o bicampeão Alonso, Felipe havia se transformado em um herói para o país.

Felipe Massa foi incrível no GP do Brasil de 2006
Ferrari

Os poderes de herói de Massa trouxeram, de fato, responsabilidades. O ferrarista herdou todos aqueles fãs que talvez gostem mais de ver brasileiro ganhando do que do próprio automobilismo. Uma série de fãs que o colocariam contra a parede em qualquer oportunidade, até que o tão aguardando título viesse.

O título não veio em 2007. Mas sem problemas: o companheiro Räikkönen levou a taça e evitou um clima amargo na Ferrari. O único problema foi entregar a vitória no Brasil para o companheiro, que precisava de cada pontinho possível. Mas vá lá, sempre existe um próximo ano.

Em 2008, Massa veio com tudo. Seis vitórias, uma delas no Brasil, a segunda da carreira. Todos conhecem a história: Lewis Hamilton veio, passou Timo Glock e abocanhou o título nos acréscimos do segundo tempo. Felipe foi o herói que já havia sido dois anos antes, vencendo em Interlagos, mas a glória logo começaria a ir embora. Ninguém acreditava nisso, mas aquela tarde chuvosa em Interlagos serviu de cenário para o último triunfo na F1.

Os anos seguintes foram um pesadelo. Em 2009, o incidente da mola quase acabou com a carreira na F1. Em 2010, o retorno e o ‘Fernando is faster than you’. Em 2011, um ano sem qualquer pódio. Em 2012, uma breve esperança, mas que não resultou em nada espetacular em 2013. 2014 trouxe outra esperança com a Williams, mas que se desmanchou ao longo de 2015 e 2016.

Quando Massa pendurar o capacete em definitivo, após o GP de Abu Dhabi deste ano, o que vai restar é a imagem de alguém que foi longe, mas não o suficiente. Não fosse a sequência horrível de eventos que marcou a metade final da carreira, Felipe poderia muito bem ser o primeiro brasileiro campeão desde Ayrton Senna – jejum que acabou de completar 25 anos.

Não ter sido o responsável pelo fim do jejum do Brasil não é demérito nenhum – é preciso acabar com essa cultura que tanto valoriza o título. Mas é inegável que a reta final da carreira de Massa não é condizente com a daquele piloto que tanto empolgou o país.

Após o heroísmo simbólico de 2006, Felipe não foi capaz de arcar com as expectativas criadas. Uma pena. Depois de tanto sucesso, ninguém merece passar o resto da carreira se indagando sobre o que deixou de ser.