As vítimas de Cobra

Preso no começo da semana pela segunda denúncia de violação sexual, o preparador físico mais famoso do automobilismo brasileiro, Nuno Cobra, mostrou face de potencial abusador; acusações vão além das oficiais e inclui estrela da pornochanchada

Juliana Tesser, de São Paulo,
Pedro Henrique Marum, do Rio de Janeiro &
André Avelar, de São Paulo

 

A prisão de Nuno Cobra pela reincidência em casos de abuso sexual, na última segunda-feira (11), abalou as estruturas do automobilismo brasileiro. Antigo preparador físico creditado por um trabalho revolucionário com Ayrton Senna entre 1984 e 1994 e tratado como uma espécie de guru no assunto pelos últimos 30 anos, Cobra tornou-se figura recorrente e requisitada em eventos e palestras em todo o Brasil neste tempo. Aos 79 anos de idade, jamais foi tratado com reticências no país, nem mesmo após ser condenado pela primeira acusação de abuso sexual.

A acusação inicial aconteceu em 2015, feita por uma mulher que tinha 21 anos de idade à época. Durante um voo entre Curitiba e São Paulo, Cobra, segundo a sentença, insistentemente tocou seios e as pernas da mulher e afirmou que "o formato do corpo lhe despertava pontos energéticos que não sentia há muito tempo". Considerado culpado, foi condenado a 3 anos e 9 meses de prisão, pena que acabou convertida em serviços comunitários e pagamento de uma multa.

O teto de vidro ruiu novamente quando, em agosto último, Cobra sofreu nova acusação. Desta vez, uma jornalista foi quem denunciou o preparador por supostamente encurralá-la e esfregar o órgão sexual na vítima. A nova acusação fez com que a justiça agisse, e a 3ª Vara Federal de São Paulo emitiu um pedido de prisão preventiva. Na decisão do tribunal, a juíza Raecler Baldresca afirmou que "a ousadia do réu não tem limites, o que exige sua retirada do convívio em sociedade".

A prisão durou três dias. No fim da tarde da última quinta-feira, Cobra pagou uma fiança consistente em 45 salários mínimos e deixou a carceragem da Polícia Federal de São Paulo. Até o fim da tarde da sexta-feira (15), terá de entregar o passaporte para garantir que não irá deixar o país e tem obrigatoriamente de estar em casa nos horários em que não estiver trabalhando. Vai, até a segunda ordem, responder em liberdade.

O habeas corpus concedido a Cobra pela juíza Giselle França, também da 3ª Vara Criminal de São Paulo, tem como premissa a ideia de que a prisão pela segunda ofensa é incompatível com a pena original, de serviços comunitários e multa, sem perigo de restrição à liberdade. É nisso que se sustenta o argumento legal, nada que dê um alento à defesa do processado a longo prazo. Nada que jogue contra as acusações. Nada que diga algo diferente do que duas mulheres disseram em juízo.

Com prisão ou sem prisão — por enquanto —, o fato de denúncias de casos de abuso sexual virem à tona suscitaram uma reação: outras mulheres, que também se dizem vítimas de Nuno Cobra, agora resolveram abrir o jogo. Direcionadas por superiores ou situações distintas a ficarem caladas quando se viram vítimas, anos depois e calcadas pela abertura da 'Caixa de Pandora' do total desrespeito do preparador por limites sociais, outras vítimas agora mostram que o caso e o histórico de Cobra não teria começado ou terminado num voo ou num escritório. Segundo elas, é antigo, muito antigo.

O GRANDE PREMIUM conversou com a jornalista que fez a segunda acusação e levou Cobra à cadeia, mas também falou com outras duas mulheres, a atriz Nicole Puzzi e a bióloga e doutora em botânica Karola Paiva, em casos anteriores ao de 2015 e que até agora haviam ficados na obscuridade. Ainda existem receios com relação à justiça, é verdade, mas o fato é que o traço de mau comportamento é mais longo que apenas dois casos.

 

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