A saída do touro

O fim do ciclo da Red Bull promove uma série de mudanças na Stock Car, com a saída de Cacá Bueno da equipe de Andreas Mattheis, que segue viva em 2017 e corre com um novo patrocínio

Fernando Silva, de Sumaré,
Pedro Henrique Marum, do Rio de Janeiro &
Vitor Fazio, de Porto Alegre

Dias depois de Felipe Massa anunciar sua aposentadoria da F1 ao fim da temporada 2016, o automobilismo brasileiro sofreu outro duro golpe. A saída da Red Bull do grid da Stock Car representa o fim de um ciclo vitorioso, marcado por cinco títulos, 27 vitórias, 27 poles e muitas glórias. Claro, não foi uma decisão tomada do dia para noite, já que vários fatores — crise econômica, mudança de filosofia e planos, e a própria situação do automobilismo como um todo — determinaram o desfecho da saga taurina nas pistas do Brasil e que, na esteira disso, vai promover uma série de mudanças relevantes na categoria nacional.

Para entender motivos que justifiquem a saída da Red Bull do grid, é preciso voltar um pouco no tempo. Não tão longe assim. A equipe taurina entrou várias vezes em rota de colisão com CBA (Confederação Brasileira de Automobilismo) em razão de decisões controversas por parte da entidade.

Em 2011, Cacá Bueno e Daniel Serra foram punidos em Campo Grande por excesso de velocidade nos boxes. A equipe rebateu e afirmou que “a gestão desportiva fora das pistas, realizada pela CBA, não está à altura do alto nível de profissionalismo dos pilotos e equipes que participam das competições no Brasil”. Na etapa seguinte, em Jacarepaguá, Cacá e Serrinha correram ‘de luto’, com os carros pintados de preto.

No ano passado, nova polêmica: Cacá esbravejou contra uma comissária da CBA depois de ter vencido a corrida 1 da etapa de Ribeirão Preto, em abril. No entanto, o carioca não recebeu a bandeira quadriculada e, estranhando a ausência de sinalização na pista na volta de desaceleração, continuou andando rápido e se defendendo dos ataques de Marcos Gomes, segundo colocado. A situação deixou o pentacampeão indignado e, em conversa com a Red Bull via rádio, disparou contra “os imbecis da CBA”. A conversa foi captada e exibida na transmissão da TV.

Pelo ocorrido, Cacá foi suspenso da rodada dupla de Curitiba, levando a Red Bull a substituí-lo por Laurens Vanthoor. Mas o prejuízo, em meio a um campeonato tão equilibrado, foi muito grande. A diferença entre o campeão — com todos os méritos, diga-se —, Marcos Gomes, para Cacá, foi de 30 pontos, o que seria fatalmente reduzido caso o pentacampeão tivesse corrido em Curitiba naquela etapa em que cumpriu suspensão.

A Red Bull deixa a Stock Car após dez temporadas e cinco títulos conquistados
Bruno Terena/Red Bull Content Pool

Às vésperas do início da temporada 2016, um novo escândalo explodiu como uma bomba atômica na Stock Car. Uma reportagem da ‘Folha de S.Paulo’ deflagrou uma conversa envolvendo comissários da CBA vazada de um grupo de WhatsApp. O teor indicava mudanças nos resultados e punições impostas de propósito a pilotos como Cacá Bueno, sempre mutio crítico à Stock Car, e também Thiago Camilo. Após seis meses, a investigação não deu em nada, embora o caso ainda tenha de ser julgado pelo STJD.

Na esteira da incerteza sobre os rumos e a gestão do automobilismo brasileiro como um todo, a crise econômica bateu forte no Brasil como um todo, e no esporte em particular. Num ano atípico, marcado pelos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, o investimento de muitas empresas no esporte a motor rareou. Só na Stock Car, duas equipes tiraram o time de campo: a Boettger e a Mico’s, que perdeu seu principal patrocinador, a farmacêutica Prati-Donaduzzi — guarde esse nome.

A Corrida de Duplas, por exemplo, quase não saiu justamente por motivos econômicos e, quando foi realizada, contou com poucos nomes de peso entre os convidados. E nem mesmo um apoiador vencedor como a Red Bull escapou da crise.

O GRANDE PREMIUM levantou e apurou uma série de informações em torno da Red Bull e que vão causar um efeito-dominó na Stock Car em 2017.

Depois de anos de glória na Red Bull, Cacá Bueno terá nova casa em 2017
Bruno Terena/Red Bull Content Pool

Os primeiros rumores sobre uma eventual saída da Red Bull começaram a circular no paddock da Stock Car em maio. Tudo parecia ser muito improvável: Cacá seguia na frente, marcando poles e ganhando corridas, aumentando a exposição das marcas. Mas a saída da Sky, empresa de TV por assinatura, cujo contrato se encerra no fim do ano, gerou um sinal de alerta.

Afinal, a Red Bull só conseguia manter sua participação na Stock Car com a presença de um parceiro forte. Com a Sky fora da parada, as chances de continuar na estrutura do time de Andreas Mattheis diminuíam a cada porta fechada. A estrutura brasileira tinha um prazo de três meses para que fosse encontrado um parceiro como a Sky, que conseguisse ao menos dividir a conta.

Diante da incerteza de tal cenário, Cacá Bueno, na equipe desde 2009, tomou uma decisão. E o que era algo pouco provável tempos atrás aconteceu: depois de oito temporadas, o piloto mais laureado da Stock Car na atualidade decidia trocar de equipe.

Não se trata de uma mudança qualquer: Cacá deixa a Red Bull como equipe, mas vai seguir ligado à marca taurina, sua parceira desde 2004. Mas agora, por um novo time, aquele contra o qual lutou pelo título até à última corrida do ano passado: a Cimed, equipe que hoje tem o atual campeão, Marcos Gomes, e o líder do campeonato, Felipe Fraga.

A partir de 2017, na esteira de um contrato de longa duração assinado recentemente, o pentacampeão da Stock Car vai pilotar seu carro #0, sob os comandos de William Lube. Trata-se de um reforço e tanto para o time que se consolidou nos últimos anos como o melhor de todo o grid.

A partir de 2017, Cacá Bueno vai correr pela Cimed, a melhor equipe da Stock Car na atualidade
Rodrigo Berton/Grande Premium

Ao GRANDE PREMIUM, Cacá preferiu dizer que “na sexta-feira, eu vou anunciar se eu fico na Stock Car, em que equipe eu fico, se vou continuar. Por isso eu não quero me pronunciar oficialmente, porque na sexta-feira eu vou falar tudo. Questionado sobre correr na Cimed a partir de 2017, despistou. “Tenho outras possibilidades também, mas isso ainda não está definido, vai ser definido essa semana. Dependi muito da posição da Red Bull várias vezes. Tem muita coisa que poderia ter acontecido e muita coisa que ainda pode acontecer.” Há uma possibilidade à mesa de aquisição da equipe Cavaleiro.

Uma das evidências do seu novo acordo com a Cimed foi a participação na prova de endurance da Porsche GT3 Cup, realizada na mesma Interlagos onde vai anunciar seu futuro na sexta-feira. Cacá vestiu o macacão da Cimed e dividiu o carro verde #0 com o experiente gentlemen-driver campineiro Claudio Dahruj. No frigir dos ovos, trata-se da união perfeita entre o melhor piloto do grid com a melhor equipe da atualidade na Stock Car.

Entretanto, a saída da Red Bull não representa, exatamente, a retirada da equipe de Andreas Mattheis da Stock Car. Sua estrutura, baseada em Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro, permanece, mas agora com novo patrocinador e novas cores. Sai o azul que tanto brilhou nas últimas dez temporadas na Stock Car e entra o roxo. Aliás, volta o roxo.

A Prati-Donaduzzi, que patrocinou a Mico’s nas temporadas 2014 e 2015, vai apoiar a vencedora equipe de Mattheis, que mantém a estrutura, garante o emprego de engenheiros e mecânicos e surge como ótima opção aos pilotos em busca de uma vaga competitiva para 2017. E um nome que surge naturalmente é o de Antonio Pizzonia.

Procurado pelo GRANDE PREMIUM, o 'jungle boy' disse que negocia seu retorno à Stock Car para 2017, mas que ainda não tem nada acertado no momento. Em 2016, o manauara voltou ao Mundial de Endurance.

“Não tem nada definido ainda. Realmente, a equipe está em contato com a Prati, seria o possível patrocinador. Entraram em contato comigo também e estou na expectativa, esperando que dê certo. Mas a única coisa que dá para confirmar é que existe esse contato entre eles”, comentou. “A prioridade é voltar para a Stock Car. Estou vendo algumas coisas fora do Brasil, no WEC, onde já fiz uma corrida esse ano. E caso a Stock não dê certo, o WEC é uma categoria que eu gosto bastante", reforçou o ex-piloto de Jaguar e Williams na F1.