Quebrar todas as regras

Numa competição como os Jogos Paraolímpicos, contar a história de Alessandro Zanardi é contar muitas outras histórias. Acompanhar de perto a alma de um evento assim é diferente de qualquer outra coisa que se possa fazer nos esportes

Pedro Henrique Marum, do Rio de Janeiro

O exemplo de Alessandro Zanardi deveria te fazer amar a vida instantaneamente. Deveria. Mas num primeiro momento, te faz odiar a si mesmo por às vezes reclamar dos limões que lhe caem no colo. Quando as emoções se assentam, depois, o que sobra é uma admiração tão orgânica que é até complicado comparar. Não vem de nada do que ele fez, nem por uma história em particular. É por tudo, vem do âmago. A mera presença de Zanardi cria um ambiente de tamanha imponência que o ar pode ser cortado com uma faca.

Há uma expressão na língua inglesa, ‘larger than life’, que não existe em português. Em tradução literal, seria algo como ‘que transcende a vida’. Quando visto de perto, encaixado em sua bicicleta H5, de um lindo prata cromado da Dallara, Zanardi é absolutamente transcendental. Se existe alguém que justifica mais que qualquer outra pessoa no mundo do esporte, esse alguém é Zanardi.

A história vocês conhecem. Sério, todo mundo conhece a história. 15 anos atrás, Alex, bicampeão da Indy, perdeu as duas pernas num acidente tão brutal que até hoje, uma década e meia depois, é difícil acreditar que ele tenha sobrevivido. Se alguém não lembra, aqui um link para se inteirar. A forma como Zanardi deixou de ser um piloto para se tornar um mito é importante, assim como o fato de toda essa narrativa aqui apresentada ter se passado no aniversário de 15 anos do acidente. Mas aqui não apresentamos uma catarse de Alessandro. Aqui é uma história, passada, sim, através de lentes particulares, do que significa a sinergia de uma competição paraolímpica.

A medalha olímpica número 5
Rodrigo Berton/Grande Prêmio

As competições de ciclismo de estrada foram algumas das primeiras em que os ingressos desapareceram. Não era preciso de ingresso para acompanhar ao lado do circuito, mas uma pequena arquibancada foi montada ao lado da linha de largada e chegada. Fundalmentalmente, era necessário arrumar um ingresso para ver o clímax da prova. Mas não tinha muita gente na arquibancada, o que primeiro pareceu estranho e logo depois foi fazendo mais sentido. Ao longo do circuito, um público até grande e bem diverso em nacionalidade, mas formado substancialmente por famílias. As famílias dos atletas que estavam competindo, já haviam competido e ainda iam competir.

Mas se o público presente não era exatamente orgânico, Zanardi carregou alguns curiosos. André Lacativa, um dos responsáveis pelo kartódromo de Guapimirim – região metropolitana do Rio - fã do piloto, sabia até descrever as especialidades de Morris Nunn, chefe de Alex na época do acidente. “Grande especialista em suspensões”, falou ao GRANDE PREMIUM. “A gente vê tantas pessoas que estragam a vida, e Zanardi, mesmo com o revés que teve, busca vencer. Eu gostaria que fosse um exemplo para todo mundo que precisa enfrentar a vida. Muita gente quer viver. Ele é um exemplo.”

Mais que o exemplo, quem fosse atrás de uma competição esportiva teria visto uma de altíssimo nível e incrivelmente parelha. Excluindo o décimo e último colocado da prova, os nove primeiros ficaram separados por 0s07. Os três medalhistas, Ernst van Dyk, Zanardi e Jetze Plat, encerraram com o mesmo tempo na cronometragem oficial: 1min37s49. A quem não está acostumado pode ter parecido um golpe de sorte. “A categoria H5 especificamente é sempre assim”, contou Tracy van der Walt, líder da equipe sul-africana. “Não dá para esperar uma medalha nessa prova.”

Abordei Van der Walt por uma simples razão: queria conversar com o time sul-africano. Afinal, é o país do homem que bateu Zanardi. Estaria mentindo se dissesse que sabia que fui direto no chefe. Van der Walt me disse que estava às pressas para ir ao local da largada das provas da tarde, mas topou conversar quando eu me ofereci a caminhar ao lado dele. A primeira pergunta que fiz foi como Tracy havia chegado à chefia da equipe nacional de paraciclismo, visto que não tinha deficiências físicas ou motoras. “Meu filho tem deficiências e se tornou atleta. Eu me interessei”. OK, mais que explicado. Então, Mr. Van der Walt, vale mais a pena vencer numa competição assim quando alguém famoso como Zanardi traz todo seu nome e atenção que lhe segue? “Sim, sem nenhuma dúvida.”

Sempre colado, o grupo protagonizou umas das melhores competições dos Jogos
Rodrigo Berton/Grande Prêmio

É completamente natural que se pense assim. Que um atleta de alto rendimento infle seu desejo de vencer quando se depara com um público e uma atenção muito superior àquelas que teria em qualquer outra condição. Mas uma coisa é inegável: a atenção é imensa, talvez a maior das Paraolimpíadas Rio 2016. E o que Alex representa para quem morde o osso do esporte? “Ele tornou o esporte popular. Entrou e, sendo famoso, ele junta gente. As pessoas não querem só ver Zanardi, mas querem vê-lo mais”, disse Laura Paulino. Laura estava lá com os dois filhos, deviam ter seus 16 e 8 anos de idade. E estava também com uma moça ucraniana.

Ao passo que, enquanto a italiana encontrava na língua inglesa em que conversava conosco certos percalços, a amiga interveio. “As pessoas vêm ver Zanardi por ele ser muito famoso e importante para a Itália e para o mundo. Ele é um herói. Um herói para o esporte a motor, um herói para o paraciclismo”. A moça se chama Natasha. Natasha Dementyeva. Pessoalmente, eu apostaria que Natasha era uma adolescente, talvez amiga do Noah, o filho mais velho. Qual não foi minha surpresa quando Natasha disse que estava lá com o marido, Yegor, bicampeão paraolímpico. “Meu marido é o único paraciclista do país”, contou.

E perguntada sobre o orgulho ucraniano por ter muito mais tradição no esporte paraolímpico, Natasha assentiu. “Sentimos que é mais especial”. Laura e Natasha sorriram juntos quando falamos do espírito esportivo das Paraolimpíadas – diferente de qualquer outro ambiente do esporte mundial .

A moça ucraniana vive na Itália com Yegor e está tentando se aprimorar nos idiomas italiano e inglês. O esporte paraolímpico, bem como o olímpico, também pede seus sacrifícios às famílias dos atletas. Assim, apesar de ser melhor que Laura no inglês, ainda tropeça confundido as duas línguas. “Estou estudando ambas”, confessa. E fala sobre o ambiente no Rio de Janeiro. “Os brasileiros são muito, como seria a palavra mesmo em inglês?”, tentou lembrar. “Noisy (barulhentos)”, tento ajudar. “Isso, ‘noisy’!”.

Laura e seus filhos também estavam ali para ver o marido e pai. Uma pena que o áudio me traiu nessa parte, eu não consigo entender o nome dele. Vou pedir desculpas por isso. 

A história de Zanardi é também a de tantos outros
Rodrigo Berton/Grande Prêmio

Numa de nossas gravações ao vivo, minha e de Rodrigo Berton, falamos por acaso com a família de Tim de Vries. O holandês era o líder da H5 naquele momento e, animada, a família adorou conversar. A filha pequena queria saber de dar “olá!” em português. Uma simpatia. Ao fim da prova, o português Luis Costa veio ao nosso lado para pedir um beijo a sua esposa. Sentimentos, ambos, complicados de traduzir. A família de Costa ficou um tanto maravilhada quando eu citei, no ao vivo do GRANDE PRÊMIO,  que ele era o líder do ranking mundial. Um reconhecimento midiático que pode ter até sido pequeno, mas vale muito certamente para quem está acostumado a ser ignorado.

No fim das contas, a melhor frase que eu ouvi para descrever o dia, o evento e isso tudo foi dita pelo Berton. "Com o perdão da expressão, puta que pariu". E eu entendo quem não gosta de palavrão em texto jornalístico. Quem acha que não contém. Mas, quando você começa a aprender a escrever, uma das primeiras coisas que te ensinam é que texto jornalístico não se faz em primeira pessoa. Estou quebrando todas as regras aqui.

Talvez eu seja um mau jornalista, então. Ou talvez isso não seja um texto jornalístico. Talvez seja também uma questão de jornalismo, mas muito mais que isso. Seja redenção, seja transcedental. Talvez seja uma questão de heroísmo.

Ver esses caras, Zanardi incluso, passando por mim foi muitas coisas. Talvez outras pessoas pudessem definir com mais firmeza que eu o que são essas muitas coisas. Na humildade do meu relato, pois, não consigo resumir melhor que um graudo e sonoro 'puta que pariu'. E exclamação.

Zanardi, depois de tanta coisa, 15 anos após seu renascimento – como ele mesmo coloca -, ainda encontra humildade o suficiente para se emocionar no pódio. Era uma medalha de prata para quem já tem uma dessas e tem três de ouro. Pouco importa, no fim do dia. A vida é curta demais e insignificante demais para não nos emocionarmos com as vitórias. É o maior exemplo que pude tirar.

A história de Zanardi nas Paraolimpíadas é também a história de tantos outros. Histórias do pai que virou o chefe do esporte no país por conta do filho; da menina ainda tão pequena que assiste o pai enquanto tenta aprender português; a do marido que, exausto, vai até a esposa pedir um beijo; a da família que viaja o mundo atrás do pai; na esposa que fala com tanta propriedade sobre o esporte que você espera que ela seja jornalista. O coração e a alma de uma competição paraolímpica são diferentes de qualquer outra coisa que eu já presenciei.