Por que a F1 não proíbe logo as corridas na chuva?

Segurança é uma questão importante na categoria, mas ou assumem que não conseguem mais correr com pista molhada ou investem em novas (e não tão novas) tecnologias para permitir alguma competição na chuva

Renan Martins Frade, de São Paulo

A chuva pode não ter sido a mesma de outros tempos, mas Charlie Whiting, responsável pela segurança da categoria, não quis saber: na visão dele, não havia condição para a classificação do GP da Itália, em Monza, após o acidente com Romain Grosjean, da Haas. Desta forma, o circuito ficou fechado por mais de duas horas e meia, até que a atividade em pista fosse retomada. Mesmo que, mais tarde, os carros fossem para a pista em condições piores. 

Muitos se perguntaram: por que esta postura? E outros foram até mais longe: por que não proíbem logo os carros da Fórmula 1 de correrem em pista molhada? Questões justas, claro.

Obviamente, no passado, a categoria competia em condições muito piores. Mas é bom lembrar que antes do advento da aerodinâmica na F1 e, principalmente, dos carros asa, os F1 eram mais altos em relação ao solo. São condições que facilitavam – se é que podemos falar isso sobre aquela época – a pilotagem em pista molhada.

Nos anos 1970, os carros ficaram muito mais rápidos e colados ao chão, é verdade. E isso trouxe novas questões sobre segurança, inclusive em pista molhada – mas foi uma época, também, na qual pilotos passaram a lutar mais por esta segurança, principalmente com os campeões Jackie Stewart e Niki Lauda. Aos poucos, o esporte foi se tornando mais seguro, com menos acidentes graves e o número de mortes foi caindo.

E é aí que chegamos em 2014.

Por muito tempo, a Fórmula 1 acreditou que tinha deixado o fantasma da morte no passado. No entanto, em 5 de outubro de 2014, Jules Bianchi sofreu um forte acidente na pista molhada de Suzuka, no Japão. O piloto francês morreu em 15 de julho do ano seguinte, ainda por conta dos ferimentos causados pela batida. Foi o primeiro acidente fatal na categoria em 20 anos. 

Pista molhada de Monza
F1

Acontece que, hoje, os carros da categoria são mais próximos do chão do que eram após o acidente de Ayrton Senna, em 1994 – pouca coisa, mas o suficiente para soltar algumas faíscas e aumentar o risco de aquaplanagem. Os pneus também são mais largos em 2017, o que aumenta um pouco mais o grau de dificuldade na pilotagem molhada.

Ou seja: temos um cenário no qual um piloto morreu e o regulamento técnico atual impõe um maior risco. Desta forma, é até compreensível a escolha de Charlie Whiting: após o acidente de Grosjean e perceber que os carros podiam aquaplanar na reta, ele preferiu pecar pelo excesso. Para a irritação de todos os fãs do automobilismo do lado de cá da transmissão.

A questão é que isto causa um péssimo cenário para a categoria: uma transmissão interminável de TV sem nenhuma ação na pista. Justamente em um momento no qual a categoria tenta se reconectar com o seu público. Neste cenário, a FIA e a Liberty Media, a nova dona da categoria, precisam usar o exemplo deste GP da Itália para tomar atitudes concretas para que isso não ocorra mais – ou que, pelo menos, seja ainda mais raro.

Uma delas é até óbvia: assumir que segurança, F1 atual e pista molhada não combinam, proibindo atividade em pista molhada – tal qual a Nascar ou a Indy em ovais. É uma decisão drástica, que irritaria muita gente, mas ao menos seria mais sincera e não geraria uma espera tão sem definição quanto a deste sábado. Além disso, se alguém levantar a bandeira do “antigamente se corria na chuva”, basta lembrar que antigamente também morria muita gente e vidas valem mais do que qualquer show. 

Ao menos seria mais verdadeiro e constante do que parar com pista quase seca e correr com chuva mais forte, como vimos em Monza. 

Bottas no box, pista molhada...
Mercedes

Outra alternativa, que faz mais sentido, é ter um grande pacto entre equipes e categoria, que pesquisariam o que pode ser modificado nos carros para facilitar a corrida em pista molhada. Também é importante cobrar da Pirelli a produção de pneus sulcados que efetivamente funcionem (e possam ser aquecidos) em pista encharcada e, principalmente, desenvolver uma série de ações para facilitar a drenagem da pista. Este último ponto vai desde novos projetos para o escoamento de água dos circuitos ao emprego de rodos e grandes sopradores para secar a pista – que, na Itália, só apareceram de forma tímida após duas horas de bandeira vermelha.

Segurança é importante. Muito. Não podemos exigir que os pilotos estejam na pista apenas para a nossa alegria enquanto arriscam a própria vida – por mais que você diga que eles são corredores e o risco faz parte do esporte. Por outro lado, uma categoria como a F1 não poe cruzar os braços e esperar que São Pedro e o tempo façam seu trabalho.

Que sirva de lição.