O rótulo falho da Yamaha

A Yamaha começou o ano rotulada como a melhor marca do grid da MotoGP, mas completou no GP da Malásia uma seca de dez corridas. Não é a maior crise da casa de Iwata, longe disso, mas chama atenção depois de um início de ano tão positivo

Juliana Tesser, de São Paulo

Rotulada como a melhor moto do grid desde a pré-temporada, a Yamaha teve um início de ano arrasador, vencendo cinco das primeiras sete corridas do calendário — três com Jorge Lorenzo e duas com Valentino Rossi —, mas viu as coisas mudarem a partir do GP da Catalunha.

Depois do triunfo do #46 em Montmeló, a classe rainha do Mundial de Motovelocidade entrou em uma fase atípica, com o fim dos jejuns de vitórias de equipes satélites, da Ducati e da Suzuki.

O primeiro a quebrar o domínio dos times de fábrica foi Jack Miller. Dono de um contrato oficial com a HCR, o australiano corre pela Marc VDS e aproveitou uma corrida que foi dividida ao meio por conta do acúmulo de água no traçado de Assen para superar Marc Márquez e vencer a primeira da carreira.

O #93 reestabeleceu a ordem na sequência, na Alemanha, mas a chegada da Áustria comprovou o esperado: um domínio da Ducati. Andrea Iannone confirmou a expectativa e encerrou uma seca que vinha desde os tempos de Casey Stoner.

Na República Tcheca, os times satélites voltaram a brilhar. Cal Crutchlow colocou a LCR no topo da tabela ao cravar a estratégia de pneus e fazer uma exibição de gala.

Dr. Rossi deu o diagnóstico: faltou evolução para a Yamaha
(Foto: Yamaha)

Na Grã-Bretanha, mais um jejum caiu por terra. Maverick Viñales alcançou seu primeiro triunfo na MotoGP, devolvendo a Suzuki ao topo do pódio pela primeira vez desde o GP da França de 2007.

Em San Marino, Dani Pedrosa deu um tempo em suas dificuldades com os pneus Michelin e subiu ao topo do pódio, antes de Marc acabar com a brincadeira e encerrar o rodízio de vencedores com vitórias em Aragão e no Japão. Crutchlow voltou a triunfar na Austrália, enquanto Andrea Dovizioso recolocou a Ducati no topo no último fim de semana.

Embora o clima tenha desempenhado um papel, especialmente nas corridas de Assen e Brno, esse revezamento é também fruto da chegada de uma eletrônica padronizada e dos pneus Michelin.

No início do ano, a Honda foi quem mais sentiu a mudança na eletrônica, já que o programa da Magneti Marelli é muito mais simples do que o software proprietário da RC213V. Assim, Márquez e Pedrosa tiveram mais dificuldades para extrair o máximo da performance do protótipo laranja.

Ciente das dificuldades, a Honda seguiu a risca o pedido de Márquez, que avisou logo depois dos primeiros testes: ‘Eu me viro na primeira metade no ano, mas depois vocês têm de me ajudar’.

Enquanto Honda e Suzuki evoluíram, a Yamaha acabou estagnada, cedendo terreno a concorrência. O que não tinha acontecido em 2014 e 2015, quando a YZR-M1 apareceu mais forte na segunda metade no ano.

Yamaha ficou para trás em relação aos rivais
(Foto: Yamaha)

Lorenzo, por outro lado, sofreu mais com os pneus, já que seu estilo preciso de pilotagem o deixou mais vulnerável em corridas onde a aderência na traseira não era boa o bastante.

Mas como foi que a Yamaha acabou ficando pelo caminho? Assim como nos anos anteriores, a casa de Iwata trouxe atualizações no meio do ano, mas nada disso deu os resultados esperados.

Além do mais, Rossi, especialmente, cometeu mais erros, com três abandonos ao longo do ano e uma quebra em Mugello por conta do motor — o propulsor do Lorenzo também deu problema na Itália, mas, ao contrário do que aconteceu com o #46, a falha foi no warm-up.

Na reta final da temporada, resta muito pouco em disputa. Rossi já garantiu o vice-campeonato, enquanto Lorenzo tem uma boa vantagem para ficar com o terceiro lugar. Na disputa entre os Construtores, a Honda está na frente da disputa, com 21 pontos de vantagem. Entre as Equipes, a Yamaha assumiu a ponta em Sepang, com dez pontos de frente.

Nesse cenário, a expectativa é pela nova M1, que vai estrear já nos testes pós-temporada de Valência, quando Viñales também terá seu primeiro contato com a máquina de Iwata. Rossi declarou recentemente que a Yamaha prepara uma moto nova, ao invés da evolução apresentada nos últimos anos.

Yamaha ainda briga pelo título do Mundial de Equipes
(Foto: Yamaha)

A seca de dez corridas, embora incômoda, não é nem de longe a maior na história recente do Mundial. Em 2014, foram 12 triunfos seguidos da Honda antes de a marca dos três diapasões conseguir, enfim, o topo do pódio. 

Voltando mais um pouco, a seca de 2003 foi impactante, já que o time nipônico passou uma temporada inteira sem vencer antes de Rossi assumir a M1 para triunfar logo na estreia e conquistar o título no primeiro ano.

A Yamaha passa por uma no de mudanças, já que se prepara para o adeus a Lorenzo. A despedida do espanhol, aliás, vai deixar uma marca nos testes. 

O time azul permitiu que Jorge faça o teste coletivo de Valência, mas não autorizou a participação do espanhol em um exercício privado que a Ducati vão fazer na Espanha em meados do mês. Em retribuição, a marca de Borgo Panigale, não aceitou a presença da Yamaha em Jerez, já que é a responsável pelo aluguel da pista.

A opção de Iwata, então, foi testar em Sepang, o que normalmente não seria um problema, mas a reforma feita o circuito neste ano mexeu de forma inesperada com a drenagem da pista. Ao contrário do que acontecia antes, o asfalto demora para secar, o que pode ser um problema a mais para o time.

Mesmo assim, a expectativa é boa para a nova M1 e também não dá para dizer que o ano foi completamente ruim para a Yamaha. Claro, com o rótulo de melhor moto do grid, a expectativa era por um ano mais vitórias, mas, além dos cinco triunfos de Lorenzo e Rossi, a dupla conquistou outros sete pódios, três deles com os dois pilotos — San Marino, Aragão e Sepang.

A Yamaha ainda tem mais uma chance de encerrar a seca, mas ainda que não vença em Valência, não é um ano dos piores. Tampouco um ano jogado fora.