O GP do Brasil de 2006 e os palpites furados

O GP do Brasil de 2006 parecia apontar um Fernando Alonso multicampeão, indicar que Felipe Massa seria o novo herói brasileiro na F1 e encaminhar Michael Schumacher para a chefia da Ferrari. Os caminhos dos três foram bem diferentes do que os prognósticos apontavam

Gabriel Curty, de São Paulo
O GP do Brasil de 2006, que completa dez anos neste sábado (22), foi repleto de momentos marcantes para o automobilismo. Só naquele fim de semana, Interlagos viu a aposentadoria de Michael Schumacher, que encerrava o período mais vitorioso de um piloto em um time, a primeira vitória do então promissor Felipe Massa em sua corrida de casa e o bicampeonato de Fernando Alonso, tido como sucessor natural de Schumacher no domínio da F1.
 
Aliás, os três grandes momentos citados também serviram para criar, cada um da sua forma, falsas expectativas no fã de automobilismo. Dez anos mais tarde, fica claro que várias previsões acerca de Schumacher, Alonso e Massa foram furadas.
 
Aos 37 anos e com sete títulos na conta, Schumacher chegava ao Brasil dando toda pinta de que aquela seria sua última corrida. A aposentadoria, já anunciada, viria naquela tarde de domingo, com ou sem um improvável título da temporada 2006.
 
O até então anunciado fim da linha de Schumacher aconteceu após um quarto lugar e, consequentemente, o vice-campeonato. Tido por muitos como o maior da história da categoria, o germânico já estava com idade avançada e, em seus depoimentos, não dava a menor margem para aqueles que esperavam o ver novamente em ação na F1.
Schumacher e Massa
Ferrari
Naturalmente, foi Schumacher anunciar a aposentadoria para os rumores e palpites acerca de seu futuro virem à tona. Na época, o que mais se dizia é que o alemão iria se preparar para, no futuro, ser um dos nomes fortes da Ferrari também como dirigente. Outro caminho poderia ser o de comentarista, já que tantos ex-pilotos o seguem até hoje.
 
Schumacher até fez o papel de consultor de Jean Todt durante a temporada 2007 na Ferrari, mas sua presença constante em testes no final do ano preparando o carro do time italiano começou a gerar dúvidas. Se o alemão não queria mais guiar, o que o levava a seguir testando? Segundo ele, guiar continuava dando prazer, mas não com tanta frequência como era quando ocupava o posto de titular.
 
Em 2008, o germânico continuou fazendo alguns testes, mas também se aventurou em etapas do IDM Superbike, se distanciando um pouco da Ferrari que já não contava mais com Todt. O ano seguinte foi o que quase marcou seu retorno. Com Massa em recuperação após o assustador incidente com a mola em Budapeste, era o heptacampeão o escolhido para substituir o brasileiro. Porém, fortes dores no pescoço em decorrência de um acidente de moto tiraram a chance de Michael, que viu Luca Badoer e Giancarlo Fisichella aparecerem para ocupar o posto do contundido brasileiro.
 
Após três anos de vai, não vai, Schumacher finalmente voltou ao grid da F1. A surpresa, porém, foi constatar que o alemão não encerraria sua carreia na Ferrari, mas, sim, na Mercedes. Empolgado com o projeto de transformar uma equipe em potência e de correr por um time alemão, o veterano chegou a 2010 cercado de expectativas.
Schumacher recebe a homenagem de Pelé em sua despedida
Ferrari
Foram mais três anos de Schumacher correndo e apenas um pódio em Valência. É bem verdade que o carro da Mercedes, naquelas temporadas, não era lá grandes coisas, mas o desempenho do maior campeão de todos os tempos também não foi bom, especialmente quando comparado ao do companheiro Nico Rosberg.
 
Enquanto Rosberg ganhou corrida, visitou o pódio com maior frequência e fechou os três anos entre os dez primeiros do campeonato, Schumacher chegou a amargar um 13º lugar em sua temporada derradeira. Mas, é claro, há o outro lado. É impossível esquecer que Schumacher esteve na construção e no desenvolvimento do que é, hoje, o time dominante da F1 há três anos.
 
Aí, em meio a um cenário de Mercedes querendo Hamilton sob a orientação de Niki Lauda e de Ross Brawn cada vez mais enfraquecido internamente, as coisas mudaram totalmente para Schumacher.
 
Depois do retorno nem tão esperado assim, chegava a hora de realmente dar um ponto final na carreira. Após o sétimo lugar no GP do Brasil de 2012, Schumacher se retirava, ficando até certo ponto longe dos holofotes até seu grave acidente numa pista de esqui em dezembro de 2013. O alemão, até hoje, vive uma situação clínica em que poucas informações oficiais são ditas, mas que sabidamente é delicada.
A despedida de Schumacher em 2006
Ferrari
Mais um "novo Senna"
 
Com a aposentadoria de Schumacher e uma segunda metade de temporada muito forte que culminou em uma grande vitória correndo em casa, Massa se tornou o principal candidato a substituir o alemão no posto de grande estrela da Ferrari.
 
Se a empolgação com Massa já aparecia internacionalmente, em níveis nacionais alcançava índices só vistos no começo da trajetória de Rubens Barrichello na escuderia italiana. Por aqui, o triunfo categórico levantando Interlagos tinha colocado Felipe como possível "novo Senna".
 
Mas 2007 foi uma das temporadas mais estranhas da F1. Durante a maior parte do campeonato, a McLaren parecia dominar o campeonato e tudo levava a crer em uma definição dramática do título entre o novato Lewis Hamilton e o bicampeão Alonso. Em uma corrida conturbada em Interlagos, Kimi Räikkönen contou com a colaboração de Massa para vencer e, assim, levou um título bastante inesperado.
A vitória de Massa em 2006
Ferrari
O problema para Massa não era ver o companheiro campeão, mas sim da forma que foi. O finlandês indiscutivelmente era um dos que mais merecia uma taça, mas não fez um campeonato brilhante como nos anos anteriores de McLaren. O brasileiro, que venceu três provas, era então derrotado por um parceiro até certo ponto comum.
 
Mas aquele campeonato não abalou em nada a confiança de Massa. Foi no ano seguinte, em 2008, que o paulista atingiu o auge da carreira, guiando com precisão e chegando até a ser campeão por alguns segundos. O ano todo disputando ponto a ponto com Hamilton, Massa precisava quase que de um milagre em Interlagos para ser campeão e fez a sua parte com louvor, vencendo novamente. O inglês, no entanto, aproveitou que Timo Glock havia ficado na pista com os pneus errados na chuva e passou o alemão na volta final, sagrando-se campeão.
 
Em 2009, quando já vivia uma fase difícil em que o equipamento da Ferrari também passava longe de ser o ideal, Massa sofreu um dos acidentes mais assustadores da história recente da F1, sendo atingido na cabeça por uma mola que se soltou do carro de Barrichello e se ausentando de metade da temporada.
Felipe Massa trocou a Ferrari pela Williams
Williams
Dali para frente, Massa seguiu sua carreira de bom piloto, mas nem de perto foi o ídolo nacional que se esperava uns anos antes. A vitória com gosto de derrota em Interlagos em 2008 foi sua última, antecedendo cinco anos de muitas dificuldades na Ferrari e derrotas para o companheiro Alonso.
 
O retorno se deu apenas em 2010, com dois pódios em duas corridas que deram uma nova falsa sensação de que o título poderia vir. Depois daquilo, Massa foi buscar apenas outros seis pódios em quase três temporadas inteiras, encerrando seu ciclo na Ferrari e tentando a sorte na Williams.
 
No time britânico, foi responsável direto pelo renascimento da Williams e até cravou uma espetacular pole no GP da Áustria de 2014. Também foi ao pódio cinco vezes, algo até certo ponto inesperado no momento em que Massa assinou com a equipe. Fora de uma equipe de fábrica, porém, até lutar por vitórias era praticamente impossível.
 
Massa anunciou a aposentadoria da F1 para o final da temporada 2016, uma das mais discretas de sua carreira. Estava mesmo na hora. Se não foi o novo Senna que muitos esperavam, o brasileiro se colocou muito bem no ranking de corridas, vitórias, pódios e pontos da história da categoria. Sua vida não foi de dez anos de glórias na Ferrari mantendo a dinastia Schumacher, mas suficiente para ser muito respeitado por todos no grid.
Felipe Massa e Fernando Alonso no pódio do GP do Brasil de 2006
Ferrari
O azarado
 
O terceiro caso de piloto cuja vida mudou completamente após o GP do Brasil de 2006 foi o de Alonso. Bicampeão e já tratado como um talento fora de série, esperava-se que o espanhol pudesse ser o homem a definitivamente tirar a Ferrari do poder na F1. Mais ainda, que aos poucos fosse diminuindo a vantagem de Schumacher no número de títulos. Nada disso aconteceu.
 
Em decisão que chegou a surpreender, Alonso resolveu ir para a McLaren em 2007. Por mais conturbado que tenha sido seu período em Woking, aquela pareceu ter sido sua única escolha certa desde então. Em um grande carro, o espanhol perdeu o título apenas na última prova, mas criou um imenso desgaste dentro da equipe, declarando guerra ao companheiro novato Hamilton e ao chefe Ron Dennis.
 
O resultado não poderia ter sido outro. Sem o menor clima, Alonso se viu obrigado a voltar para a Renault, tentando dar sequência a série de títulos na montadora francesa. O retorno foi fracassado, naquela que foi a primeira péssima escolha do espanhol na vida.
Fernando Alonso vibra com Giancarlo Fisichella
Renault/LAT
Longe de Alonso ser o culpado pelo insucesso, mas o espanhol tinha um carro muito limitado em suas mãos. Foi em 2008 que o espanhol chocou ainda mais o mundo com o seu talento, levando a Renault a uma vitória histórica no Japão, na base do talento puro.
 
A Renault conseguiu ficar ainda pior em 2009 e, mesmo assim, Alonso conseguiu arrumar um espaço para mostrar sua genialidade, garantindo um terceiro lugar e salvando um único pódio em Cingapura. Era, então, hora de tentar a sorte na toda poderosa Ferrari, campeã pela última vez em 2007 no acaso com Räikkönen.
 
De 2010 a 2014, Alonso viveu muitos altos e baixos com os italianos, mas raramente se viu questionado. O motivo era claro: o espanhol estava sempre na frente do companheiro Massa e, por muitas vezes, dava clara impressão de estar tirando bem mais do que a Ferrari lhe oferecia. Neste período, foram três vice-campeonatos, sempre batido pela Red Bull de Sebastian Vettel.
Toda festa de Fernando Alonso com o bicampeonato
Renault/LAT
Empolgado com o retorno da parceria com a Honda, Alonso resolveu dar uma segunda chance à McLaren e, bom, preciso dizer que foi mais uma péssima escolha? Em uma temporada miserável repleta de problemas de confiabilidade, abandonos e uma lentidão impressionante do motor, o espanhol só conseguiu pontuar duas vezes, uma delas de forma absurda na Hungria, chegando em quinto com o segundo pior carro do grid.
 
A situação da McLaren melhorou um pouco em 2016 e o "motor de GP2" que Alonso tanto criticou em 2015 virou apenas um motor ruim de F1. Com um chassi também mais acertado, a McLaren ao menos anda no pelotão intermediário, mas Alonso dá um baile no companheiro e também campeão Jenson Button.
 
A história de Alonso na F1 é daquelas que valem um livro. O espanhol não foi o supercampeão que todos esperavam, mas gera opiniões muito parecidas de todos que o acompanharam durante todos esses anos: muito acima da média, muito difícil de conviver e muito azarado nas escolhas que fez na carreira.