Galvão Bueno: ame-o ou mute-o

Sem direitos de transmissão da Indy, narrador da TV Globo ignorou decisão de Fernando Alonso de trocar GP de Mônaco pelas 500 Milhas de Indianápolis. Atitude não passou despercebida nas quase duas horas de transmissão do GP do Bahrein

André Avelar, São Paulo

A memória esportiva da maioria dos brasileiros é narrada por Galvão Bueno. Não tem jeito. Ame-o ou mute-o. É só fechar os olhos, lembrar da F1 dos velhos tempos e vem a voz de Galvão. Por tantos anos dedicados ao automobilismo, é preciso respeitá-lo. O mesmo que ele deveria ter feito com sua vasta audiência no GP do Bahrein, no último domingo (16), vencido por Sebastian Vettel. Fingir que o assunto da semana, Fernando Alonso, não vai para as 500 Milhas de Indianápolis da Indy beirou o absurdo em prol da questão comercial.

Insatisfeito com seu desempenho na McLaren e o motor Honda, ao ponto de verbalizar que “nunca correu com tão pouca potência em toda sua vida”, Alonso costurou um acordo para disputar a lendária 500 Milhas de Indianápolis. A ideia de chegar ainda mais perto dos 400 km/h motivou quem pediu justamente mais velocidade. A ida para o oval norte-americano também só foi permitida pelo ótimo relacionamento dos japoneses nas duas categorias, a influência do diretor-executivo Zac Brown, a amizade de Michael Andretti e a visão de negócio do grupo Liberty Media. Para isso, terá de preterir o igualmente mitológico GP de Mônaco.

A mudança de Alonso causou rebuliço na própria coletiva oficial de imprensa da F1. Já na última quinta-feira, no circuito de Sakhir. Todos os pilotos foram praticamente obrigados a, pelo menos, comentar a atitude do bicampeão ao longo do fim de semana. Outros ainda disseram que preferiam se arriscar em outras categorias como a MotoGP ou as 500 Milhas de Daytona da Nascar como no caso de Lewis Hamilton. Em tempos mais antigos, talvez muito sob a pesada batuta de Bernie Ecclestone, esse tipo de comentário seria impensável.

Fernando Alonso cansou de esperar brilho da McLaren na F1 e partiu para 500 Milhas de Indianápolis
Divulgação/McLaren

Daí talvez se entenda melhor a atitude de Galvão. Só fingir não bastou, em quase duas horas de transmissão na TV Globo, daria tempo para abordar o assunto com calma, mas preferiu levar os companheiros Reginaldo Leme e Luciano Burti a comentarem disputas desiguais em técnica e equipamento com os só esforçados Jolyon Palmer (Renault) e Daniil Kvyat (Toro Rosso) pela honrosa 12ª posição. Não havia nada de animado ali, como insistiam em relatar. Tanto que não demorou muito e Alonso soltou mais uma pérola via rádio.

A Indy é um produto da Band no Brasil – não que trate o campeonato como deveria, ou poderia, mas passa uma corrida e outra e retransmite as demais para o Bandsports. Tudo no melhor estilo Globo e Sportv. Mesmo quando Rubens Barrichello deixou a F1 e foi para a Indy, a categoria foi subjugada e não esteve sequer no noticiário esportivo da emissora. Nas redes sociais, território um tanto mais livre, também nada de comentários depois da corrida, que ainda são aguardados para seu programa semanal “Bem, Amigos”.

Apesar das tantas especulações, e do crescente interesse das TV a cabo, a F1 continuará sendo exibida na Globo em 2017. As provas vespertinas do México e dos Estados Unidos, que concorrem com o futebol, serão exibidas ao vivo no Sportv. Comercialmente, nada disso faz diferença já que a emissora fechou a conta máxima de seis anunciantes no valor de cerca de R$ 87,2 milhões.