Como seria o 'fair-play' de Senna com Comas hoje?

O mundo do futebol teve problemas para aceitar o 'mea-culpa' de Rodrigo Caio no clássico entre São Paulo e Corinthians. O zagueiro não escapou das críticas. Em um mundo acostumado a brigar, como a F1, por exemplo, reagiria hoje à atitude de Ayrton Senna, que salvou a vida de Érik Comas no GP da Bélgica em 1992?

André Avelar, São Paulo

A F1 se acostumou a ouvir que todo campeão precisa ter um pouco de Dick Vigarista. Como na “Corrida Maluca”, um piloto necessitaria então de uma dose extra de malandragem e até mesmo trapaça para conseguir a glória máxima do automobilismo. No universo do 'se', mas também de tamanha incompreensão, como seria entendido hoje a atitude de Ayrton Senna, quando parou seu carro para salvar a vida de Érik Comas, nos treinos para o GP da Bélgica, em 1992? O assunto, claro, remete em menor proporção ao ocorrido no mundo do futebol, no último fim de semana, incapaz de aceitar o ‘fair-play’.

No último domingo (16), no clássico entre São Paulo e Corinthians, o zagueiro Rodrigo Caio evitou que o adversário (diferente de 'rival'), Jô recebesse o cartão amarelo por um pisão que ele próprio deu no companheiro de equipe Renan Ribeiro. Amigavelmente, como prega a bandeira do ‘jogo-limpo’, o zagueiro do São Paulo comunicou ao árbitro Luiz Flávio de Oliveira o acontecido. Foi o bastante para gerar ruídos entre torcedores, colegas de equipe, dirigentes e talvez até membros da comissão técnica. Tudo porque seria preferível “ver a mãe dos outros chorando” do que a sua própria, como disse o também são-paulino Maicon.

Evidentemente que Senna salvou uma vida e, Rodrigo Caio, no máximo, evitou a suspensão de um jogador para o próximo jogo – contra o próprio São Paulo, aliás. Mas a simples atitude humana passou a ser rasteiramente julgada. Pensadores de qualquer esquina chegaram a insinuar ‘promoção’, ‘bom-samaritanismo fajuto’, ‘falta de compromisso’ e tudo mais.

Ayrton Senna abdicou de sua volta para salvar a vida de Érik Comas no GP da Bélgica em 1992
Reprodução

Nos treinos classificatórios de sexta (naquela época o grid de largada ainda era definido por uma média de tempos), Comas, alguém inclusive sem lá tantos amigos na F1, sofreu um grave acidente na curva Blanchimont, já na parte final do circuito. O piloto bateu fortemente contra a mureta de proteção, rodou para o centro da pista e, pior, ficou desacordado com o pé no acelerador. Senna foi o primeiro a passar por ali e entender a potencial explosão. Se heroísmo, ou nos dias de hoje ‘marketing’ pessoal’, abdicou de sua volta e desligou a chave central do carro da Ligier.

 

Longe de qualquer pachequismo, o próprio Senna, sempre muito obsessivo pela vitória, não figura no rol de campeões sem nenhum atrito na F1. Dos anos 2000 para cá, esses notoriamente seriam apenas Kimi Räikkönen e Jenson Button, com menção honrosa a Sebastian Vettel - até se descobrir o quão 'boca-suja' ele pode ser, principalmente, no rádio com a equipe.

Em um mundo cada vez mais acostumados com brigas, violência, "tapa na cara com responsabilidade", como também disse o jogador de futebol Felipe Melo, e guerras, é esperado que adversários se odeiem. O atual respeito mútuo de Sebastian Vettel e Lewis Hamilton chega a ser tocante. Os dois podem até mudar a relação com o avançar da temporada, e também rememorar tempos nem tão limpos assim, mas levantar a viseira do capacete um do outro para trocar meia dúzia de palavras é algo que impacta em um mundo tão voraz quanto o da F1. O normal seria devolver uma batida, jogar o carro em cima do rival, forçar a entrada de um safety-car ou até espremer o outro no muro em prol dos patrocinadores do trabalho de uma equipe ou qualquer coisa assim. 

Lewis Hamilton e Sebastian Vettel demonstram respeito mútuo apesar do ambiente da F1
Divulgação/Mercedes

Atitudes assim ainda atraem a maior parte do público. Haja visto o boom da MotoGP no Brasil depois que Valentino Rossi teria chutado Marc Márquez na etapa da Malásia, em 2015. O campeonato ganhou ainda mais atrativos além de puramente o fator competitivo. Rossi e Márquez tinham uma relação até de amizade, algo até muito próximo a Vettel e Hamilton hoje.

Os arquivos da década de 1990 pouco mostram o que Senna falou depois de salvar a vida de Comas. Provavelmente, entedesse que "fez o que deveria ser feito". O que se sabe, no entanto, é que o francês diz dever a vida ao brasileiro e reafirmou isso em diversas entrevistas. E foi além. Comas abriu mão de seu cachê para contar sua história em um comercial da Allianz Seguros no Brasil, em parceria com o Instituto Ayrton Senna. O dinheiro que seria pago ao ex-piloto foi encaminhado para financiamento de projetos mantidos pela entidade.

Ayrton Senna, herói nacional, naquela altura já tricampeão do mundo, talvez até passasse ileso das maiores críticas ao seu gesto. Mas as coisas mais mundanas estão mesmo em atitudes como as de Rodrigo Caio, como avisar que o ‘troco está errado’. E ‘para mais’.