Bottas tem potencial para ser o novo Rosberg?

Finlandês alcançou a primeira vitória na categoria, e já é possível fazer alguns comparativos com o desempenho do alemão

Renan Martins Frade, de São Paulo

Desencantou. O finlandês Valtteri Bottas levou quatro corridas na Mercedes para não só terminar um GP na frente do companheiro Lewis Hamilton, mas também para conseguir a primeira vitória da carreira na F1. Um resultado importante, principalmente após um início um pouco atribulado e o surgimento das primeiras ordens para deixar o companheiro passá-lo no GP do Bahrein – justificadas, naquele momento, por Lewis ter mais condições para lutar por posição contra Sebastian Vettel, da Ferrari. Não importa muito o motivo nestas horas: fica o gosto amargo na boca, a expressão ruim no rosto e, claro, surgem as críticas.

Mas isso é, ao menos por hora, passado. Com a vitória em Sóchi, Bottas finalmente começa a surfar na primeira onda de um grande resultado pela nova equipe. Na tabela de classificação, Valtteri está mais próximo de Lewis do que o inglês está atrás de Vettel, atual líder do campeonato. São 86 pontos para Seb, 73 para o Hamilton e 63 para o finlandês.

Agora, será que o piloto do carro #77 vai desabrochar? Afinal, o piloto tem o legado de um campeão mundial nas costas: o de Nico Rosberg.

No entanto, por mais que pareça o caminho mais fácil, não é justo com Bottas analisar o desempenho dele comparando com aquilo que o alemão fez no ano passado – o auge do piloto, após diversos anos na F1 e na Mercedes. Mas é justo, sim, olhar para o que ambos fizeram em seus primeiros quatro GPs pelas Flechas de Prata.

E, vale dizer: a comparação com um campeão mundial não é, nem nunca será, algo negativo. 

Nico Rosberg em 2010, já na Mercedes
Mercedes/Divulgação

Assim como Bottas, Rosberg assumiu um dos volantes da Mercedes após quatro anos de Williams e com o peso de dirigir um carro campeão mundial. E, também igualzinho a Valtteri, Nico tinha no carro ao lado um campeão mundial, Michael Schumacher. A diferença é que, no ano anterior, a equipe se chamava Brawn GP – e que, naquele início de 2010, os carros prateados tinham perdido o chamado ‘bonde da evolução’, sendo ultrapassados por Red Bull, McLaren e Ferrari. 

Porém, talvez para a sorte de Rosberg, aquele não era mais o Schumacher dos sete títulos mundiais. Retornando à F1 após uma aposentadoria de três temporadas, Michael sofreu naquele começo de 2010. Com isso, Rosberg largou na frente do heptacampeão nas quatro primeiras provas, incluindo uma primeira fila – no segundo lugar do grid – no GP da Malásia. Em resultados finais de corrida, Nico também ficou quatro vezes na frente de Michael, com dois terceiros e dois quintos lugares. Enquanto isso, o melhor resultado de Schumacher foi um sexto lugar no Bahrein.                                                                 

Corta para 2017. Valtteri Bottas tem ao lado um Lewis Hamilton que, ao menos aparentemente, ainda está no auge. O inglês não só nunca se aposentou da categoria, como tem a marca de ter vencido ao menos uma prova em todas as 11 temporadas da F1 que disputou. Não é pouco.

Até por isso, olhando a frieza dos números, não dá para dizer que o finlandês vem fazendo feio neste começo de ano. Dos quatro GPs já realizados, Bottas conseguiu se colocar na frente do companheiro no grid em duas oportunidades – incluindo uma pole. Em corrida, Valtteri terminou três vezes atrás (incluindo aí dois pódios) e, obviamente, conquistou a vitória na Rússia. É algo comparável ao que Rosberg fez lá em 2010.

Como você sabe, Nico e seus colegas de time tiveram que remar muito mais para fazer da Mercedes uma equipe competitiva – a primeira vitória do piloto só veio na terceira temporada pelo time, no GP da Malásia, fechando um jejum de 57 anos da Mercedes enquanto construtora. Bottas tem, agora, a pressão de ter um carro tricampeão mundial em sequência, que, se não é o mais rápido da F1, briga por vitórias de igual para igual com a Ferrari. Por isso, talvez, seja possível também comparar o atual desempenho do finlandês com aquilo que o alemão fez em 2013.

Bottas curtindo a primeira vitória
Mercedes/Divulgação

Naquela temporada, a Mercedes já tinha um grande carro – só não contava com o crescimento da Red Bull e o desempenho impecável de Sebastian Vettel, principalmente na segunda metade da temporada. De qualquer forma, foram três vitórias para o time no ano, sendo duas com Rosberg e uma com Hamilton, até então estreante pelas Flechas de Prata.

Nos quatro primeiros GP daquela temporada, Nico Rosberg ficou atrás de Lewis Hamilton no resultado final em todas elas, incluindo dois abandonos. No grid, o alemão ficou na frente do companheiro apenas uma vez, com uma pole no Bahrein. Ao final daquele ano, o placar indicava 189 pontos para Hamilton, 171 para Rosberg. Os dois ficaram longe da disputa do título do Mundial de Pilotos, mas a consistência de ambos valeu o vice do Mundial de Pilotos. De qualquer forma, na disputa interna, o inglês largou na frente. 

No início da temporada seguinte, a Mercedes já tinha um carro de outro planeta. Nico venceu na abertura, na Austrália, ajudado com um abandono de Lewis (causado por problema de motor). Porém, o inglês venceu as três corridas seguintes, enquanto o alemão ficou em segundo em todas estas provas – ajudado, também, pelo fato de todos os outros carros estarem quilômetros atrás das Mercedes.

Aquele foi o começo do domínio do piloto do carro #44, que alcançou o tricampeonato mundial em 2014 e 2015. Mas aí, em 2016, Nico Rosberg finalmente superou o inglês, conquistando o título.

Respondendo a pergunta do título desta análise: no papel, considerando os resultados dos GPs, Valtteri Bottas não deve nada ao que o antecessor fez no começo pelas Flechas de Prata. Aliás, olhando principalmente para a disputa inicial com Hamilton, Bottas também não faz feio no comparativo. Por isso, tem sim o potencial de alcançar, ao menos, as 23 vitórias e o título mundial do antecessor.

Resta saber, agora, se torcedores e alemães terão com o finlandês a mesma paciência que tiveram com o alemão – é sabido que Bottas só tem contrato até o final da temporada de 2017 e o nível de exigência, agora, é mais alto.

Dar uma continuidade ao novo piloto seria, no mínimo, o mais justo. Vamos ver.