A dois passos do precipício

Não é de hoje que a simpática equipe suíça vem enfrentando problemas que colocam em xeque sua sobrevivência no Mundial. As evidências e os últimos acontecimentos indicam que a vida da Sauber está mesmo por um fio

Fernando Silva, de Sumaré

Pode-se dizer que a Sauber é uma heroína da resistência da F1. Entre as equipes em atividade no grid do Mundial, a simpática equipe suíça é a quarta em número de largadas — só atrás das gigantes e campeoníssimas Ferrari, McLaren e Williams — com 332 GPs disputados até a etapa do Bahrein da temporada 2016, considerando o hiato entre 2006 e 2009, quando foi arrendada pela BMW. Mas o 333º GP pode não acontecer...

Há uma perspectiva real de a Sauber sequer disputar o GP da China, terceira etapa da temporada 2016, marcada para o próximo fim de semana em Xangai. Para viajar ao país de Mao-Tsé Tung e colocar Marcus Ericsson e Felipe Nasr na pista, a equipe vai ter que de correr contra o tempo para arrecadar grana, sob o risco de um vexame jamais ocorrido na história do time fundado por Peter Sauber.

De fato, não há dinheiro. A Sauber atrasou os salários de março de boa parte do time e não tem fundos para desenvolver um carro já bastante fraco, o C35. A ponto de Nasr ser sincero e falar que não há perspectivas de pontos enquanto não houver uma atualização decente para o modelo. “Há problemas claros com o carro”, disse o brasileiro, bastante insatisfeito após o GP do Bahrein. Mas é aquilo: sem dinheiro, sem novas peças.

Zak Brown, jornalista especializado em patrocínios da F1, colocou os altos custos do esporte como o maior problema na atualidade. “Os custos são, para mim, o principal e maior problema que proporciona que outros apareçam. Temos uma indústria que está crescendo muito os custos. E, coletivamente, nem todos são capazes de repor esse dinheiro e manter tudo sob controle”, escreveu.

Com poucos recursos, a Sauber não consegue oferecer carros competitivos a Ericsson e Nasr em 2016
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A crise da Sauber tem início mesmo em 2014, no ano em que a nova ‘Era Turbo’ passou a vigorar na F1. Os custos altíssimos dos novos motores híbridos, dotados de uma tecnologia muito avançada, realmente oneraram muito os cofres do time de Hinwil. Mas as razões da quase falência da Sauber vão bem além das unidades de potência caríssimas e complexas da Ferrari, que é credora do time.

Naquele ano, uma série de erros administrativos colocou a Sauber nos tribunais. No fim de semana do trágico acidente sofrido por Jules Bianchi em Suzuka, a equipe suíça havia assinado contrato com o piloto francês para 2015. Mas também tinha um acordo firmado com nada menos que outros três pilotos: Adrian Sutil, Esteban Gutiérrez e Giedo van der Garde.

Sutil e Gutiérrez formaram a dupla no fracassado ano em que a Sauber zerou na F1 pela primeira e única vez, em 2014, e foram dispensados no fim daquele ano. O então reserva Van der Garde também foi preterido depois de ter colocado milhões de euros no time por meio da marca McGregor, do seu sogro, e ficou a pé. Tudo para dar lugar aos também pagantes Felipe Nasr e Marcus Ericsson, que juntos levaram cerca de R$ 80 milhões aos combalidos cofres do time suíço.

Só que Van der Garde não se entregou e foi aos tribunais para requerer sua vaga. A situação foi tão constrangedora que, até o início da temporada 2015, ninguém sabia quem correria na Austrália, já que a justiça local deu ganho de causa ao holandês. No fim, para não perder os patrocinadores de Nasr e Ericsson, a Sauber optou por um acordo milionário, de cerca de € 15 milhões. Grana que, para um time de médio porte, é sempre bastante considerável.

Empolgado pela decisão favorável a Van der Garde, Sutil entrou na justiça contra a Sauber em 2016, num processo que ainda não teve seu veredito.

Sergio Pérez num dos últimos momentos de glória da Sauber na F1: o pódio em Sepang em 2012
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Em termos de resultados de pista, a Sauber até conseguiu ter um ano bem mais positivo do que em 2014, com Nasr abrindo a temporada num histórico e improvável quinto lugar na Austrália. Mas a sequência do campeonato mostrou que a Sauber só se sustentou em oitavo lugar no Mundial de Construtores muito mais por conta da ineficiência da McLaren e da fraqueza da Manor do que pelo seu potencial.

O fraco desempenho não inspirou patrocinadores a estamparem suas respectivas marcas nos carros suíços. A maior parte dos apoiadores do ano passado segue para este ano, mas a permanência não significa necessariamente segurança financeira. E as evidências deste ano comprovam isso: o atraso no desenvolvimento do C35 se mostrou a mais nítida de todas e veio na esteira na demora do pagamento dos salários de boa parte dos funcionários da equipe.

Cada vez são menos os patrocinadores que fazem parte da F1. O problema neste sentido não é exclusivo da Sauber: a McLaren, por exemplo, não tem um patrocinador-máster há anos. A Haas, recém-nascida na F1, só está mesmo no grid porque é apenas um braço de uma gigante da automação industrial e, desta forma, não depende de dinheiro externo.

A Renault também é bancada pelo dinheiro da montadora francesa, bem como Mercedes e Ferrari. A Red Bull consegue sustentar, com certa tranquilidade, tanto a matriz como também a Toro Rosso. A Force India, apesar de contar com seu dono em situação incerta com a justiça indiana por conta de uma dívida bilionária, consegue se manter no esporte com patrocínios sólidos, mas é sempre uma incógnita.

Assim, a Sauber parece estar no olho do furacão. Se falta dinheiro para pagar os funcionários, menos ainda tem para desenvolver o carro. 

Com pouco dinheiro da FOM de Bernie, Monisha Kaltenborn tem dificuldades para gerir a Sauber
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A situação remete um pouco a vivida pela Lotus, que enfrentou cenário parecido e constrangedor no fim de sua jornada na F1, em 2015, sendo barrada várias vezes nos paddocks no começo dos finais de semana de corrida. A equipe aurinegra teve muitas dificuldades com seu carro, que se mostrou bem nascido, mas não contou com o desenvolvimento adequado e logrou apenas o pódio de Romain Grosjean como um resultado relevante. Ao fim do ano, o time acabou sendo comprado pela Renault, que voltou à F1 como time de fábrica.

O momento da Sauber é parecido. No Bahrein, seus mecânicos sequer tiveram direito a recursos básicos como cadeiras para se sentar durante a corrida, tendo de recorrer ao chão dos boxes. Na pista, Nasr e tampouco Ericsson não conseguiram tirar nada de bom de um carro que não entrega nenhuma perspectiva e que, sendo realista, dá para apontar como o pior do grid, analisando o desempenho da Manor de Pascal Wehrlein.

É o fundo do poço? O cenário indica que sim. Só mesmo a vinda de um improvável mecenas para salvar o time, ou mesmo uma venda do controle acionário da Sauber poderá salvá-la da guilhotina. Há um certo rumor de uma negociação entre a equipe e a Ferrari, que compraria as estruturas de Hinwil para levar para lá a Alfa Romeo, sonho antigo de Sergio Marchionne. O que se cogita também é uma parceria com empresários suecos, compatriotas de Ericsson. Mas tudo, por enquanto, não passa de especulação.

Seria uma pena ver uma equipe como a Sauber, com certa tradição em revelar grandes pilotos, grande simpatia por sua origem garagista e que remete a uma F1 que quase não existe mais — dos tempos de Minardi e Ligier, por exemplo —, sucumbir a um cenário cada vez mais estrangulador do esporte atual.

Que a Sauber possa sobreviver e seguir sua trajetória no mundo da F1. Que os deuses do automobilismo digam amém.

Em ano crucial na F1, Nasr leva azar por estar na Sauber em momento de colapso financeiro
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O futuro de Nasr

Um eventual fim da Sauber como equipe seria terrível para a carreira de Felipe Nasr. O brasileiro, aliás, já enfrenta por si só um ano complicado e com poucas perspectivas de melhora. Diferente da estreia, quando o brasileiro mostrou serviço quando teve condições, embora tivesse vivido em 2015 um campeonato muito irregular, 2016 é um ano-chave, até porque muitas equipes tendem a trocar de pilotos para o ano que vem, já que boa parte dos contratos se encerra nesta temporada.

Para Nasr, era fundamental ter um carro que pudesse lhe proporcionar um desempenho decente para que fosse possível mostrar seu valor e se colocar em condições de brigar por uma vaga numa equipe melhor em 2017. Com exceção da Red Bull, oficialmente cada uma das outras dez equipes vai ter pelo menos um piloto com o fim de contrato ao fim deste ano.

Mas o fato é que a Sauber pouco pode lhe oferecer neste ano em termos de pontos, por exemplo. Sem conseguir mostrar seu melhor potencial e com grandes nomes se destacando neste começo de ano, como Romain Grosjean e Pascal Wehrlein, vai ficar muito difícil para Nasr melhorar de equipe na próxima temporada.

Mesmo levando em conta a força do patrocínio do Banco do Brasil, o momento atual não deixa de representar um grande revés ao brasileiro. O fato é que, para Nasr, a crise da Sauber veio no pior momento possível para sua carreira na F1.