Segunda vitória na F1

Se a primeira vez a gente nunca esquece, o que dizer da segunda vez no lugar mais alto do pódio? O GRANDE PREMIUM relembra dez curiosos e marcantes momentos de alguns dos principais pilotos ao longo dos anos na categoria

André Avelar, São Paulo

‘A primeira vez’, como o conhecimento popular bem diz, ‘a gente nunca esquece’. O ineditismo da coisa, a incerteza sobre o sucesso e as lembranças ainda do começo de carreira ajudam a transformar a primeira vitória na F1 em um momento especial. Algo digno de ficar mesmo na memória. Mas e depois? A partir daí, então, o lugar mais alto do pódio começa a ficar corriqueiro e sem graça? Dificilmente. O GRANDE PREMIUM reuniu dez curiosos e marcantes momentos de alguns dos principais pilotos da categoria. 

Para não fugir de outro batido, mas talvez igualmente sábio ditado, ‘chegar no topo é fácil, mas o difícil é se manter nele’. Mesmo pilotos consagrados no automobilismo conviveram com a angústia de não saber se voltariam a estourar a champanhe do alto do pódio. Fosse pelo perigo das corridas, as vitórias apagadas por decisões de títulos ou mesmo a demora, cada um destes dez pilotos esperou e curtiu bastante o momento sempre especial.

Dos 20 pilotos da atual F1, oito já venceram: Lewis Hamilton (55), Sebastian Vettel (44), Fernando Alonso (32), Kimi Räikkönen (20), Felipe Massa (11) e Daniel Ricciardo (quatro vezes) já tiveram o prazer de ouvir o hino nacional de seu país da primeira colocação; no entanto, Max Verstappen e Valtteri Bottas experimentaram essa sensação apenas em uma oportunidade e não fazem lá muito ideia de quando será a segunda oportunidade.

Nino Farina

Primeiro vencedor da F1, no Mundial de 1950, Nino Farina não venceu a corrida seguinte já nas belas ruas do Principado de Mônaco. Tampouco participou das 500 Milhas de Indianápolis e certamente teve de lidar com a ansiedade até sua segunda vitória. Em uma época muito mais aventureira da categoria, apesar da vantagem da Alfa Romeo, não era possível precisar quando esse momento marcante chegaria.

A aguardada segunda vitória veio no extinto GP da Suíça, em Bremgarten, nos arredores de Berna. A bordo do seu Alfa Romeo, – a equipe ainda tinha Juan Manuel Fangio e Luigi Fagioli inscritos para a prova – Farina tomou a ponta logo na primeira metade e fugiu dos acidentes para cruzar a linha de chegada em primeiro. O piloto italiano ainda conquistaria em casa uma terceira vitória naquele ano e se consagraria como primeiro campeão da F1, o único até hoje a comemorar o título diante de sua torcida.

 

Emerson Fittipaldi

Emerson Fittipaldi marcou época com a Lotus preta e dourada, mas a segunda vitória no até hoje um dos mais icônicos carros da história da F1 demorou a acontecer. O triunfo inaugural de uma carreira vitoriosa havia acontecido ainda em sua temporada de estreia, nos Estados Unidos, em 1970. Só depois de 15 corridas, dois anos depois, experimentou novamente o sabor de chegar em primeiro.

Já como um dos favoritos ao título que viria a se confirmar no fim do ano, Fittipaldi levou o GP da Espanha, em Jarama, o terceiro oficial do ano, ao superar as Ferrari de Jacky Ickx e Clay Regazzoni. Ainda em 1972, Fittipaldi venceu outras quatro provas e escreveu de vez seu nome na história do automobilismo.
 

 

Nelson Piquet

Enfim com um carro competitivo nas mãos, Nelson Piquet então começou a perseguir seus melhores resultados na F1. Apesar do vice-campeonato, a temporada de 1980 rendeu logo três vitórias ao piloto da Brabham e, de certa forma, tirou o Brasil de uma época de vacas magras.

Piquet experimentou o lugar mais alto do pódio pela primeira vez no chamado GP do Oeste dos Estados Unidos, nas ruas de Long Beach. Sete provas depois estava de novo a vencer com seu carro branco e azul, desta vez, no GP da Holanda – ainda levou a prova seguinte em Monza, na Itália. A vitória de Piquet, no entanto, nem foi o mais marcante dessa prova. Nela, Carlos Reutermann e Mario Andretti protagonizaram um pega sempre lembrado nos vídeos de melhores brigas da F1. Detalhe: valia a quinta posição.
 

 

 

 

Keke Rosberg

Apesar de campeão, Keke Rosberg colecionou míseras cinco vitórias ao longo de seus nove anos na F1. A habilidade e a frieza para entender que o mais importante era completar a corrida o fizeram vitorioso em 1982. Para efeito de covarde comparação, seu filho Nico deixou a categoria com igualmente um título mundial, mas 23 vitórias.

Depois de vencer pela primeira vez no ano do título, a segunda não chegou nem a ser no lugar mais alto do pódio propriamente dito, mas uma vitória perseguida por todos os pilotos do automobilismo mundial. No GP de Mônaco de 1983, as Williams apostaram em pneus para pista seca mesmo depois da chuva antes do início da prova. Deu certo. Keke saiu de quinto para segundo logo na luz verde. A partir daí, o trabalho foi manter o carro nas apertadas ruas do principado que a vitória na estratégia viria com folga. 
 

Elio de Angelis

O GP de San Marino de 1985 foi tumultuado do começo até depois do fim. A prova era a seguinte à primeira vitória de Ayrton Senna e, claro, estava cercada de expectativas pelos brasileiros. Mas quem levou a melhor mesmo foi a outra Lotus. O italiano Elio de Angelis ficou com a vitória após a desclassificação de Alain Prost. Essa foi a segunda e última vitória do piloto de 108 largadas na F1, que morreu no ano seguinte em testes na pista de Paul Ricard, na França – a primeira vitória de De Angelis havia sido ainda em 1982.

 

 

A poucas voltas do fim da corrida, Ayrton Senna e Stefan Johansson além de outros tantos tiveram problemas de combustível e ficaram pelo caminho. Alain Prost, que já havia brigado e muito pela primeira posição com o brasileiro, tomou à frente e cruzou a linha de chegada em primeiro. A alegria do francês não durou muito já que sua McLaren não tinha o mínimo de combustível exigido para completar a prova e a vitória foi dada ao então segundo colocado De Angelis. Além do talento para pilotar, o italiano também tinha enorme talento para a música.

 

Ayrton Senna

Em 1985, apenas no seu segundo ano de F1, Ayrton Senna já tinha experimentado algumas do concorrido mundo do automobilismo. Para a chance de títulos talvez tivesse consciência de que a possibilidade era remota, mas a partir da primeira vitória, no GP de Portugal, em Estoril, a gana de seguir no topo foi redobrada. Com a Lotus andando de maneira especial, parecia certo que iria buscar mais triunfos ainda naquele ano.

Com esse espírito de acumular vitórias, e um pouco também de fazer bonito, Senna chegou inspirado para o GP da Bélgica e conseguiu colocar seu carro preto e amarelo na segunda colocação do grid de largada. Aos poucos, sua fama de Rei da Chuva se espelhava e ele fazia por merecer. O piloto brasileiro sumiu na ponta e colocou quase 30 segundos de vantagem sobre Nigel Mansell, que era seguido por Alain Prost, que terminou campeão da temporada. 
 

Gerhard Berger

Gerhard Berger durante muito tempo foi pichado injustamente como apenas o ‘fiel escudeiro de Ayrton Senna’. Pode até ser, mas houve um tempo também em que se arriscava a ganhar algumas corridas. A primeira aconteceu no GP do México, de 1986. Um ano depois, também na 15ª etapa, o austríaco, já na Ferrari, abocanhou o GP do Japão, muito antes daquele episódio com Senna na linha de chegada de Suzuka.

 

 

A F1 voltava ao Japão de dez anos – anteriormente, a prova vinha acontecendo em Fuji, em alguns anos não consecutivos. Berger largou na pole-positon, mas também não teve a merecida atenção de quem toma a posição de honra do grid de largada. Em 1987, Nigel Mansell precisava bater Nelson Piquet para continuar na briga pelo título, mas um acidente ainda nos treinos o tirou da corrida e deu ao brasileiro o campeonato antes mesmo do sinal verde. Berger, que não tinha nada com isso, cruzou a linha de chegada em primeiro, com Senna em segundo e Stefan Johansson em terceiro.

Michael Schumacher

Heptacampeão mundial, Michael Schumacher venceu por incríveis 91 vezes na F1. Até hoje um recorde. Depois de muito quebrar carros, ser malfadado por especialistas em seu ano de estreia, 1992 já foi muito melhor o alemão que venceu pela primeira vez no GP da Bélgica.

Ainda de Benetton, a segunda vez demorou pouco mais de um ano para acontecer e não que tenha sido no momento errado, mas pouco foi lembrada depois que cruzou a linha de chegada. O GP de Portugal de 1993 marcou o quarto título mundial de Alain Prost e a confirmação de sua aposentadoria da F1. O campeão não defenderia o título no ano seguinte e, mais, abriria a vaga para Ayrton Senna na Williams.

 

 

 

Rubens Barrichello

O GP da Europa de 2002 foi uma das provas marcantes de Rubens Barrichello ao longo de sua extensa carreira na F1. O brasileiro se aproveitou da melhor estratégia de pit stops da Ferrari e ultrapassou Juan Pablo Montoya e Ralf Schumacher (ambos de Williams) além do próprio Michael Schumacher na primeira volta para não perder mais a ponta.

Depois da épica vitória no GP da Alemanha de 2000, a já conhecida ‘sambadinha’ no lugar mais alto do pódio estava quase sendo esquecida. O jejum de 32 corridas passava a incomodar o piloto mesmo sabendo da difícil concorrência nos boxes da própria escuderia italiana.

A prova no novo traçado de Nürburgring era próxima da semifinal da Copa do Mundo. Brasil e Alemanha se encaminhavam para a final e a havia a disputa era para ver quem levaria o pentacampeonato primeiro: a seleção brasileira ou Michael Schumacher. Naquela oportunidade, deu Brasil. Foi nessa corrida também que Felipe Massa teria se recusado a ceder sua sexta posição para o companheiro de Sauber Nick Heidfeld.
 

 

Felipe Massa

O jejum de Felipe Massa não foi tão longo quanto o de Rubens Barrichello. A segunda vitória do piloto foi ainda no mesmo ano da primeira e teve sabor mais do que especial por ser diante dos olhos da sua torcida. Depois de vencer o GP da Turquia, o naquele momento novo ferrarista precisou de apenas mais quatro provas para levar a melhor no GP do Brasil de 2006.

Com um macacão estilizado em verde-amarelo, o piloto largou na pole e de cara não deu chances para quem lhe tomassem a vitória. O espanhol Fernando Alonso sagrou-se bicampeão e Michael Schumacher confirmava sua primeira aposentadoria da F1. Naquela oportunidade, Massa se tornou apenas o quinto brasileiro a vencer em casa – ao lado de José Carlos Pace, Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna.