Os destaques da etapa de abertura da Stock Car

Sob nova direção, a Stock Car começou a escrever a história da sua 39ª temporada com um pouco de tudo em Goiânia: novidades, grandes corridas, belas disputas, uma performance irretocável e um desfecho emocionante

Fernando Silva, de Sumaré
 

Cercada de expectativa, a Stock Car abriu a temporada 2017, a 39ª da sua história, com muitas mudanças em todos os sentidos. No comando da principal categoria do automobilismo brasileiro, Maurício Slaviero deixou a direção da Vicar e passou o bastão ao jovem Rodrigo Mathias, que chega ao esporte oriundo da indústria do entretenimento com muitas boas ideias para tornar a Stock Car ainda melhor e mais atraente aos fãs, pilotos, equipes e patrocinadores.

Na pista, a maioria do grid mudou de casa em 2017, o que tornou a ordem de forças ainda mais imprevisível do que geralmente costuma ser. Por fim, mudanças no formato do treino classificatório e também das rodadas duplas buscaram tornar a competição mais justa. Além da adoção do ledpush, criado para ajudar o fã a entender melhor as corridas em si durante o acionamento do botão de ultrapassagem.

O começo de temporada, diga-se de passagem, foi altamente positivo e teve tudo o que o amante do automobilismo gosta: grandes corridas, ótimos duelos, ultrapassagens e emoção, muita emoção, como foi a vitória de Ricardo Zonta na segunda prova no fim de semana. O paranaense foi um dos grandes nomes em Goiânia. Mas o maior deles foi Daniel Serra, que estreou na RC Eurofarma como se já conhecesse a equipe de Rosinei Campos, o 'Meinha', há anos. Serra brilhou em Goiânia e começou a 2017 na liderança do campeonato.

A seguir, o GRANDE PREMIUM lista o que viu de melhor no fim de semana que marcou a etapa de abertura da Stock Car, que apresentou a perspectiva de um 2017 pra lá de empolgante. 


10) Até o clima ajudou!
 

O fim de semana na sempre quente Goiânia teve rompantes de sol e chuva, muita chuva. Além da Stock Car, o Brasileiro de Turismo e também o Mercedes-Benz Challenge fizeram suas provas de abertura do campeonato no Autódromo Internacional Ayrton Senna, mas os certames que fazem parte do rol de eventos da Stock Car chegaram a pegar chuva durante suas atividades de pista, o que não aconteceu com a principal categoria do Brasil.

Não faz muito tempo assim que Goiânia recebeu uma rodada dupla da Stock Car com muita chuva. Foi em novembro do ano passado, quando Felipe Fraga e Rubens Barrichello venceram as corridas. Foram duas boas provas, com uma emoção a mais para quem esteve nas arquibancadas assistindo, embora chuva seja sempre um drama para os pilotos em razão da visibilidade comprometida dos carros em tais condições.

No último fim de semana, nada de prova no molhado. As duas corridas foram igualmente empolgantes e, numa análise geral conferindo os comentários dos fãs por meio das redes sociais, agradaram muito, indicando que a temporada 2017 da Stock Car tende ser tão ou até mais emocionante em relação aos últimos anos.
 

9) Novas regras caíram bem
 

Havia certa ansiedade para ver como o novo formato de classificação e também das corridas seria na prática a partir de Goiânia. Durante conversa prévia com alguns dos pilotos do grid, deu para notar que a expectativa era muito boa, sobretudo porque a tendência das novas regras era deixar o esporte mais justo. E foi exatamente o que se viu na abertura do campeonato.

Durante o treino classificatório, dividir a sessão em três segmentos dá chances parecidas para todos, além de tornar a sessão mais dinâmica e gostosa de assistir. Antes, era comum aos pilotos do Grupo 1 — os mais mal posicionados na tabela de classificação do campeonato — enfrentarem maiores dificuldades com a temperatura da pista, por exemplo, enquanto o grupo dos ponteiros levava um pouco mais de vantagem em tal quesito.

A reunião de 15 pilotos em cada um dos dois grupos no Q1 ajudou a equilibrar um pouco mais as coisas. O tempo de pista para cada um deles, com os oito minutos de duração do segmento, aumentou um pouco, dando mais chance de uma ou outra tentativa de volta rápida. O formato do Q2 também agradou, bem como a batalha final pela pole no Q3, que praticamente não permite erros. Assim, acaba sendo premiado o piloto com maior domínio do carro e da mente.

As rodadas duplas de igual duração também agradaram muito. É muito bom oferecer ao fã um tempo maior de corrida, além também de ajudar aos pilotos quanto ao tempo de exposição das marcas em seus respectivos carros.

Antes, sobretudo a corrida 2, ficava muito desvalorizada e com um tempo muito restrito, que não raramente era comprometido pelas bandeiras amarelas e intervenções do safety-car. A obrigatoriedade de pit-stop nas duas corridas também tornou a disputa mais justa e, embora ainda haja influência da estratégia — como foi visto na vitória histórica de Ricardo Zonta —, o mais importante continua sendo o pé embaixo e o melhor desempenho.

O Ledpush é uma das boas novidades da Stock Car para 2017
Duda Bairros/Vicar

8) Ledpush: outro grande acerto
 

Uma das novidades da Stock Car para 2017 foi a adoção do Ledpush: um dispositivo de led que fica aceso, na cor verde, para indicar quando um piloto está acionando o botão de ultrapassagem.

O objetivo foi cumprido à risca, já que ficou mesmo muito mais fácil para o público nas arquibancadas e também para quem acompanhou as corridas na TV entender um pouco da dinâmica e da estratégia de cada piloto.

Foi outro grande acerto da Stock Car na sua busca por tornar o esporte mais próximo dos fãs e também mais fácil de ser compreendido. É uma medida relativamente simples, mas que já mostrou ser muito inteligente.


7) Duas corridas excelentes
 

Mesmo em meio a tantas mudanças, a Stock Car manteve a essência que a tornou, há algum tempo, uma das categorias mais competitivas e imprevisíveis do automobilismo mundial. A rodada dupla de Goiânia entregou corridas com um alto nível técnico e com tudo o que o fã do esporte mais adora: grandes disputas na pista, ultrapassagens, estratégias e tudo mais.

A vitória dominante de Serrinha na corrida 1 em Goiânia nem por isso tornou a prova entediante. Foram muitas as batalhas por posição desde a primeira volta, quando ocorreu um incidente envolvendo vários carros e acabou mudando até a dinâmica da rodada dupla em si.

Guilherme Salas e Felipe Fraga travaram uma boa briga durante algumas voltas, César Ramos apareceu muito bem na estreia da Blau Motorsport, assim como Átila Abreu no retorno à TMG; os Cavaleiro de Rafael Suzuki e Felipe Lapenna também andaram bem e Tuka Rocha beliscou um top-10 na estreia com a RCM. Sem se esquecer de Thiago Camilo, o único que conseguiu fazer frente aos carros da Eurofarma.

A corrida 2 foi incrível porque fez ressurgir uma série de pilotos envolvidos no incidente da primeira volta da prova que abriu a rodada dupla: Allam Khodair e Rubens Barrichello tiveram grandes provas e recuperação, confirmando a força da Full Time na estratégia. Serrinha e Max Wilson fizeram uma prova segura para somar o máximo possível de pontos, enquanto pilotos como Fraga e Tuka lutaram pela dianteira.

Mas o grande momento da disputa foi nas voltas finais com a empolgante batalha entre os colegas de TMG/Shell Racing, Átila e Zonta, pela vitória, que acabou ficando com o veterano paranaense, de uma forma incrível — partindo de 25º depois de se envolver no incidente na corrida 1 — e emocionante.

A Stock Car começou mesmo com tudo 2017.
 

6) Grid ainda mais encorpado e próximo
 

A insana dança das cadeiras da Stock Car para 2017 ajudou, de certa forma, a deixar o grid ainda mais equilibrado. Apenas oito dos 30 pilotos não mudaram de casa nesta temporada. Aos que trocaram de equipe, o grande desafio logo de cara é a adaptação ao trabalho e metodologia do novo time, e isso sempre costuma levar algum tempo.

Em conversa com a reportagem do GRANDE PREMIUM em Goiânia, Antonio Pizzonia, hoje na RX Mattheis/Prati-Donaduzzi, disse que esse tempo pode levar de três a quatro corridas. Claro que é algo muito relativo e pode variar dependendo de cada piloto e/ou equipe.

Assim, esse processo de adaptação ajuda a nivelar ainda mais o grid da Stock Car. Até mesmo levando em conta esse período de transição, é de se destacar a enorme performance de Serrinha em Goiânia, guiando pela RC como se já fizesse parte da equipe de Rosinei Campos, o ‘Meinha’, há anos.

Ressalte-se também a chegada merecida de Márcio Campos à Stock Car depois de dois anos vitoriosos no Brasileiro de Turismo. Claro que o gaúcho vai levar um tempo para se adaptar à pilotagem sempre exigente de um carro da Stock Car, mas em breve Campos vai conseguir apresentar bom trabalho neste começo seu de trajetória na categoria com a nova Blau Motorsport.

Thiago Camilo foi um dos muitos a mudar de casa em 2017. Um ano que começou bem
Carsten Horst/Hyset

5) O bom começo de Thiago Camilo
 

Não que fosse necessariamente uma surpresa, mas é preciso salientar o bom começo de trabalho de Thiago Camilo na A.Mattheis/Ipiranga. Depois de correr nas últimas seis temporadas pela RCM, time chefiado por ‘Meinha’ e André Bragantini, Camilo se mudou para a equipe baseada em Petrópolis e comandada por outra lenda da Stock Car: Andreas Mattheis. Na prática, Camilo sucedeu ninguém menos que Cacá Bueno na escuderia que abrigava a estrutura da Red Bull até o ano passado.

A performance avassaladora de Daniel Serra em praticamente todo o fim de semana não ofuscou o trabalho de Camilo. Muito pelo contrário. A classificação foi bastante boa, com Thiago largando só atrás dos carros da Eurofarma de Serrinha e Max Wilson e partindo ao lado do seu parceiro de equipe, Galid Osman.

Durante a corrida 1, Camilo teve um excelente ritmo e sempre andou ali perto do carro #29 de Serra, chegando até mesmo a esboçar uma pressão nas voltas finais, terminando em segundo e somando preciosos pontos. Na segunda prova, Thiago andou ali no rol dos dez primeiros o tempo todo para se garantir em oitavo, resultado que o coloca em quarto no campeonato. Sem dúvidas, um começo bastante promissor de jornada para Thiago Camilo na A.Mattheis.


4) A força amarela
 

Quem esperava ver o ‘quarteto fantástico’ da Cimed sendo protagonista da etapa de abertura da Stock Car talvez possa ter se surpreendido com o amplo domínio dos carros da Eurofarma em Goiânia. Mas, levando a experiência dos seus pilotos remanescentes, Max Wilson e Ricardo Maurício, além da chegada de um ultramotivado Daniel Serra em 2017, os comandados por ‘Meinha’ tiveram um fim de semana para ser lembrado por muito tempo.

A dobradinha da Eurofarma na corrida 1 só não se concretizou porque Thiago Camilo estava inspirado e se colocou ali entre Serra e Wilson para ir ao pódio. Mas a equipe paranaense encaixou nada menos que três carros nas quatro primeiras posições com Ricardo Maurício em quarto. A força dos carros da RC/RCM se refletiu também na segunda corrida.

Wilson, bastante consistente, conseguiu alcançar o segundo pódio na rodada dupla, enquanto Serra optou por somar pontos importantes com o sexto lugar. O resultado dos carros da Eurofarma só não foi melhor porque Maurício foi envolvido em um incidente com César Ramos no início da corrida 2. Do contrário, fatalmente estaria bem melhor colocado. Claro que é apenas o começo e que forças da Stock Car como Cimed, Full Time, TMG/Shell Racing e mesmo a A.Mattheis vão andar bem e faturar vitórias ao longo do ano. Mas é inegável que o trabalho dos comandados de ‘Meinha’ impressionou neste começo de temporada.
 

Renovada e reforçada, a TMG/Shell Racing fechou a rodada de Goiânia com dobradinha
José Mário Dias/Shell Racing

3) Dobradinha da TMG/Shell Racing 
 

A TMG teve de lidar com uma grande reviravolta na sua trajetória no fim do ano passado. Depois de um ano de reconstrução após a saída de dois sócios, Thiago Meneghel assumiu sozinho a condução do time, que mudou de nome: de AMG para TMG. Tendo como grande referência no ano passado o experiente Valdeno Brito, a reformulada equipe chegou a flertar com as vitórias e conquistou cinco pódios. Faltou muito pouco para o time sediado em Americana vencer novamente na Stock Car.

Contudo, no fim de 2016, a TMG teve uma notícia que serviu como um divisor de águas. A Shell Racing, que estava de partida da equipe de Rodolpho Mattheis, fechou acordo com Meneghel para ser a principal patrocinadora do time a partir de 2017. Assim, a equipe passou a ter muito mais segurança e poder de investimento para se colocar não somente como candidata às vitórias, mas até mesmo ao título.

Claro, todo benefício traz sua cobrança, e Meneghel, experiente que é, sabe bem disso. Mas o engenheiro conseguiu fazer um grande trabalho com sua equipe durante a pré-temporada na oficina em Americana e solidificou um time vencedor. Faltava somente uma grande conquista nas pistas para representar o novo momento. E essa conquista veio em grande estilo logo na abertura da temporada.

A dobradinha entre Ricardo Zonta e Átila Abreu na corrida 2 em Goiânia coroa a nova fase de uma equipe valente, formada por dois grandes e experientes pilotos, além de um chefe batalhador e capaz de converter muito trabalho em vitórias. O triunfo de Zonta veio na esteira de uma estratégia certeira, mas que só funcionou graças a muito entrosamento nos boxes. E o segundo lugar de Átila consolidou a performance sólida do sorocabano, que só não venceu porque Zonta estava em um dia pra lá de iluminado.

2017 começou com a certeza de que a TMG/Shell Racing também vai estar ali no rol das grandes para buscar algo a mais. Mais um indicativo de uma temporada pra lá de acirrada na Stock Car.


2) A supremacia Serra


Não há dúvidas de que o grande nome da Stock Car no fim de semana em Goiânia foi mesmo Daniel Serra. Como se já estivesse correndo pela equipe de ‘Meinha’ há tempos, o paulista só faltou fazer chover. Líder dos dois treinos extras e também da primeira sessão livre propriamente dita, Serrinha só foi batido por Max Wilson no segundo treino. Na classificação, Daniel foi avassalador ao liderar os três segmentos da definição do grid de largada, garantindo a pole sem sustos.

Seu começo de jornada na RC Eurofarma em muito se assemelhou ao início da sua trajetória na Red Bull. Há quase dez anos, em abril de 2007, Serrinha estreava na Stock Car como piloto da Red Bull em Interlagos. E, logo de cara, desbancou favoritos e experientes adversários para aturar a pole. Na corrida de debute, Daniel foi terceiro.

Experiente que é, Serrinha sabia que uma das chaves para fechar uma estreia perfeita pela RC era ter uma boa largada. E assim foi. Desde o início, o #29 exerceu uma liderança segura, que só mudou de mãos durante o período de janela para o pit-stop obrigatório. Nas voltas finais, mesmo com a pressão esboçada por Camilo, Serra controlou a vantagem para vencer a primeira corrida do ano.

Um desempenho acachapante: supremacia na classificação, corrida segura, vitória quase de ponta a ponta e, por fim, a volta mais rápida da primeira prova do fim de semana. A jornada na segunda corrida serviria para somar o maior número possível de pontos. Largando de décimo em razão da regra do grid invertido, Serrinha não comprometeu e fez o feijão com arroz. Garantiu um bom sexto lugar e fechou a primeira rodada dupla na liderança do campeonato, com 40 pontos.

Com tantos pilotos de alto nível no grid da Stock Car, é precipitado demais apontar Serra desde já como grande favorito ao título. A temporada está só começando. Mas não há dúvidas de que Daniel vai estar ali na briga até o fim.        
      

1) A vitória apoteótica de Ricardo Zonta
 

O desfecho da rodada dupla de Goiânia foi nada menos que apoteótico. Quase ninguém poderia imaginar que um piloto poderia vencer a prova largando lá atrás, da 25ª posição. Ricardo Zonta foi um dos envolvidos no incidente na primeira volta da corrida 1 e teve parte da suspensão traseira avariada. A TMG trabalhou muito duro para fazer com que Zonta tivesse a chance de pelo menos fazer a segunda corrida. O esforço deu certo.

O paranaense ainda conseguiu voltar à pista para fazer voltas de verificação, abasteceu e se preparou para a segunda corrida. E, desde o começo, Zonta mostrou um ótimo ritmo, fazendo várias ultrapassagens desde a largada, se colocando ali na condição de somar bons pontos. Mas, até o período da janela para pit-stop obrigatório, uma vitória sequer era cogitada.

Zonta, como todos os pilotos na pista, fez sua parada. Mas como já tinha feito o reabastecimento na corrida 1, só cumpriu com o procedimento obrigatório, com o encaixe do tanque no seu carro para logo voltar à pista. Nesse tempo, Zonta ganhou cerca de 10s, diferença em relação aos pilotos que tiveram de reabastecer. O principal deles era o então líder e seu companheiro de equipe, Átila Abreu. A grande surpresa foi que Zonta voltou à frente de todo mundo. Com pneus menos gastos, o curitibano tinha uma performance irretocável e, após duelar incessantemente com Átila por algumas voltas, confirmou a liderança e partiu para uma vitória até então inimaginável no começo da prova.

Foi uma vitória emblemática em vários sentidos. Antes de tudo, Zonta chegou a Goiânia para fazer uma homenagem ao sobrinho Billy Zonta Gabardo, que não resistiu após lutar por sete anos contra um câncer raro e agressivo. Zonta homenageou o sobrinho com a pintura com a qual ele usava no seu capacete nas corridas da Sprint Race e também do regional paranaense. Com o espírito de luta de Billy, Ricardo se superou com um grande triunfo.

Triunfo que veio para quebrar uma série de mais de três anos sem vitória. A última (e até então primeira) vez de Zonta no topo do pódio foi na Corrida do Milhão de 2013, em Interlagos. Desde então, Ricardo marcou quatro pódios na Stock Car. Até abrir a temporada 2017 da melhor forma. Com vitória logo na estreia pela TMG, Zonta quebrou de vez o jejum e coroou sua jornada em Goiânia com o talento que marcou sua longa e bem-sucedida carreira nas pistas. E com uma boa dose de emoção.

Ricardo Zonta festeja uma vitória marcada pela emoção em Goiânia
José Mário Dias/Shell Racing