Dez momentos marcantes da Stock Car em 2016

Ao menos quando o assunto é a Stock Car, 2016 vai deixar saudades para muita gente. A última temporada reservou momentos que vão ficar por um bom tempo na retina do fã do esporte. Impossível, por exemplo, esquecer dos grandes duelos entre Felipe Fraga e Rubens Barrichello

Fernando Silva, de Sumaré

Enfim, 2016 se foi. Um ano intenso e difícil, sem sombra de dúvidas, que trouxe uma série de perdas e marcas que dificilmente serão cicatrizadas. Mas quando se trata de Stock Car, a sensação, quando se olha para trás, é que a última temporada teve momentos inesquecíveis e que vão ficar na retina do fã do automobilismo e de muitos pilotos do grid.

Como esquecer, por exemplo, de Guilherme Salas ajudando Ricardo Maurício a largar na pole da Corrida de Duplas, indo às lágrimas depois do feito? E as vitórias sofridas de Thiago Camilo e Átila Abreu? Os duelos entre Rubens Barrichello e Felipe Fraga ficarão vivos na lembrança de muitos por um bom tempo, assim como o histórico título conquistado pelo jovem piloto da Cimed em Interlagos, há pouco menos de um mês.

Estamos há exatos quatro meses do começo da temporada 2017. Uma temporada que será marcada pela imprevisibilidade depois de uma intensa ‘dança das cadeiras’ que levou a maioria do grid, seja equipes, pilotos e patrocinadores, a mudar de lugar neste novo ano. Tudo desencadeado pelo anúncio-bomba da saída da Red Bull da Stock Car no último campeonato.

De fato, o anúncio da retirada de uma das equipes mais vitoriosas da categoria na última década faz parte da lista que o GRANDE PRÊMIUM preparou sobre os dez momentos marcantes da temporada 2016 da Stock Car em um ano que, ao menos para o esporte, foi de muita coisa boa. 

A Stock Car teve grandes momentos em 2016: o GRANDE PREMIUM traz os dez melhores
Bruno Terena/Red Bull Content Pool

10) Pole de Salas e Ricardinho na Corrida de Duplas em Curitiba

Ao lado do jovem e talentoso Guilherme Salas, Ricardo Maurício, dono do carro #90 da RC Eurofarma, comemorou a pole-position da Corrida de Duplas que abriu a temporada 2016 da Stock Car, em Curitiba. A dupla apostou no equilíbrio e conquistou boas voltas tanto com Ricardinho, como também com Salas. No regulamento que compreende a média de tempos entre titulares e convidados, a dupla  cravou a pole-position. Ao fim da classificação e durante a comemoração, Salas não escondeu as lágrimas de emoção pela conquista. Foi um belo cartão de visitas do piloto de Jundiaí, que fez as três últimas etapas do ano correndo (muito bem, aliás), pela RZ Motorsport.

Guilherme Salas vibra ao lado de Ricardo Maurício com a pole em Curitiba na Corrida de Duplas
Duda Bairros/Vicar

9) Camilo inicia despedida da RCM com vitória redentora

Thiago Camilo faz parte do rol dos grandes pilotos do grid da Stock Car. Mas o paulista vivia um 2016 bastante difícil, marcado por uma série de azares, como em Cascavel, onde perdeu uma vitória quase certa em razão de uma pane no seu carro na última volta. No fim de semana em que anunciou a saída da RCM para correr junto com Galid Osman, com o patrocínio da Ipiranga, na equipe chefiada por Andreas Mattheis, Camilo viveu um ponto de virada importante no ano. Com direito a uma vitória na raça em Curitiba.

A corrida 2 tinha a cara de Rubens Barrichello, que fez tudo certo no quesito estratégia e partia para mais uma vitória na temporada. Mas a entrada do safety-car — em razão da batida de Felipe Lapenna — no fim da corrida, juntou todo o grid e proporcionou a Camilo, que tinha excelente ritmo, se aproximar de Rubens, que já estava 7s à frente do restante do pelotão. Em meio a todo o azar vivido em 2016, Camilo finalmente sentiu o gostinho da sorte. Com uma ultrapassagem restando duas voltas para a bandeirada final, Thiago conquistou a liderança e partiu rumo à sua única vitória em 2016.

Foi também a 21ª vitória do #21 na categoria. Um belo começo de despedida da equipe chefiada por André Bragantini Jr. Outro grande momento da Stock Car em 2016.

Thiago Camilo conquistou uma vitória redentora no início do seu adeus à RCM
Fábio Davini/Vicar

8) No peito, na raça e no sufoco, Átila triunfa em Goiânia

O desfecho da rodada dupla de Goiânia, a décima da temporada, foi uma espécie de síntese do campeonato: empolgante e imprevisível do início ao fim. Átila Abreu, que largou em nono lugar e aproveitou um erro do pole Lucas Foresti ainda na primeira volta, conseguiu o que poucos esperavam, talvez nem ele: fazer as duas corridas sem reabastecer. Assim, o sorocabano conseguiu se segurar após uma pressão final de Thiago Camilo para garantir sua primeira e única vitória na temporada, voltando a triunfar após conquistar a última corrida de 2015, em Interlagos. Nada menos que seis pilotos enfrentaram pane seca na volta derradeira da prova.

“Sabia que precisava do safety-car para aguentar até o fim sem reabastecer. Mas ele não veio. Abri a última volta com o painel informando falta de combustível já, mas felizmente aguentou até o fim e conseguimos vencer. A sensação de fazer as duas últimas voltas sem ter a certeza de que você vai chegar até o fim foi traumática”, descreveu o sorocabano.

No peito e na raça, Átila venceu a corrida 2 da etapa chuvosa de Goiânia em novembro
Carsten Horst/Hyset/RF1

7) Barrichello vence ao melhor ‘estilo Nascar’ em Cascavel

A última corrida da Stock Car antes da pausa para o período dos Jogos Olímpicos do Rio foi empolgante e com um fim surpreendente. O desfecho da rodada dupla de Cascavel indicava a vitória de Thiago Camilo, que abriu a volta final na frente. Mas uma pane no carro #21 do piloto da RCM fez o triunfo cair no colo de Allam Khodair, que vinha logo atrás, seguido bem de perto por Rubens Barrichello. Mas o imponderável, sempre ele, aprontou novamente das suas no Autódromo Zilmar Beux.

Nos metros finais, quase na linha de chegada, acabou o combustível de Khodair. Em um último esforço, Barrichello fez a ultrapassagem sobre o colega de Full Time centímetros antes da linha de chegada, terminando 0s081 à frente do ‘Japonês Voador’. Um desfecho no melhor estilo Nascar em Cascavel.

“Não dá para acreditar que a gente teve essa chance. Para falar a verdade, não a teríamos se o Thiago tivesse terminado a prova, porque ele estava absoluto. Quando disseram que eu era terceiro, respondi que parecia 20º porque tinha muita gente à frente. Vi que passei por um carro amarelo, mas estava focado em acionar o push na hora certa para passar o Allam e nem tinha certeza sobre o Thiago. Foi quando a equipe entrou no rádio e avisou que a vitória estava entre nós dois. Dei o push um pouco mais tarde na reta que antecede a chegada porque sabia que poderia sair da curva final com mais velocidade. Foi isso que me deu a vitória porque ele também teve falta de combustível na linha de chegada e meu carro passou por milésimos de segundo”, descreveu Barrichello após uma vitória emblemática no Oeste do Paraná.

Que chegada sensacional a Stock Car vivenciou na corrida 2 em Cascavel!
Reprodução

6) Stock Car chega a Minas Gerais

Pela primeira vez em 37 anos, desde que a Stock Car passou a ser disputada, a categoria teve a chance de correr em Minas Gerais. Depois de anos de construção e muita expectativa, o novíssimo Circuito dos Cristais, em Curvelo, cidade distante cerca de 150 km de Belo Horizonte, foi palco da penúltima etapa da temporada. A Stock Car, que foi para terras mineiras ao lado do Brasileiro de Turismo e do Brasileiro de Marcas, arrastou uma multidão tanto no sábado quanto no domingo. Os fãs estavam sedentos por automobilismo de qualidade naqueles dias de novembro em Curvelo.

Mas não foi um começo de jornada fácil no Circuito dos Cristais. O traçado foi muito elogiado pelos pilotos, mas a estrutura da pista ainda carecia de alguns reparos e melhorias nas áreas de escape. Para piorar, a chuva deu as caras com força na sexta-feira que abriu os trabalhos em Curvelo. Sem o maior conhecimento da pista, muitos pilotos bateram e deram susto, casos de Guga Lima, Daniel Serra e Galid Osman. No sábado, durante o segundo treino livre, houve uma interrupção de mais de uma hora justamente para que fossem feitos reparos de emergência nas áreas de escape para deixar as condições mais seguras aos pilotos.

No fim das contas, não só as provas da Stock Car, mas também das outras categorias, todas elas ocorreram sem maiores acidentes. Foram duas grandes corridas, aliás. Uma delas foi vencida pelo pole, Felipe Fraga. A outra ganhou um desfecho dramático. A sorte que acompanhou Barrichello em Cascavel, desta vez lhe deixou literalmente a pé...

5) Drama de Barrichello nos metros finais em Curvelo

A corrida 2 da rodada dupla da Stock Car em Curvelo foi modorrenta durante quase toda sua duração. Mas nas últimas voltas, quando muitos pilotos decidiram entrar nos boxes para fazer o reabastecimento e outros ousaram em seguir na pista mesmo sem colocar combustível para ir até o fim, tudo mudou. Rubens Barrichello abriu a última volta da prova na frente, seguido por Ricardo Maurício e Tuka Rocha. Depois de um embate entre Ricardinho e Tuka, Barrichello parecia ter a vitória sob controle.

Mas, com requintes de crueldade e na última curva, acabou a gasolina de Barrichello, que ficou parado pouco antes da linha de chegada. Assim, Maurício venceu a prova, chegando ao seu primeiro triunfo na temporada, com Tuka em segundo e Daniel Serra fechando o pódio. Na reta dos boxes, Barrichello era aplaudido pelo público, mas olhava incrédulo para o carro tentando entender o que havia acontecido. O duríssimo revés em Curvelo praticamente jogou uma pá de cal nas suas pretensões de chegar ao bicampeonato em 2016.
 

Drama nos metros finais: Barrichello perde vitória por pane seca em Curvelo
Fernanda Freixosa/Vicar

4) A ultrapassagem do ano: Valdeno dá show no molhado em Goiânia

Valdeno Brito foi um dos grandes nomes da temporada 2016 da Stock Car. O paraibano não venceu, mas isso não invalida sua bela campanha ao longo do campeonato. Um dos melhores momentos do piloto, que defendeu a TMG, equipe de Thiago Meneghel, em 2016, foi na etapa realizada em novembro, em Goiânia.

Foi um fim de semana atípico no Planalto Central em razão da chuva que desabou na região do Autódromo Internacional Ayrton Senna, tornando as condições bem mais desafiadoras aos pilotos. Mostrando toda a sua perícia e talento no molhado, Valdeno foi um dos que sobressaíram em Goiânia. Com direito a uma ultrapassagem incrível que, no fim do ano, foi eleita a melhor de toda a temporada.

No molhado, Valdeno não se intimidou e, depois de passar Rubens Barrichello e Diego Nunes na reta, ficou lado a lado com Julio Campos no curvão e usou até a grama, arriscando tudo, para ganhar a posição do piloto da C2, completando uma enorme manobra que levantou o público nas arquibancadas e também diante das televisões ao redor do Brasil.

3) Duelo de gerações entre Barrichello e Fraga na Corrida do Milhão

A luta pelo prêmio de R$ 1 milhão foi um verdadeiro duelo de gerações: de um lado, Rubens Barrichello, que aos 44 anos buscava seu segundo Milhão depois de ter vencido a principal prova da Stock Car em 2014. Do outro, estava o líder da temporada, grande destaque do ano e franco favorito ao título. Felipe Fraga, aos 21 anos, vem se acostumando a quebrar recordes na Stock Car. Pouco mais de dois anos e meio após ter se tornado o mais jovem vencedor da história da categoria, então com 18 anos, o tocantinense voltou a brilhar e levou a melhor na batalha contra Barrichello em uma Corrida do Milhão empolgante do início ao fim, garantindo a premiação milionária pela primeira vez por apenas 0s411 diante de um público de mais de 40 mil pessoas.

Barrichello largou na pole, mas passou a ser seguido de perto por Fraga depois que o jovem ganhou as posições de Marcos Gomes e Ricardo Maurício, que se enroscaram no S do Senna. Com o desempenho excelente do melhor carro do grid, Fraga adotou a estratégia de acionamento do push-to-pass, trocando incessantemente de posição com Barrichello. Até que, depois de ganhar a posição do veterano na saída da Curva do Lago, Felipe não foi mais superado.

Mas Barrichello não se entregou e tratou de fazer seu carro crescer nos retrovisores de Fraga, a ponto de a diferença na bandeira quadriculada ser mínima, meros 0s4. O bastante, porém, para o jovem se tornar o novo milionário da Stock Car e, de quebra, dar um passo fundamental rumo ao título da temporada.

2) Red Bull anuncia saída da Stock Car

Às vésperas da Corrida do Milhão, a prova mais importante da temporada da Stock Car, a categoria sofreu um terrível baque. A Red Bull anunciava, no começo de setembro, sua saída da maior categoria do automobilismo brasileiro ao fim de 2016. Cacá Bueno e Daniel Serra tiveram de encontrar novos rumos para suas carreiras. A decisão taurina provocou um sem número de mudanças no grid da Stock Car, na maior ‘dança das cadeiras’ já vivida pela categoria na década.

Em dez anos no grid, o time chefiado por Andreas Mattheis conquistou 28 vitórias, 27 poles, dois títulos de equipes e três de pilotos. Contudo, a decisão da marca austríaca dos energéticos foi de manter apenas os patrocínios a Cacá Bueno, que se transferiu para a Cimed, e também a Felipe Fraga. Daniel Serra, que correu pela Red Bull desde o começo da sua jornada na categoria, buscou um novo rumo e assinou com a RC Eurofarma, de Rosinei Campos, o ‘Meinha’.

A icônica marca do touro vermelho deixou a Stock Car da melhor forma: no topo do pódio com Serrinha.

Das 28 vitórias conquistadas na Stock Car, Daniel faturou 12 neste período entre 2007 e 2016 e largou na frente em cinco oportunidades. Cacá venceu 15 corridas e alcançou 22 poles, além de faturar os títulos em 2009, 2011 e 2012, enquanto Hoover Orsi, companheiro de Serra no início de sua jornada na Red Bull, venceu uma prova.

Certamente, a ausência da Red Bull do grid da Stock Car será sentida por muitos, muitos anos.

A Red Bull encerrou um ciclo vitorioso na Stock Car em 2016
Bruno Terena/Red Bull Content Pool

1) Fraga faz história e conquista título da Stock Car

Brilhante e irretocável. Assim foi a campanha do piloto mais jovem a conquistar um título na Stock Car. Aos 21 anos, cinco meses e oito dias, Felipe Fraga fez história na principal categoria do automobilismo nacional. O paraense criado no Tocantins e hoje residente em Curitiba conquistou nada menos que cinco vitórias: Santa Cruz do Sul, no primeiro semestre, e outros quatro triunfos na segunda parte da temporada: a Corrida do Milhão, em Interlagos; Londrina, Curitiba e Curvelo.

Na grande final, Fraga só precisava chegar em 12º para faturar o título. Chegou em décimo depois de parar nos boxes para colocar pneus de chuva. Rubens Barrichello bem que tentou, se arriscou na pista úmida e seguiu com os pneus slicks, chegou em segundo, mas adiou o sonho do bi para 2017.

Foi uma campanha marcada pela conquista da maturidade e de uma postura agressiva, mas ao mesmo tempo cerebral na pista. Fraga mudou muito e melhorou demais justamente depois do terrível acidente sofrido em Curitiba em 2015. Foi o ponto de partida para uma jornada que culminou com sua evolução desde então. Em 2016, quando teve carro para vencer, Fraga venceu. Quando não teve condições, buscou os melhores resultados possíveis, tudo em nome do campeonato.

Foi uma jornada com pouquíssimos erros e muitos acertos, estratégias vitoriosas, cabeça, determinação, pilotagem aguerrida e brilhante. Fraga tem enormes méritos em uma campanha marcada por um trabalho praticamente perfeito da Cimed, time de João Adibe e chefiado por William Lube, que faturou o segundo título seguido entre os construtores. Méritos também para Marcos Gomes que, impossibilitado de lutar pelo bicampeonato, deu todo o suporte para o jovem Fraga brilhar e ser o mais jovem campeão da história da Stock Car, superando a antiga marca, que era de Giuliano Losacco, de 27 anos, oito meses e 15 dias.

Um recorde que dificilmente será quebrado na categoria e coroou uma campanha perfeita de Felipe Fraga, o homem do ano na Stock Car.

Felipe Fraga encerrou a temporada 2016 como o homem do ano na Stock Car
Fábio Davini/Vicar