Destaques da pré-temporada da F1

Da Ferrari animada com início promissor à velocidade dos carros nas curvas. Testes em Barcelona dão boa ideia da relação de forças da principal, e digitalmente renovada, categoria do automobilismo. Os amantes do automobilismo agradecem pela interatividade

André Avelar, São Paulo
 

Passados os testes da pré-temporada da F1, agora é pra valer. A próxima vez que os carros entrarem na pista será para acelerar pelo traçado do Albert Park, em Melbourne, no GP da Austrália. A abertura da renovada, e ainda, mais prestigiada categoria do automobilismo tem a largada na madrugada de domingo (26), às 2 horas (pelo horário de Brasília). Mas qual será a ordem de forças do Mundial? A Mercedes passeará outra vez sobre as adversárias?

As duas semanas de testes em Barcelona, na Espanha, serviram, claro, para dar um gostinho maior aos amantes de velocidade além de já apresentar como devem ser as coisas a partir de agora. E não apenas sobre desempenho dos carros. As sessões na Catalunha mostraram ainda um pouco da ideia dos novos donos da F1. O grupo norte-americano Liberty Media nem bem chegou e já fez questão de deixar a sua marca, sobretudo, na relação com os fãs. 

Sebastian Vettel demonstrou boa dose de bom humor nos testes de pré-temporada em Barcelona
Divulgação/Ferrari

Otimismo italiano
A Ferrari deixou os testes de pré-temporada bastante animada com os resultados de pista. Certo que o mesmo já havia acontecido no ano passado, quando a escuderia italiana terminou sem uma vitória sequer, mas agora parece ser diferente. Há uma década sem título, o time está mesmo disposto a acabar com esse pra lá de incômodo jejum. E olha que talvez nem precise ser exatamente com o tetracampeão Sebastian Vettel.

Um agora “Kimi Räikkönen família”, ou versão “paz e amor”, fez simplesmente o tempo mais rápido das duas baterias de testes em Barcelona, com 1min18s634. A Ferrari fingiu que nada aconteceu, chegou a esconder seus pilotos, mas não evitou que eles deixassem escapar que gostaram do carro e ainda têm mais a tirar da SF70H.

Vettel boca suja. De novo?
No ano passado, Vettel reclamou de deus, mundo, engenheiros, mecânicos, Charlie Whiting... Em alguns momentos, dada a proliferação de mensagens via rádio divulgadas na transmissão oficial das corridas, chegou a ser cômico. Nos testes de Barcelona, o alemão também se deu ao luxo de um momento, no mínimo, descontraído.

Perguntado sobre o futuro da Ferrari em 2017, Vettel disse que não tinha bola de cristal. “Tenho outras duas bolas, mas elas não me contam muita coisa”.

Apesar da brincadeira, a dúvida está em afirmar quanto tempo o tetracampeão vai aguentar sem lutar pelas vitórias e repetir o já conhecido “efeito Fernando Alonso” ao procurar outro carro campeão. O atual contrato de Vettel com a Ferrari termina no fim deste ano.

Andaram (ainda mais) para trás
O abismo em que se encontra a McLaren ficou ainda mais escancarado nos testes no Circuito de Barcelona-Catalunha. A questão não parece ser apenas o empobrecido motor Honda, mas a estrutura organizacional da equipe como um todo. Trata-se de algo relacionado a auto-estima de quem já teve um passado glorioso. Os mecânicos pareciam olhar envergonhados para o carro – e a pintura laranja nada tem a ver com isso. 

Alonso, aparentemente ainda mais sincero do que no ano anterior, detonou a Honda nos quesitos potência e confiabilidade, mas pelo menos celebrou a volta da F1 de verdade, em que não é preciso “correr como criancinhas”. Mesmo sem resultados expressivos na pista, atraiu todos os holofotes na Espanha. O companheiro de equipe Stoffel Vandorne foi meramente coadjuvante e também andou pouco.

“Menino mimado”
É cedo para taxar qualquer jovem piloto que entra na cada vez mais concorrida F1. Se, no entanto, a primeira impressão é a que fica, a de Lance Stroll é das piores possíveis. O estreante, de apenas 18 anos, não fez muito para livrar a pecha de “menino mimado” com entrevistas vazias e, mais do que isso, pareceu não se importar com os sucessivos erros em uma pista bastante conhecida por todos.

As barbeiragens do canadense prejudicaram inclusive o andamento dos testes da Williams, já que não havia peças de reposição para partes estragadas por Stroll. Companheiro de equipe e afetado pelas batidas, Felipe Massa contemporizou e foi o primeiro a livrar a barra do imberbe garoto.

Lance Stroll recebeu apoio de Felipe Massa mesmo após sucessivos erros na pista de Barcelona
Divulgação/Williams

Massa renovado
Apesar de Stroll, Massa ficou satisfeito com os resultados dos testes na Catalunha. O brasileiro, de volta à F1 depois de uma brevíssima aposentadoria, espera reencontrar aquela competição que por pouco não lhe rendeu o título mundial. O experiente piloto não escondeu que os novos carros atendem ao seu melhor estilo de pilotagem.

A própria Williams também demonstrou otimismo com o que foi testado. Claire Williams e Rob Smedley foram unânimes nos elogios ao carro mais agressivo e veloz, exatamente, como por pouco não consagrou o mesmo Massa em 2008. Não será exagero ver a equipe inglesa no pódio ao longo da temporada.

Pé embaixo mesmo nas curvas
Uma prova da F1 mais rápida pode ser notada não pela velocidade em reta, mas sim pela agressividade nas curvas. Com os carros maiores, com mais aerodinâmica e, sobretudo, com mais aderência ao solo dados os pneus mais largos, os pilotos ignoram solenemente as velhas placas de 50 metros para a curva.

Alguns pilotos ainda deixaram escapar que curvas que antes eram necessários um toque no freio, hoje podem ser feitas com pé embaixo. Um vídeo divulgado pela própria F1 mostra um comparativo interessante na pole-position de Lewis Hamilton em 2016 e a volta mais rápida de Raikkonen neste ano, no circuito catalão. Resultado? Exatos 3s366 em favor do finlandês e, claro, do novo carro.

Prazer, mídias sociais

 

finally we are allowed to film in the garage 👌🏻 #liberty

Uma publicação compartilhada por NICO ROSBERG (@nicorosberg) em

Aliás, essa história de “interatividade”, não era lá muito aceita na F1. Isso até a compra pelo grupo norte-americano Liberty Media. Os novos donos da ainda principal categoria do automobilismo decidiram se abrir de vez para as redes sociais e permitiram que seus pilotos e equipes enviassem aos fãs imagens que antes eram impensadas. 

Mesmo o agora aposentado Nico Rosberg tirou uma lasquinha da inovação no paddock e gravou um vídeo de dentro dos boxes da Mercedes. O alemão acompanhou a saída para pista do seu sucessor Valtteri Bottas. Lewis Hamilton, piloto de longe o mais ativo e com mais seguidores na internet, foi outro que usou e abusou das ferramentas disponíveis para exibir detalhes da sua rotina na Espanha.

Mercedes na ponta
Dona do Mundial nos últimos três anos, a Mercedes ainda é a grande favorita ao título. Ao que tudo indica, as coisas não serão desta vez tão fáceis como de costume apesar da impressão no ar de estar escondendo o jogo, como já fizeram nos últimos anos. O W08 Hybrid é certamente outro bom projeto da equipe mesmo ao ser comparado com as adversárias que evidentemente evoluíram. 

Estranho será não ver o campeão Rosberg defender seu título. Soma-se a essa estranheza, o fato de Bottas ainda suscitar dúvidas na garagem alemã. Bem por isso, Hamilton tende a correr sozinho. Se no começo o inglês não queria dividir dados de telemetria com ninguém, agora já fala que Bottas é o melhor companheiro de equipe com quem se pode trabalhar. Muito, claro, da guerra psicológica que Hamilton desenvolveu tão bem ao longo dos últimos anos.

Rivalidade caseira
Sem a guerra curva a curva entre Rosberg e Hamilton, alguém pode pensar que a F1 começa sem uma rivalidade digna de tirar alguém da cama domingo pela manhã. Não é por aí. Com os carros mais largos e maior pressão aerodinâmica, as ultrapassagens tendem a ficar ainda mais complicadas. A partir daí, imaginem novos enroscos entre Max Vertappen e Räikkönen. Não é difícil de imaginar o holandês no meio da pista com o finlandês vociferando sem conseguir ultrapassar.

Sobre finlandeses, Räikkönen e Bottas podem travar duelos interessantes entre Ferrari e Mercedes. Com o novo equilíbrio de forças na categoria, os dois que já tiveram problemas no passado, quando ainda nem lutavam pelas primeiras colocações, devem se encontrar mais. Com carros ainda melhores, o pega tende a ficar melhor na rivalidade caseira.  

Red Bull não chamou tanta atenção quanto Toro Rosso nos testes, mas ainda deve evoluir
Divulgação/Red Bull Content Pool

Pelas beiradas
O começo de temporada da Red Bull até agora foi discreto. Até agora. Ingenuidade acreditar que a tetracampeã mundial perdeu a mão logo em um ano com tanta revolução aerodinâmica. Nas mãos do mago Adrian Newey, os touros ainda devem demonstrar bravura já no GP da Austrália ou mesmo no decorrer da temporada.

Daniel Ricciardo e Vertappen andaram opacos nos testes de Barcelona, é verdade. Sem tempos exorbitantes, nem declarações polêmicas, ficaram atrás até mesmo das chamativas Toro Rosso, com uma pintura metálica em azul e vermelho que reproduz a lata do energético da empresa. Mais bem adaptados e com o carro mais no chão, Daniil Kvyat e Carlos Sainz Junior também devem mostrar bons resultados.